Ratiovitalismo de Ortega y Gasset: razão vital e histórica

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Ratiovitalismo

O ratiovitalismo, atitude filosófica fundamental de Ortega y Gasset, é uma teoria do conhecimento que parte da vida, ou seja, que o conhecimento está enraizado na vida. Procura superar tanto o racionalismo extremo (Platão e Descartes) quanto o vitalismo irracional (Nietzsche); antes, sustenta que há uma íntima relação entre a razão e a vida.

Ortega acredita que o racionalismo, de certa forma, mata a história porque faz a abstração do tempo. Como ratiovitalista, Ortega propõe a criação de uma união íntima e estreita entre a razão, a vida e a história. Certo é vital: o homem é um ser dotado de razão, mas a razão tem que ser usada, acima de tudo, para viver.

A razão vital de Ortega procura vencer e coletar os elementos do racionalismo e do vitalismo. Todo o conhecimento nasce da vida, e a razão é parte dela: conhecer é bem viver, porque viver — para o homem — implica existência concreta.

1. O significado da razão

No sentido tradicional, fala-se genericamente daquilo que poderia ser chamado de "razão pura", presente desde os filósofos gregos até Kant e o Iluminismo. Nesse sentido, a razão foi entendida como o poder que capta a essência das coisas, o imutável, o conceito abstrato.

Filósofos antigos e modernos depositaram grandes esperanças nesse tipo de racionalidade, pois acreditavam que ela permitiria compreender e dominar o mundo, assim como entender o homem e estabelecer fundamentos morais e políticos. Esses ideais tradicionais da modernidade foram, em parte, alcançados: Ortega reconhece que o ideal iluminista permitiu grande avanço no conhecimento do mundo físico, pois essa racionalidade nos possibilitou compreender e dominar a natureza em grau impensável no passado. Mas ela falhou onde talvez fosse ainda mais importante para o Iluminismo e para a modernidade como um todo: no conhecimento da realidade humana e na descoberta de princípios de comportamento racional que permitissem ao homem uma vida justa, responsável e livre. (Mesmo em ciências e matemática nem tudo é puramente racional: lembre-se, por exemplo, da existência de números irracionais.)

Ortega y Gasset, portanto, dá outro significado à razão: "Para mim, a razão é, no sentido verdadeiro e rigoroso, a ação intelectual como um todo que nos põe em contato com a realidade."

3. Razão vital e razão histórica

A razão vital conduz necessariamente à razão histórica, porque a vida é essencialmente mudança e história. A razão histórica visa a compreensão da realidade humana a partir de sua construção histórica e das categorias da vida; com ela podemos superar as limitações da razão pura e da matematização propostas pela modernidade. Ortega repetiu frequentemente que uma das deficiências mais importantes da filosofia tradicional é a ideia de que a realidade deve ser estática: a mudança seria, assim, pouco real.

Para a razão vital não existe uma teoria pura e desligada; existe uma razão que interpreta o ambiente em que se vive. A razão vital e histórica é capaz de captar a realidade fluida que é a vida. Razão, vida e história estão ligados. Não há oposição absoluta entre razão e vida, como se previa no passado: a razão é uma forma viva e espontânea de ver e sentir. A razão pura não deve suplantar a razão histórica e vital proposta por Ortega.

Desde a Grécia, entendeu-se a "razão" como a faculdade que capta a essência das coisas, o conceito abstrato e imutável. Essa concepção culmina na razão matemática dos racionalistas do século XVII e na razão pura de Kant. Mas a razão matemática, por ser "exata", transforma-se em matematização ao longo do tempo e torna-se incapaz de apreender a realidade em mutação, imprecisa e temporal da vida. Assim surge o irracional.

Ortega não é contra a razão, é contra o racionalismo. Raciocinar é compreender algo inserindo-o no seu contexto, na vida real. A própria vida funciona como razão. A razão fundamental leva-me a compreender o ser humano numa dimensão mais complexa que a definição estática da razão pura: eu sou eu e minha circunstância.

Eu sou eu: a vida é individual, consciencial e íntima (ser você mesmo), sem perder de vista o mundo exterior.

E a minha circunstância: minha vida não é só eu, mas toda a realidade que me rodeia. O fato é que o sujeito está imerso num mundo de vida, o que inclui o mundo físico e todo o ambiente que aparece na existência (história, cultura, sociedade, ...).

Em suma, o eu e suas circunstâncias são inseparáveis, porque não se pode viver além das circunstâncias. A vida humana só pode ser entendida como projeto, invenção em circunstâncias específicas.

Em conclusão, a razão fundamental:

  1. Significa que, como seres humanos, criamos, fazemos e pensamos com base na nossa vida. ("... os conceitos-chave não lhes são tirados pela razão ou pelo puro intelecto, mas vêm como imposição vital").
  2. Pretende apreender qualquer realidade tal como ela é em seu sentido pleno, em sua singularidade e em sua racionalidade ou irracionalidade.
  3. É, inevitavelmente, histórica, porque está sempre situada em circunstâncias históricas específicas e também refere-se a um momento determinado.

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