A Reconstrução do Pós-Guerra e a Ordem Mundial
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1.1 A Reconstrução do Pós-Guerra
A definição de áreas de influência
A definição das áreas de influência entre as duas superpotências começou a ser discutida antes mesmo de serem designadas como tal, tornando-se claro que a derrota das forças do Eixo era uma questão de tempo, consolidada em 1943 com a vitória soviética em Estalinegrado.
As potências aliadas realizaram diversas conferências nos últimos meses da guerra para discutir a partilha do mundo e as áreas de influência de cada bloco. Participaram os EUA, a URSS e o Reino Unido — este último presente mais pelo prestígio da sua luta contra o nazismo e pelo imenso império colonial que ainda possuía do que pelo seu poder efetivo. Os EUA perceberam que eram a única potência com poder militar e económico suficiente para travar o avanço do comunismo e controlar o imperialismo soviético, contrariando a corrente isolacionista tradicional do país.
A Organização das Nações Unidas
A ONU teve como predecessora a SDN (um organismo elitista e eurocêntrico, marcado por impérios coloniais e desigualdade racial), que visava estabelecer regras internacionais para evitar conflitos armados, fazendo valer o direito sobre a força.
A ONU, com raízes na Carta do Atlântico (1941), delineada pelos EUA e Reino Unido, pretendeu ser o oposto da experiência falhada do entre-guerras. Em 1942, surgiu a Declaração das Nações Unidas, que se tornou o regulamento teórico da nova ordem mundial.
Antes do fim da guerra, em junho de 1945, 51 países assinaram a Carta das Nações Unidas em São Francisco. A sede foi fixada nos EUA, o novo centro económico-financeiro mundial.
A ONU, estabelecida numa era onde o colonialismo começou a ser questionado, tentou criar uma estrutura representativa da diversidade planetária. Um dos seus méritos foi o antinacionalismo, defendendo a descolonização e o princípio da autodeterminação dos povos. Outro mérito foi o estabelecimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos, criando um padrão ético global.
As novas regras da economia internacional
O principal indicador foi o estabelecimento do dólar como moeda de referência internacional, substituindo a libra esterlina. As moedas passaram a ter paridade entre si, baseadas no valor em relação ao ouro, evitando a desvalorização competitiva e estabelecendo um novo Sistema Monetário Internacional.
Em julho de 1944, em Bretton Woods, 44 nações decidiram a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), inserido na estrutura da ONU, para prestar assistência financeira. O objetivo era a expansão dos interesses económicos com o menor número de obstáculos possível.
Após uma tentativa falhada da ONU em 1947 para criar uma Organização Internacional do Trabalho, 23 países assinaram o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) para regular o comércio internacional. A supremacia económica dos EUA refletiu-se também no Plano Marshall para a recuperação da Europa.
A primeira vaga de descolonizações
A primeira vaga de descolonizações iniciou-se em 1947, após resolução da Assembleia da ONU. Ocorreu principalmente na Ásia, com a independência da Índia Britânica, originando o Paquistão e a Índia. O processo contou com a influência de Mahatma Gandhi e a sua filosofia de não-violência.
A Indonésia tornou-se independente em 1949 após guerra com a Holanda. A França, por sua vez, recusou a independência na Indochina até 1954, resultando na criação do Camboja, Vietname e Laos. O Vietname foi dividido, tornando-se, tal como a Coreia, um palco de confrontos da Guerra Fria.
2. O Tempo da Guerra Fria – A Consolidação de um Mundo Bipolar
A Guerra Fria foi um período de conflito latente entre EUA e URSS. O medo do uso de armas nucleares impediu confrontos diretos, levando a ataques indiretos. A aliança forjada durante a guerra foi antinatural, e a ruptura tornou-se inevitável. Em 1947, a Doutrina Truman declarou como prioridade a contenção da expansão do comunismo.
O mundo capitalista: a política de alianças lideradas pelos EUA
O mundo dividiu-se em dois. Os EUA abandonaram o isolacionismo e, através do Plano Marshall (1947), ofereceram ajuda financeira para reconstruir a Europa e evitar a expansão de radicalismos. A URSS respondeu com a Doutrina Jdanov e a criação do Kominform.
Em 1949, foi assinado o Tratado do Atlântico Norte, fundando a NATO, da qual Portugal é membro-fundador, estabelecendo o princípio da segurança comum.
A prosperidade económica e a sociedade de consumo
A recuperação económica europeia, impulsionada pelo Plano Marshall e pelos acordos de Bretton Woods, gerou um crescimento sem precedentes nas décadas de 50 e 60. Este otimismo originou o Baby Boom e a consolidação da Sociedade de Consumo, marcada pelo pleno emprego, acesso ao crédito e publicidade.
A afirmação do Estado-Providência
A expansão do Estado-Providência ocorreu na Europa ocidental entre as décadas de 50 e 70, como uma resposta social ao desafio ideológico do comunismo. Políticas baseadas no socialismo, social-democracia e democracia-cristã focaram-se na redistribuição da riqueza e no bem-estar social.
O mundo comunista: o expansionismo soviético
A URSS estabeleceu um perímetro de segurança, a “cortina de ferro”, para evitar a contaminação capitalista. Em 1949, criou o COMECON e, em resposta à NATO, o Pacto de Varsóvia. O comunismo expandiu-se para a China, Coreia do Norte, Vietname, Cuba e África.
A escalada armamentista
O clima de medo e a fobia de um holocausto nuclear levaram a uma corrida ao armamento. A política de “contenção” americana e a resposta soviética transformaram o mundo num campo de testes bélicos, com a URSS a tornar-se potência nuclear em 1949.
O rápido crescimento do Japão
O “milagre económico japonês” foi impulsionado por capitais americanos no contexto da Guerra Fria, mão-de-obra disciplinada e proteção estatal à indústria. Contudo, o desenvolvimento económico não se traduziu imediatamente num nível de vida elevado para a população.
O afastamento da China do bloco soviético
Após a proclamação da República Popular da China em 1949, o país aliou-se a Moscovo. Contudo, após a morte de Estaline (1953), divergências ideológicas entre Mao Zedong e Kruschev levaram ao afastamento. O Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural foram marcos trágicos da governação de Mao.
A ascensão da Europa
A construção europeia iniciou-se com a OECE (1947) e a Comunidade do Carvão e do Aço. Jean Monnet propôs uma integração económica gradual. Seguiram-se o Tratado de Roma e a criação da CEE. O processo evoluiu para a União Europeia, com a criação do Mercado Único e a adoção do Euro.
A política de não-alinhamento
Na Conferência de Bandung (1955), nações recém-independentes tentaram recusar o alinhamento com os blocos da Guerra Fria, criando o movimento dos não-alinhados e a noção de Terceiro Mundo, embora a dependência económica das antigas metrópoles (neocolonialismo) tenha persistido.
3. O Termo da Prosperidade Económica: Origens e Efeitos
O fim do crescimento económico ocidental foi marcado pela crise petrolífera de 1973. A saturação do mercado, o aumento dos custos de produção e a desvalorização do dólar criaram um cenário de estagflação (estagnação económica com inflação). As políticas estatistas falharam, dando lugar a novas soluções neoliberais.