Reabsorção Radicular Ortodôntica: Genética, Não Hereditária

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Insight Ortodôntico

A Reabsorção Radicular Ortodôntica: Inflamatória e Genética, Mas Não Hereditária

Sobre a identificação dos receptores P2X7 e CP-23

Por Alberto Consolaro e Maria Fernanda M-O. Consolaro

A reabsorção radicular associada ao tratamento ortodôntico é do tipo inflamatória, ou seja, acontece como consequência do processo inflamatório instalado no ligamento periodontal. A forma pela qual a inflamação pode ser desencadeada, os mecanismos pelos quais ela ocorre e as suas possíveis evoluções são transmitidos pelos pais através dos genes. Praticamente todas as funções orgânicas são geneticamente controladas.

Contudo, a maior ou menor destruição tecidual observada na inflamação e o melhor ou pior reparo estão condicionados pelos agentes agressores, e não dependem dos genes. Da mesma forma, a quantidade de reabsorção radicular não depende dos genes, mas sim do tipo, intensidade e frequência da força aplicada, que pode ser modificada pela morfologia óssea local e radicular.

Isso pode confundir os clínicos sobre a pretensa existência da suscetibilidade e/ou predisposição individual e familiar para as reabsorções radiculares induzidas por tratamento ortodôntico, cuja falta de fundamentação metodológica é notória. A causa de tais ocorrências seria atribuída ao organismo do paciente, que teria herdado uma maior predisposição. Infelizmente para essa teoria, todos os trabalhos metodologicamente adequados revelam que, na clínica ortodôntica, há uma relação direta entre a força aplicada, a morfologia local e o grau de severidade da reabsorção radicular.

Em outras palavras, o profissional pode planejar seus casos para evitar ou diminuir os danos provocados pelas reabsorções radiculares, mas, para isso, terá que investir tempo, estudo e capacidade de prognóstico. Desde que a anamnese, o exame clínico e o diagnóstico sejam precisos, o planejamento corretamente idealizado e o tratamento adequadamente aplicado, as reabsorções radiculares poderão ser consideradas como um custo biológico do tratamento, e não como iatrogenia.

A Importância da Precisão na Linguagem Científica

Para um professor e cientista, a palavra representa a ferramenta essencial para se comunicar. A exatidão do pensamento, das hipóteses e da comunicação passa, necessariamente, pela precisão do real significado de cada palavra. Uma palavra mal empregada, uma definição imprecisa ou um fenômeno denominado erroneamente têm sido a causa de muitos atrasos no avanço de nossos conhecimentos.

O termo genético representa um adjetivo que dá qualidade a algo relacionado ao gene ou genes. Quase sempre, a ativação de um gene é dependente da ação de mediadores na superfície da célula. O fato de qualificarmos um fenômeno como genético não necessariamente lhe dá uma conotação hereditária. Fenômenos hereditários são transmitidos de pais para filhos, mas nem todo fenômeno genético é hereditário. Os fatores ambientais podem, e com frequência o fazem, modificar as ordens e comandos genéticos originalmente programados. Por exemplo, o câncer de pele decorrente de uma alteração genética provocada pelo sol não será transmitido aos filhos.

Os Genes e a Reabsorção Óssea e Dentária Radicular Ortodôntica

A reabsorção radicular, a modelação e a remodelação óssea são fenômenos com predominante participação de peptídeos e proteínas, sintetizados a partir de informações dos genes. A descoberta de cada gene que comanda a síntese dos vários mediadores envolvidos na reabsorção óssea e dentária durante a movimentação ortodôntica abre novas perspectivas para controlarmos esses fenômenos com medicamentos e procedimentos. Assim aconteceu com os genes que controlam a produção de interleucina-1, RANKL e outros.

Recentemente, destacou-se o papel do receptor P2X7, uma proteína que parece ser um regulador importante do metabolismo do cemento e do ligamento periodontal. Esse receptor está presente em áreas vizinhas à necrose ou sofrimento celular, como ocorre no ligamento periodontal comprimido pelas forças ortodônticas. Outra proteína, a CP-23, parece ter um importante papel no reparo tecidual. Nos resultados de trabalhos relatados, a relação entre a magnitude do estresse mecânico, a reabsorção radicular e a formação óssea era direta.

Quando um gene envolvido na reabsorção é descrito, algumas pessoas afirmam erroneamente: "... estão vendo, a reabsorção radicular é genética, isto é, ela é hereditária, não depende dos procedimentos mecânicos...!"

Isso significa que, na reabsorção radicular, devemos conhecer o papel dos genes na síntese dos mediadores e receptores antes de emitirmos opiniões. A compreensão dos mecanismos permite entender claramente que os fenômenos podem ser genéticos, mas não hereditários.

Consideração Final

A cada descoberta de genes de mediadores e receptores envolvidos direta ou indiretamente na reabsorção óssea e dentária radicular:

  1. Compreenderemos melhor o porquê e como elas acontecem;
  2. Abrem-se perspectivas para controlá-las com o uso de medicamentos e procedimentos preventivos;
  3. Reforça-se que a reabsorção radicular na movimentação ortodôntica decorre dos procedimentos mecânicos sobre os tecidos, pois esses induzem estresse e inflamação, cujos mediadores ativam os mecanismos genéticos para que ela ocorra, sem que isso caracterize o processo como hereditário.

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