Resenha de Descartes: Dúvida Metódica e o Cogito
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Localização do Autor: Descartes pertence ao período da filosofia moderna, especialmente em meados do século XVII, o Barroco europeu. Ele é o pai de uma das mais reconhecidas correntes filosóficas deste período: o Racionalismo. Ele defendeu o processo de dúvida racional como um método para descobrir a verdade sobre a qual construir o edifício do conhecimento humano. Modelado em sua aproximação com a ciência matemática, alegava que esta fornecia apenas verdades sólidas, eternas e universais.
Tema do Texto
O tema central é o processo da dúvida como mecanismo para encontrar o primeiro princípio da filosofia, que ele desejava ser: "Penso, logo existo".
As Ideias da Dúvida Cartesiana
As etapas da dúvida metódica propostas por Descartes são:
- Dúvida dos Sentidos: Como os sentidos às vezes nos enganam, devemos ter cuidado com as imagens das coisas que eles nos transmitem.
- Dúvida do Raciocínio: Visto que há homens que erram até mesmo na geometria mais simples, não estamos isentos dessa possibilidade. Será necessário rejeitar todos os argumentos que foram dados como demonstrados.
- Dúvida da Realidade (Sonho): Dada a impossibilidade de distinguir o conteúdo de nossos pensamentos no estado de vigília do conteúdo durante o sono, Descartes decidiu assumir que tudo poderia ser um sonho.
- A Hipótese do Gênio Maligno: O autor reconhece que, mesmo pensando que tudo era falso, era necessário que ele pensasse que era alguma coisa. (Embora não explicitamente numerado no trecho original, a menção posterior ao gênio maligno se encaixa aqui como a dúvida mais extrema).
- A Conclusão: Disto conclui-se que a verdade "Penso, logo existo" é tão forte e segura que poderia se tornar o primeiro princípio da filosofia que ele pretende.
Relação entre as Ideias de Descartes
Em seu texto, Descartes apresenta três ideias fundamentais que constituem o processo da dúvida metódica:
- Dúvida das informações que os sentidos nos dão sobre as coisas, porque às vezes nos enganam.
- Dúvida de seus próprios argumentos, pois erramos, por vezes, até mesmo em questões matemáticas básicas.
- Dúvida da realidade, por ser incapaz de distinguir entre o estado de vigília e o sono.
Essas três hipóteses o levarão à conclusão, ou melhor, à intuição intelectual, de que a única coisa da qual não se pode duvidar é que se está duvidando e que, portanto, existe. Esta é a verdade primeira, o primeiro axioma da filosofia que Descartes pretende construir.
Explicação das Ideias do Texto
No texto, como representativo da obra de Descartes, é plausivelmente exposta a essência de como proceder no pensamento cartesiano.
Dada a crise da Escolástica, que oferecia uma imagem de conhecimento arruinado, Descartes propõe a difícil tarefa de reconstruir a construção do conhecimento a partir do zero. Para isso, deve recorrer à matemática e à ciência dedutiva. Pensando que este modus operandi da matemática poderia ser aplicado a qualquer disciplina, ele decide realizar o projeto de unificação de todas as ciências, que será simbolizado pela imagem de uma árvore cujas raízes são a metafísica, o tronco a física, e os ramos, a moral, a mecânica e a medicina. Mas, para isso, terá que começar a construir uma base que seja tão forte e segura quanto uma verdade matemática.
Neste texto, é evidente o processo que o autor segue para construir as raízes da árvore do conhecimento: um axioma óbvio e necessário a partir do qual deduzir os demais princípios que formam o quadro da realidade.
Para isso, Descartes decide duvidar de tudo, até de suas mais profundas convicções. Assim começa a peça, aplicando a dúvida às informações das coisas que os sentidos nos oferecem. Se às vezes nos enganam, quem garante que não o fazem sempre? Descartes acredita que este não é um conhecimento seguro e, portanto, deve ser descartado.
Por outro lado, aplica-se a dúvida ao raciocínio matemático, que é a dedução, uma vez que é possível cometer erros lógicos. Para explicar este tipo de questionamento, o autor, em outra de suas mais famosas obras, "Meditações Metafísicas", levanta a hipótese da existência de um poderoso gênio do mal que me faz verdadeiro o falso e falso o verdadeiro. Assim, não podemos garantir que o raciocínio ou a intuição percebam verdades que são evidentes. Esta dúvida hiperbólica exigirá a prova da existência de Deus para garantir que o que é capturado de forma clara e distinta corresponda à realidade.
Em seguida, o texto apresenta a terceira questão à qual Descartes aplica o processo de dúvida: a realidade que vivemos não poderia ser mais do que um sonho, pois muitas vezes não se consegue distinguir entre os pensamentos do estado de vigília daqueles que ocorrem durante o sono. Isto reflete uma das tendências barrocas na percepção do mundo e teve grande importância na arte e na literatura. Em Espanha temos um desses expoentes: "A Vida é Sonho", de Calderón de la Barca.
Mas, afinal, quando tudo parecia perdido, Descartes percebe que há algo do qual ele não pode duvidar: enquanto ele duvida, certamente ele pensa, e como ele pensa, ele necessariamente existe. "Cogito ergo sum" é, portanto, a primeira verdade, o primeiro axioma da metafísica cartesiana, a partir da qual construir o novo edifício do conhecimento e da realidade.
Por outro lado, devemos dizer que este primeiro ponto indubitável não é a conclusão de um argumento obtido por dedução, mas sim que esta verdade é dada pela intuição: a dúvida, a autoconsciência de que se existe. Esta também é uma verdade que resiste à dúvida, porque, mesmo que tudo fosse um sonho, o sonho seria meu, e mesmo que o gênio maligno me enganasse em tudo, não poderia me enganar sobre a minha própria existência.
A partir desta primeira verdade, nosso filósofo estabelece novos critérios e procede a explicar certas outras verdades que formam o restante do sistema: que Deus existe e que o mundo existe.
Como se vê, a dúvida cartesiana não é uma dúvida cética, pois ele está convencido de que a verdade existe e utiliza o processo da dúvida para encontrá-la. A dúvida metódica, então, é o resultado da aplicação da primeira regra do método, que indica a necessidade de verdades intuitivas, ou seja, claras e distintas. O objetivo é um processo de investigação filosófica que visa consolidar os progressos alcançados no processo de conhecimento, da mesma forma que o escalador se certifica de apertar e segurar bem a corda antes de embarcar na difícil subida até o topo.