Por que o Plano Real deu certo?

Classificado em Economia

Escrito em em português com um tamanho de 3,67 KB

A esta altura, cabe tentar responder: “Por que o Plano Real deu certo?”. A resposta envolve um conjunto de fatores que, reunidos, fizeram a diferença.

Em primeiro lugar, as condições externas para a estabilização eram muito melhores em 1994 do que nos anos de 1980. Havia abundância de liquidez internacional e um elevado patamar de reservas (US$40 bilhões). Além disso, na década de 1990 a economia brasileira se tornou muito mais aberta. Por último, mas não menos importante, o Brasil concluiu um acordo nos moldes do Plano Brady somente em abril de 1994 (tendo sido um dos últimos países latino-americanos a fazê-lo), o que possibilitou o reescalonamento da dívida externa. Todas essas características foram fundamentais para assegurar a eficácia da âncora cambial, introduzida após o lançamento do Real. Nesse sentido, o Plano Real, se aplicado no contexto dos anos 1980, provavelmente fracassaria.

Em segundo lugar, a estratégia da URV provou ser muito superior à de desindexação via congelamento de preços. Enquanto o último provocava uma série de desajustes nos preços relativos, a URV previa um período para o alinhamento destes preços.

Em terceiro lugar, o governo contava com o apoio político do Congresso e uma perspectiva de continuidade com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Por fim, os elevados juros e o câmbio apreciado foram armas fundamentais na consolidação da estabilidade durante todo o período 1995-98, embora com profundas consequências sobre a dinâmica da dívida pública e para o crescimento.

Diante da observação de que diversas economias latino-americanas se estabilizaram nos anos 1990, é impossível evitar uma pergunta final: “Se todos se estabilizaram nessa década, o que o Plano Real possui de especial?”.

A resposta, a nosso ver, passa pela compreensão de que essas economias têm em comum com o Brasil o uso do câmbio como estratégia de estabilização, em um contexto de elevada liquidez internacional. Todavia, o Brasil, ao contrário das demais, que eram, em grande medida, economias dolarizadas, desenvolvera um sofisticado sistema de indexação, extremamente difícil de ser desarmado, como mostrou a penosa década de 1980. Por um lado, o Brasil estava em desvantagem.

De fato, estabilizar economias já formal ou informalmente dolarizadas é tarefa muito mais simples, na medida em que a memória inflacionária já desapareceu e basta fixar o câmbio. Por outro lado, o Brasil, com seu sofisticado sistema de indexação, manteve, em grande medida, as funções de sua moeda — se não intactas, muito mais ativas do que nas outras economias. Mais importante — em contraposição, por exemplo, à Argentina, que adotou o caso extremo de âncora cambial, o Conselho da Moeda — o câmbio fixo sem lastro do Real permitia, uma vez domada a inflação, retomar graus de liberdade no uso da política monetária e fiscal no combate à inflação.

A vitória sobre a inflação obtida no Plano Real foi, sem dúvida, uma grande e importante conquista. O passar dos anos, porém, revelaria que esta se limitou à estabilidade dos preços, mantendo-se a instabilidade no lado real da economia, com persistência da volatilidade do crescimento, baixos investimentos — sobretudo os de longo prazo de maturação —, baixo desenvolvimento do mercado de crédito e permanência do viés curto-prazista dos ativos financeiros. A crença, compartilhada desde a década de 1980, de que o fim da inflação per se colocaria o país em rota de crescimento, infelizmente, não se materializou.

Entradas relacionadas: