Reforma Psiquiátrica: Rupturas e Referências Teóricas

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Portanto, vejamos a ruptura que essas experiências efetuaram com relação às anteriores – particularmente a Psiquiatria Democrática, cuja experiência alcançou impacto mundial:

  • Extinção do hospital psiquiátrico: Afirmou-se pela primeira vez ser possível e necessária a extinção do hospital psiquiátrico, dado o fracasso de todos os esforços anteriores para transformá-lo num espaço terapêutico.
  • Crítica à neutralidade científica: Denunciou-se a pretensa neutralidade da ciência, demonstrando que os saberes científicos dependem das relações de poder e tomam partido diante delas.
  • Mobilização social: As mudanças não se restringiram aos técnicos de Saúde Mental, mas envolveram diferentes atores, gerando debates e mobilizações que envolviam outros segmentos sociais.

1.1.3 Referências de teorização e pensamento

Todos os processos de Reforma Psiquiátrica aqui descritos associam-se a uma interessante produção intelectual. Autores como Tosquelles e Oury (psicoterapia institucional), Bion e Maxwell Jones (comunidades terapêuticas), Gerald Caplan (psiquiatria preventiva), Laing e Cooper (antipsiquiatria), entre outros, trouxeram uma importante contribuição nesta área.

Contudo, serão especificados aqui apenas alguns textos clássicos, publicados a partir dos anos 60, essenciais para a reflexão teórica contemporânea na Saúde Mental:

  • Manicômios, Conventos e Prisões, de Erving Goffman;
  • A Ordem Psiquiátrica: a Idade de Ouro do Alienismo, de Robert Castel;
  • História da Loucura na Idade Clássica, de Michel Foucault;
  • O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari;
  • A Instituição Negada, de Franco Basaglia.

Devemos lembrar a importância de duas disciplinas distintas: a psicanálise, fundamental para a compreensão dos processos inconscientes, e a psicofarmacologia, cujo avanço favoreceu o tratamento fora dos manicômios. Essas disciplinas são valiosos interlocutores da Reforma Psiquiátrica, sem constituir seus fundamentos.

A produção teórica citada mostra que uma exclusão feita em nome da ciência não pode se resolver apenas em seus próprios termos. Ao examinar as condições do estabelecimento desses saberes, constitui-se um campo verdadeiramente interdisciplinar, retirando as questões da loucura do gueto técnico e tornando-as um tema de interesse crucial para o pensamento humano.

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