Psicologia Social: Atração, Agressão, Perceção e Memória
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Fatores que influenciam a atração interpessoal
Podemos definir atração interpessoal como a avaliação cognitiva e afetiva que fazemos dos outros e que nos leva a procurar a sua companhia. Manifesta-se pela preferência que temos por determinadas pessoas, que nos levam a gostar de estar com elas e a partilhar confortavelmente a sua presença. Embora o processo de atração esteja relacionado com a história pessoal de cada um, há fatores que, pela regularidade com que aparecem, explicam o que nos leva a sentir‑nos atraídos por algumas pessoas: a proximidade, a familiaridade, a atração física, as semelhanças interpessoais, as qualidades positivas, a complementaridade e a reciprocidade.
Principais fatores
- Proximidade: A proximidade geográfica é um fator poderoso: tendemos a sentir‑nos mais atraídos pelas pessoas mais próximas (estas também são as que podem gerar mais conflitos).
- Familiaridade: Relaciona‑se com a proximidade; a atração relativamente a uma pessoa pode aumentar se estivermos frequentemente com ela. São as pessoas com quem lidamos mais vezes que nos são mais acessíveis e, portanto, mais suscetíveis de nos atraírem.
- Atração física: As pessoas consideradas fisicamente mais atraentes (segundo os padrões culturais) causam melhores impressões iniciais, o que incentiva a atração. Este fator opera sobretudo no primeiro contacto visual (primeira impressão).
- Semelhanças interpessoais: Sentimo‑nos atraídos por pessoas que têm sentimentos, comportamentos, atitudes, opiniões, interesses e valores semelhantes aos nossos.
- Qualidades positivas: Gostamos mais de pessoas que apresentam características que consideramos agradáveis do que daquelas que consideramos desagradáveis.
- Complementaridade: Embora, numa primeira fase, as semelhanças interindividuais favoreçam a aproximação, no desenvolvimento da relação as pessoas podem ser atraídas por traços que elas próprias não possuem; são as assimetrias que tornam o outro atraente na medida em que se complementam.
- Reciprocidade: Tendemos a simpatizar mais com quem nos aprecia; quando gostamos de pessoas que gostam de nós, a atração reforça‑se.
Outros fatores relacionados
- Respeito – valorização da competência, capacidade ou talento do outro.
- Aceitação – pela compreensão e disponibilidade demonstrada pelo outro.
- Estima – a simpatia da outra pessoa aumenta a atração que sentimos por ela.
- Gratidão – pelo bem que o outro proporciona.
Tipos de agressão
Agressão é um comportamento que visa causar danos físicos ou psicológicos a uma pessoa ou a um grupo e que reflete alguma intenção de ferir ou destruir.
Quanto à intenção do sujeito
- Agressão hostil: Tipo de agressão emocional e geralmente impulsiva. Visa causar dano ao outro, independentemente de qualquer vantagem que o agressor possa obter. Exemplo: um condutor bate propositadamente na traseira do automóvel que o ultrapassou.
- Agressão instrumental: Agressão orientada para um objetivo — tem por fim conseguir algo, independentemente do dano que possa causar. Normalmente é planeada e não impulsiva. Exemplo: num assalto, a finalidade é obter o dinheiro; a agressão é subproduto da ação.
Quanto ao alvo
- Agressão direta: O comportamento agressivo dirige‑se à pessoa ou ao objeto que justificou a agressão. Exemplo: a criança agride o colega que lhe tirou o brinquedo.
- Agressão deslocada: O sujeito dirige a agressão a um alvo que não é responsável pela causa original. Exemplo: a educadora, presente e impedida de agredir o colega que lhe tirou o brinquedo, dá um pontapé na parede.
- Autoagressão: O sujeito dirige a agressão contra si próprio. Exemplo: os pais recusam um brinquedo ao filho e este recusa‑se a almoçar.
Quanto à forma de expressão
- Agressão aberta / explícita: Manifesta‑se pela violência física ou psicológica, é explícita. Exemplos: espancamento, humilhação, ataque à autoestima.
- Agressão dissimulada / disfarçada: Recorre a meios não evidentes para agredir, mas pode causar danos e alterar a autoestima do alvo. Exemplos: sarcasmo, cinismo.
- Agressão inibida: O sujeito não manifesta agressão ao outro, mas dirige‑a contra si próprio. Exemplo: sentimento de rancor.
Fatores que induzem ao comportamento agressivo
Nos seres humanos, a manifestação e a expressão da agressividade dependem fortemente do contexto social, da aprendizagem e das experiências anteriores. A predisposição para a agressividade pode ser estimulada ou inibida; assim se explicam as diferenças na sua expressão em diferentes épocas, entre diferentes culturas e entre diferentes pessoas que partilham a mesma cultura.
Fatores que podem induzir à agressão:
- Mecanismos biológicos
- Consumo de álcool
- Temperaturas muito elevadas
- Variações culturais no nível de agressividade
- Familiaridade com armas
- Exposição frequente a notícias sobre violência
- Falta de realismo ao retratar o sofrimento das vítimas
- Filmes e séries em que a agressividade é o centro da ação
Posições de alguns autores sobre a origem da agressividade
Freud
Segundo Freud, tal como a sexualidade, a agressividade faz parte da natureza humana. A vida psíquica e o desenvolvimento seriam orientados por pulsões/instintos. O fundador da psicanálise distingue dois grandes tipos de pulsões: a pulsão de vida, Eros (relacionada com a manutenção do indivíduo e com as pulsões sexuais), e a pulsão de morte, Tânatos (autodestrutiva, explica comportamentos agressivos e teria origem inata). A agressividade teria, assim, uma origem biológica: seria uma energia que tem de ser descarregada. Uma das principais funções da socialização e das regras sociais é tentar reprimir esta pulsão destrutiva.
Lorenz
Para Lorenz, a agressão é inerente (essencial) a todos os organismos: a energia agressiva faz parte da natureza humana. Seria um impulso específico que, face a um dado contexto, conduziria à agressão. A agressividade seria um comportamento inscrito geneticamente sob a forma de um programa desencadeado por estímulos adequados. Teria um valor de sobrevivência para a espécie e seria fundamental para a sua preservação. Diferentemente de outros animais, o ser humano, segundo Lorenz, não possuiria mecanismos reguladores eficazes no controlo da agressividade.
Dollard
Dollard explica a agressão pelo facto de um sujeito ter sido frustrado: existiria uma ligação inata entre um estímulo (a frustração) e o comportamento agressivo. A agressão funcionaria como meio de afastar tudo o que impede o sujeito de atingir os seus objetivos. Exemplos do dia a dia fundamentam essa explicação: a pessoa que perde o autocarro, o jogador expulso de um jogo podem manifestar comportamentos agressivos. Foram apontadas muitas críticas a esta teoria, pois nem todas as pessoas reagem à frustração através da agressão, e podem ocorrer agressões sem frustração prévia (por exemplo, uma brincadeira de mau gosto).
Bandura
Bandura defende que o comportamento agressivo resulta de um processo de aprendizagem baseado na observação e imitação de modelos agressivos. A criança, no seu processo de socialização, imitaria comportamentos de pais, professores e pares, incluindo os agressivos (teoria da Aprendizagem Social / Modelagem).
Tipos de manifestações do amor, segundo Sternberg
Nas suas pesquisas com dezenas de casais, Sternberg descobriu que o amor se manifesta de diferentes formas. Propôs a Teoria Triangular do Amor, na qual os três componentes principais são: intimidade, paixão e compromisso.
- Intimidade: Envolve sentimentos de proximidade, ligação emocional e partilha. É um ingrediente essencial para que um relacionamento se sustente ao longo do tempo, incluindo o conhecimento mútuo da história pessoal e emocional do parceiro.
- Paixão: Relacionada com o desejo sexual e a atração física; é a componente que geralmente gera a intensidade inicial e o romance.
- Compromisso (ou decisão): Consiste inicialmente na decisão de amar alguém e, em seguida, no empenho em manter esse relacionamento. Em contextos contemporâneos (ex.: cultura do "ficar"), o compromisso pode ser relativamente negligenciado em favor da intensidade momentânea.
Definir estereótipos e preconceitos
Estereótipo é o conjunto de crenças que oferece uma imagem simplificada das características de um grupo ou dos seus membros. São crenças sobre atributos e comportamentos de determinados grupos, formas rígidas e esquemáticas de pensar que resultam de processos de simplificação e que se generalizam a todos os membros do grupo. Exemplos: «os brasileiros são alegres», «as mulheres têm um sexto sentido», «os indianos são inteligentes».
Preconceito é uma atitude que envolve um pré‑juízo, geralmente negativo, relativamente a pessoas ou grupos. Embora assentando também na categorização social, o preconceito difere do estereótipo porque, além de atribuir características ao grupo, ainda as avalia moral ou afetivamente, frequentemente emitindo juízos negativos.
O estereótipo fornece os elementos cognitivos sobre um grupo e o preconceito lhes acrescenta a componente afetiva e valorativa. É correto afirmar que o estereótipo é muitas vezes a base do preconceito.
Relacionar estereótipos, preconceitos e discriminação
O preconceito pode manifestar‑se verbalmente ou através de comportamentos que concretizam atos de discriminação. Discriminação designa o comportamento dirigido aos indivíduos visados pelo preconceito. Na base da discriminação está o preconceito, que sendo uma atitude injustificada e desfavorável, pode conduzir a ações discriminatórias. Não se deve confundir preconceito (atitude) com discriminação (comportamento): o tipo de discriminação está ligado ao preconceito subjacente.
Relacionar discriminação e autoestima
A discriminação social tem graves consequências para a autoestima das pessoas afetadas. Estudos mostram que os grupos discriminados frequentemente acabam por partilhar juízos negativos sobre si próprios. Ao serem vítimas de preconceitos, as pessoas tendem a interiorizar as razões da discriminação e a concordar com elas, perdendo autoestima e amor‑próprio em favor da opinião depreciativa comum.
Sensação e perceção
Perceção é um processo cognitivo que não se limita ao registo da informação sensorial: implica atribuição de sentido baseada na nossa experiência. É o processo através do qual entramos em contacto com o mundo, através dos órgãos dos sentidos, que nos informam sobre cores, sons e texturas. Pela perceção, organizamos e interpretamos as informações sensoriais recebidas pelos órgãos recetores, que transformam os estímulos em sensações (o primeiro contacto com o meio), traduzidas em impulsos nervosos e processadas pelo sistema nervoso central.
Ao contrário das sensações, as perceções são fruto de um trabalho complexo de análise e síntese, mediatizado por conhecimentos, experiências, expectativas e interesses do sujeito.
Mente: processos cognitivos, emocionais e conativos
O ser humano é um organismo complexo cujo desenvolvimento decorre desde a fecundação até à morte. A mente é constituída por um conjunto de processos integrados que formam pensamentos e fazem a ligação entre o indivíduo e o mundo exterior. Os processos mentais — cognitivos, emocionais e conativos — relacionam‑se, respetivamente, com o saber, o sentir e o fazer. Estas três dimensões cruzam‑se de forma íntima e interativa.
Os processos cognitivos tratam da criação, transformação e utilização da informação; os processos emotivos estão ligados às vivências subjetivas e interpretações; os processos conativos traduzem‑se em ações e comportamentos, respondendo a perguntas como «porquê?».
Perceção como construção mental
A perceção é mais do que a experiência simples dos estímulos: é a interpretação das informações sensoriais recebidas e remete para a nossa experiência pessoal. A visão que temos do mundo não é uma reprodução objetiva da realidade, mas sim uma interpretação condicionada por fatores fisiológicos (órgãos recetores e estruturas do sistema nervoso), pela memória, experiência e cultura. A perceção social interpreta situações e comportamentos dos outros à luz do contexto social em que a pessoa se insere.
Fatores que contribuem para o caráter subjetivo da perceção
Percebemos o meio em função dos nossos conhecimentos prévios, necessidades, interesses, valores, expectativas, motivações, estados emocionais, experiências, cultura, estereótipos e preconceitos — não de forma neutra e objetiva. A perceção permite antecipar consequências e preparar‑nos para eventos futuros; por isso é subjetiva e orientada pela utilidade para o sujeito.
Manifestações da constância percetiva
A constância percetiva mostra como a perceção não é mera cópia da realidade, mas uma interpretação que se mantém estável em condições físicas variadas:
- Constância de tamanho: Perceção do tamanho de um objeto ou pessoa independentemente da distância a que se encontra; o cérebro mantém o tamanho percebido.
- Constância da forma: Um objeto nunca projeta sempre a mesma imagem retiniana (varia a luz, o ângulo de visão); o reconhecimento depende de experiências anteriores, memórias e aprendizagens.
- Constância do brilho e da cor: Mantemos a mesma perceção de brilho e cor mesmo quando as condições físicas mudam; a memória e a experiência retêm e atualizam as características dos objetos.
Importância da memória
A memória é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações, seja internamente (no cérebro) seja externamente (em dispositivos). As três funções básicas são: codificação, armazenamento e recuperação. A memória assegura a nossa identidade pessoal e é essencial para a adaptação, aprendizagem e sobrevivência.
Memória a curto prazo vs memória a longo prazo
Não retemos todas as informações durante o mesmo tempo. Distingue‑se:
- Memória a curto prazo: Mantém a informação por um período limitado; pode definir‑se a memória imediata (retenção por cerca de 30 segundos) e a memória de trabalho (manter a informação enquanto é útil).
- Memória a longo prazo: Retém materiais codificados por horas, meses ou por toda a vida. Diferentes registos (auditivo, visual, tátil, olfativo, linguagem, movimento) são armazenados em diferentes áreas cerebrais. Distinguem‑se, entre outras categorias, memória não declarativa e memória declarativa.
Processos mnésicos
Os três processos fundamentais da memória são:
Codificação
A informação sensorial é preparada para ser armazenada; os dados são traduzidos em códigos acústicos, visuais ou semânticos.
Armazenamento
Os vários elementos de um episódio são armazenados em diferentes áreas cerebrais, codificados segundo códigos distintos. Ao evocar uma memória, esses elementos são reconstruídos. Com o tempo, a informação armazenada pode sofrer alterações, mas também tende a estabilizar‑se.
Recuperação
A informação é lembrada ou evocada. Questões do quotidiano (ex.: «em que cidade vives?») respondem‑se automaticamente; perguntas mais especializadas exigem reconhecimento e evocação (ex.: lembrar‑se de uma lei aprendida e recuperar o seu conteúdo).
Memória não declarativa e memória declarativa
Memória não declarativa é automática e está ligada à atividade motora: acedemos a ela quando agimos (ex.: apertar atacadores). Tornou‑se automática pela prática; não exige localização no tempo e no espaço para ser executada.
Memória declarativa implica consciência temporal e reporta factos, pessoas e acontecimentos; permite descrever conteúdos. Enquadram‑se aqui a memória episódica e a memória semântica.
Memória como processo ativo e reconstrutivo
A cada segundo recebemos muitos estímulos; o cérebro filtra e seleciona o que é relevante para o indivíduo. A memória é um processo ativo que codifica, armazena e recupera apenas a informação selecionada, reconstruindo os dados recebidos quando é necessário evocá‑los.
Esquecimento como processo inerente à memória
O esquecimento é a incapacidade de recuperar informações memorizadas. É um processo inerente e adaptativo: se retivéssemos tudo, seria impossível adquirir novas informações. O esquecimento tem uma função seletiva, afastando materiais inúteis. A amnésia, em contraste, é uma patologia da memória, muitas vezes causada por doenças degenerativas, choques emocionais ou lesões cerebrais.