Sistema respiratório: funções, fisiologia e DPOC
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Funções do sistema respiratório
Principal função: Ventilação e troca de O2 proveniente da atmosfera pelo CO2 produzido pelas células do corpo.
Funções secundárias
- Defesa pulmonar contra microrganismos;
- Regulação do pH (em conjunto com o sistema renal);
- Fonação;
- Metabolismo.
Fisiologia pulmonar
- Ventilação dos gases ao longo da árvore respiratória;
- Difusão dos gases através da barreira alvéolo-capilar;
- Perfusão dos alvéolos para o transporte dos gases no sangue.
Organização do sistema respiratório
- Cavidade nasal;
- Cavidade oral;
- Pulmões;
- Vias aéreas;
- Estrutura torácica.
Vias aéreas superiores
- Nariz;
- Boca;
- Faringe;
- Laringe.
Vias aéreas inferiores
- Traqueia;
- Brônquios;
- Bronquíolos.
Zona de condução
- Não contém alvéolos;
- Espaço morto anatómico.
Zona respiratória
Canais alveolares e alvéolos.
Alvéolos
Canais de Martin: comunicações acessórias entre bronquíolos terminais.
Canais de Lambert: comunicações acessórias entre bronquíolos terminais e alvéolos.
Poros de Kohn: comunicações acessórias entre alvéolos (presentes a partir do 5.º ano de vida).
Alvéolos ≈ 300 milhões.
Capilares ≈ 280 biliões.
500 a 1000 capilares por alvéolo.
Área disponível para trocas gasosas ≈ 50 a 100 m².
Pleuras parietal e visceral
Para o movimento dos pulmões relativamente às paredes do tórax existe a pleura: membrana na parede interna do tórax e na superfície externa do pulmão.
Cavidade pleural: espaço virtual entre as pleuras que contém líquido seroso, lubrificando as superfícies pleurais e permitindo deslizamento durante a ventilação.
Caixa torácica
Segmento propulsor, juntamente com os músculos respiratórios.
- Apresenta um cone truncado, mais estreito superiormente;
- A parede apresenta praticamente a mesma espessura do esqueleto;
- O pavimento é composto pelo diafragma;
- Protege as vísceras torácicas e parte das vísceras abdominais;
- Inclui os principais órgãos dos sistemas respiratório e circulatório.
Músculos respiratórios
Músculos da inspiração
Principais: diafragma, paraesternais, intercostais externos e escalenos.
Acessórios: esternocleidomastoideo (ECM), trapézios, grande peitoral (porção esternal), pequeno peitoral, subclávio, serrátil posterior e elevadores das costelas.
Expiração ativa
Acessórios: abdominais, intercostais internos e transverso do tórax.
Diafragma (responsável por ~80% da inspiração)
Fibras costais
- Inserção posterior na apófise xifoide;
- Superfície interna: 6 últimas costelas e cartilagens.
Fibras crurais
Inserção nas primeiras vértebras lombares.
Tendão central: permite o aplanamento durante a contração.
Passagem: aorta, veia cava e esófago.
Intercostais internos e externos
Paraesternais (inspiratório):
- Adjacentes ao esterno;
- Dirigem-se posteriormente;
- Produzem movimento de rotação das costelas.
Externos: dirigem-se anteriormente.
Internos: dirigem-se posteriormente.
Escalenos
Elevam o esterno e as duas primeiras costelas.
Biomecânica ventilatória
- Pump-handle motion (movimento de "braço de bomba");
- Bucket-handle motion (movimento de "asa de balde");
- Movimento toracoabdominal;
- Ângulo infra-costal.
Aumento do diâmetro ântero‑posterior e do diâmetro médio‑lateral.
Ventilação e mecânica pulmonar
Ventilação: como fazer mover o ar de fora para dentro e de dentro para fora para realizar as trocas gasosas?
O volume/expansão pulmonar depende de:
- Pressão transpulmonar: quanto maior a pressão transpulmonar, maior o volume pulmonar;
- Grau de distensibilidade (compliance): P = ΔV P / ΔPtp.
Facilidade de deformação de um órgão por uma força externa.
Determinantes da compliance pulmonar
- Extensibilidade do tecido pulmonar — quanto maior a extensibilidade, maior a compliance;
- Tensão superficial do líquido alveolar — quanto maior a tensão superficial, menor a compliance.
Nas paredes dos alvéolos existem células secretoras responsáveis pela produção de surfactante, que ajuda a manter o alvéolo expandido diminuindo a tensão da superfície. O surfactante reduz a tensão superficial da humidade dentro dos alvéolos para facilitar a expansão pulmonar.
↓ tensão superficial alveolar
Compliance
Outros factos importantes acerca do surfactante: impede o colapso dos alvéolos de menor tamanho.
Fatores que influenciam a ventilação
Troca de ar entre a atmosfera e os alvéolos
Resistência
Inversamente proporcional ao raio das vias aéreas. Apesar do raio das vias aéreas inferiores ser menor que o das superiores, a área de secção transversal das inferiores é substancialmente maior, reduzindo a resistência.
O raio das vias aéreas é afetado por fatores físicos
- Pressão transpulmonar: ↑ Ptranspulmonar → ↑ expansão das vias aéreas → ↓ resistência;
- Tração lateral das fibras elásticas conjuntivas: durante a expansão pulmonar ↑ tração lateral → ↑ expansão das vias aéreas → ↓ resistência.
Fatores neurais que afetam o raio
Atividade simpática: norepinefrina/epinefrina relaxam o músculo liso das vias aéreas → ↓ resistência.
Atividade parassimpática: acetilcolina provoca contração do músculo liso das vias aéreas → ↑ resistência.
Fatores químicos
1. Níveis elevados de CO2 ou reduzidos de O2 relaxam o músculo liso local → ↓ resistência.
2. Níveis reduzidos de CO2 na zona de condução geram contração local do músculo liso → ↑ resistência.
Outros fatores
Inalação de irritantes químicos, fumo e poeiras → contração do músculo liso das vias → ↑ resistência.
Inflamação → contração do músculo liso das vias → ↑ resistência.
Volumes, ventilação alveolar e espirometria
Ventilação minuto (VE): ventilação total por minuto. VE (ml/min) = Volume corrente (ml/ciclo) × frequência ventilatória (ciclos/min).
Exemplo em repouso: VE = 500 ml/ciclo × 12 ciclos/min = 6000 ml/min.
Espaço morto anatómico
150 ml dos 500 ml do ar inspirado não alcançam os alvéolos.
Varia conforme altura/massa corporal (≈ 1 ml por 0,454 kg).
Ventilação alveolar minuto (VA)
VA (ml/min) = (VC ml/ciclo − VD ml/ciclo) × FV ciclos/min.
Exemplo: VA = (500 − 150) × 12 = 4200 ml/min.
Volumes pulmonares
- Volume corrente (VC): volume inspirado/expirado em ciclo normal ≈ 500 ml;
- Volume reserva inspiratória (VRI): volume máximo inspirado além do VC ≈ 3000 ml;
- Volume reserva expiratório (VRE): volume máximo expirado além do VC ≈ 1200 ml;
- Volume residual (VR): volume que permanece após expiração máxima ≈ 1200 ml.
Capacidades pulmonares
- Capacidade inspiratória (CI): VC + VRI ≈ 3500 ml;
- Capacidade expiratória (CE): VC + VRE ≈ 1700 ml;
- Capacidade residual funcional (CRF): VRE + VR ≈ 2400 ml;
- Capacidade vital (CV): VRI + VC + VRE ≈ 4700 ml;
- Capacidade pulmonar total (CPT): soma de todos os volumes ≈ 5900 ml.
Ventilação alveolar, fluxo sanguíneo pulmonar e relação V/Q
Ventilação alveolar
VE (ml/min) = VC (ml/ciclo) × frequência ventilatória (ciclos/min).
Mas nem todo o volume ventilado participa nas trocas gasosas devido ao espaço morto.
Distribuição regional da ventilação
A gravidade influencia a distribuição. Em postura vertical, regiões inferiores recebem mais ventilação por unidade de volume. A pressão intrapleural (Pip) não é uniforme ao longo da cavidade pleural.
Na vertical, nas regiões inferiores:
- Pip é menos negativa;
- Pressão transpulmonar é menor;
- Volume alveolar é menor;
- Maior capacidade de aumentar o volume durante o ciclo respiratório;
- Melhor ventilação.
Distribuição regional do fluxo sanguíneo pulmonar
Também influenciada pela gravidade. Em postura vertical, regiões inferiores recebem mais sangue por unidade de volume (efeito hidrostático).
Vasos alveolares e extra-alveolares
Com a expansão alveolar, os vasos alveolares (capilares) são comprimidos e alongados, aumentando a resistência ao fluxo sanguíneo → ↓ perfusão.
Quando a pressão alveolar > pressão arterial, o fluxo sanguíneo cessa → apesar de ventilada, a região não é perfundida (espaço morto alveolar).
Espaço morto fisiológico = espaço morto anatómico + espaço morto alveolar.
Relação ventilação-perfusão (V/Q)
Região superior: alvéolos com maior volume e menor ventilação por unidade de volume; menor fluxo sanguíneo, maior resistência e menor perfusão.
Região inferior: alvéolos com menor volume e maior ventilação por unidade de volume; maior fluxo sanguíneo, menor resistência e maior perfusão.
Difusão de gases
V gás = volume de gás que se difunde através da barreira tecidual por unidade de tempo (ml/min).
V gás = A × D × (P1 − P2) / T, onde:
- A = área superficial disponível para difusão;
- D = coeficiente de difusão (difusividade) do gás na barreira;
- P1 − P2 = diferença de pressões parciais através da barreira;
- T = espessura da barreira (distância de difusão).
O CO2 difunde-se cerca de 20 vezes mais rapidamente que o O2 através da barreira alvéolo-capilar devido à maior solubilidade do CO2.
Os gradientes de pressão de cada gás são determinados por ventilação, consumo de O2, produção de CO2 e perfusão.
Doenças pulmonares obstrutivas crónicas (DPOC) — introdução
Doenças obstrutivas: DPOC (enfisema e bronquite crónica), asma, bronquiectasias.
Doenças restritivas: intrínsecas (parênquima, p.ex. fibrose) e extrínsecas (p.ex. cifoescoliose, obesidade).
Outros grupos: fraqueza dos músculos respiratórios (doenças neuromusculares, sistémicas) e distúrbios psicológicos (ansiedade, depressão).
Doenças pulmonares obstrutivas
Obstrução das vias aéreas → redução anormal do fluxo de ar e aumento da resistência.
Causas e mecanismos fisiopatológicos
DPOC: uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo.
Asma: mortalidade relativamente baixa, mas preocupante.
Bronquiectasias: condição menos prevalente.
Definição de DPOC
Doença caracterizada pela limitação do fluxo de ar que não é totalmente reversível. A limitação é geralmente progressiva e associada a resposta inflamatória anómala dos pulmões a partículas ou gases nocivos. É uma doença comum, evitável e tratável, com efeitos extra‑pulmonares que aumentam a sua gravidade. Caracteriza‑se por dispneia, tosse e produção de expectoração.
Considerada uma das principais causas de morte pela OMS.
Fatores associados ao aumento do risco de mortalidade na DPOC
- Tabagismo;
- Exacerbações;
- Comorbilidades;
- Estado socioeconómico.
A DPOC não é a única causa de morte em doentes com DPOC; causas de morte incluem múltiplas comorbilidades.
Prevalência e internamentos
Prevalência de DPOC em Portugal
Internamentos por motivos respiratórios em Portugal
Fatores de risco
A DPOC resulta da interação entre suscetibilidade genética e exposição a estímulos ambientais. Défice de alfa‑1 antitripsina está presente em 1–2% das pessoas com DPOC.
Fisiopatologia
Bronquite crónica: presença de tosse e produção de expectoração durante pelo menos 3 meses por ano em 2 anos consecutivos.
Efeitos sobre a ventilação
Aumento da resistência ao fluxo de ar, mais pronunciado na expiração → ↓ VEF1 (volume expiratório forçado no 1.º segundo).
Alterações dos volumes dinâmicos na DPOC
| FEV1 / VEMS (L) | Volume expirado no 1.º segundo de uma expiração forçada, tão rápida quanto possível, após inspiração máxima. |
| Índice de Tiffeneau (%) | Razão entre FEV1/CV. Representa a % da CVF que se consegue expirar no 1.º segundo após inspiração máxima. |
História natural
- Período inicial: assintomático;
- Primeiros sintomas: tosse produtiva intermitente e falta de ar durante esforço;
- Exacerbações agudas: aumento de tosse, expectoração e dispneia, possível purulência;
- Após anos: tosse produtiva diária e dispneia com esforços mínimos ou inexistentes;
- Fase final: atrofia muscular, perda de peso, cor pulmonale, insuficiência respiratória crónica.
Diagnóstico clínico da DPOC
Sintomas: dificuldade em respirar, tosse crónica, escarro.
Fatores de risco: tabaco, fatores do hospedeiro, ocupação, poluição interior/exterior.
Espirometria: exigida para estabelecer o diagnóstico.
Sintomas
| Dispneia | Progressiva ao longo do tempo; piora com esforço; persistente. |
| Pieira | Variável ao longo dos dias. |
| Tosse | Inicialmente intermitente; posteriormente pode ser diária; fase crónica pode ser produtiva ou não. |
| Aperto no peito | Variável; geralmente manifestado com esforço. |
| Infecções recorrentes | Exacerbações na DPOC. |
| História de fatores de risco | Tabaco, ambientais, ocupacionais, estilo de vida, fatores fisiológicos. |
| Fadiga | Sensação de cansaço geral ou falta de energia. |
| Características clínicas na doença grave | Perda de peso, perda de massa muscular, edema dos pés (pode indicar cor pulmonale), sintomas de depressão/ansiedade. |
Diagnóstico — espirometria
- Diagnóstico de DPOC;
- Avaliação da severidade da obstrução do fluxo (prognóstico);
- Avaliações de seguimento (follow-up);
- Orientação terapêutica (farmacológica e não farmacológica);
- Identificação de declínios e impacto da exposição ocupacional/ambiental;
- Avaliação do risco pré-operatório.
Presença de VEF1/CVF < 0,7 pós-broncodilatador é obrigatória para o diagnóstico de DPOC.
Achados radiológicos e imagiológicos
Sinais de hiperinsuflação:
- Aumento do volume pulmonar (tórax em "barril");
- Hipertransparência pulmonar;
- Achatamento do diafragma;
- Coração verticalizado e estreito;
- Aumento do diâmetro ântero‑posterior torácico.
Radiologia convencional (RX) → é inespecífica; não implica necessariamente aumento do VR ("air-trapping").
Tomografia computorizada
Mais eficaz no diagnóstico do enfisema e na diferenciação da gravidade. Tem maior resolução que o RX e localiza regiões afetadas e espessamento brônquico; útil na detecção de complicações como pneumotórax e pneumonia.
Avaliação dos sintomas e questionários
Questionário de dispneia: Modified Medical Research Council (mMRC).
Questionários multidimensionais: Chronic Respiratory Questionnaire (CRQ) e St. George's Respiratory Questionnaire (SGRQ). O SGRQ é um questionário de 50 itens que avalia sintomas, atividade e impacto (0 = sem comprometimento a 100 = máximo comprometimento).
História prévia de exacerbações moderadas e graves aumenta o risco de futuras exacerbações.
As exacerbações tornamse mais frequentes e graves à medida que a função pulmonar diminui — motivo comum para hospitalizações, redução da qualidade de vida e aumento do risco de mortalidade. A melhor preditora de exacerbação é a história prévia do paciente.
Comorbilidades
Comorbidades respiratórias: asma, cancro do pulmão, infeções respiratórias, bronquiectasias.
Comorbidades cardiovasculares: hipertensão, insuficiência cardíaca, doença coronária, arritmias, cor pulmonale, tromboembolismo venoso, AVC.
Comorbidades metabólicas: síndrome metabólica, diabetes, osteoporose, caquexia, sarcopenia e miopatia.
Outras comorbidades: ansiedade, depressão, disfunção cognitiva, refluxo gastroesofágico, síndrome da apneia obstrutiva do sono.
Diagnóstico diferencial
Asma
Doença inflamatória crónica das vias aéreas com obstrução reversível espontaneamente ou com tratamento; hiper‑reatividade e obstrução desencadeada por exercício, frio, alérgenos. Mais prevalente em crianças e com história familiar.
Fisiopatologia da asma
- Exposição a estímulo;
- Em minutos: ativação de mastócitos e libertação de mediadores inflamatórios → contração do músculo liso e edema → obstrução das vias aéreas (fase inicial até ~1 h);
- Eosinófilos geram pico secundário de sintomas (mais severos) 4–6 horas após exposição (fase secundária dura pelo menos 24 h).
Características clínicas da asma
- Início frequentemente antes dos 10 anos;
- Ataques com pieira, dispneia e tosse desencadeados por alérgenos/outros;
- História familiar de atopia;
- Obstrução reversível na espirometria (>12% de melhoria do FEV1 após broncodilatador);
- Níveis elevados de IgE e eosinofilia muitas vezes presentes.
Bronquiectasias
Dilatação anormal e permanente dos brônquios com produção diária de expetoração mucopurulenta.
Etiologias: fibrose cística (~50% dos casos em crianças/jovens), infeções respiratórias (pneumonia, tuberculose), causas congénitas (discinesia ciliar).
Fisiopatologia: inflamação crónica agravada pela incapacidade de eliminar muco.
Características clínicas: tosse com grande quantidade de muco purulento, pieira, febre, perda de peso, hemoptise, infeções recorrentes. Diagnóstico por tomografia computorizada (TC).
Resumo do diagnóstico diferencial
| DPOC | Sintomas progressivos; história de tabagismo ou outros fatores de risco. |
| Asma | Obstrução variável; sintomas flutuam dia a dia; piores à noite/manhã; alergias/rinite/eczema; início frequente na infância; história familiar. |
| Bronquiectasias | Grande volume de expectoração purulenta; frequentemente associada a infeções bacterianas; radiologia/TC mostra dilatação brônquica. |
| Insuficiência cardíaca congestiva | RX com aumento do coração e edema pulmonar; testes de função pulmonar mostram restrição de volume, não obstrução. |
| Tuberculose | Início em qualquer idade; RX com infiltrados; confirmação microbiológica. |
Tratamento farmacológico — objetivos
- Aliviar sintomas;
- Melhorar tolerância ao esforço;
- Melhorar funcionalidade e qualidade de vida;
- Prevenir e tratar exacerbações;
- Prevenir e tratar complicações;
- Reduzir mortalidade.
Medicamentos mais usados
Broncodilatadores ß2‑agonistas e anticolinérgicos; anti‑inflamatórios esteroides (corticosteroides).
Aerossolterapia:
- Dispositivos simples;
- Sistemas de nebulização.
Reabilitação respiratória — avaliação e intervenção
Definição
Intervenção abrangente baseada numa avaliação completa do paciente, seguida de terapias personalizadas (exercício físico, educação, mudança de comportamento) para melhorar a condição física e psicológica de pessoas com doença respiratória crónica e promover adesão a comportamentos saudáveis a longo prazo.
Componentes
Exercício: treino aeróbio, treino de força, treino de equilíbrio, treino de flexibilidade/alongamento, treino dos músculos respiratórios, estratégias respiratórias, treino funcional.
Educação: integrar o programa de exercícios, prevenção de sintomas, gestão da respiração e técnicas de conservação de energia, gestão do stress, dieta saudável, manutenção de vida saudável, oxigenoterapia.
Comportamentos: exercício físico, atividade física, atividades de vida diária, técnicas de higiene brônquica, cessação tabágica.
Reabilitação respiratória é muito mais que exercício e educação; baseia‑se numa avaliação abrangente.
Locais de atuação
Hospital, domicílio, comunidade, telereabilitação.
Benefícios
Para o paciente:
- Aumento da capacidade de exercício e função muscular;
- Melhor equilíbrio;
- Diminuição da sintomatologia (dispneia, fadiga);
- Melhor qualidade de vida relacionada com a saúde;
- Maior autoeficácia e conhecimento sobre a doença;
- Redução de sintomas de ansiedade e depressão;
- Redução do isolamento social.
Para os serviços de saúde: redução de idas às urgências, internamentos, tempo de internamento, consultas não programadas, mortalidade e dependência dos serviços.
Equipa multidisciplinar
- Médico (pneumologista, médico de família, fisiatra, cardiologista, ...);
- Fisioterapeuta;
- Terapeuta ocupacional;
- Enfermeiro;
- Nutricionista;
- Fisiologista do exercício;
- Técnico de cardiopneumologia;
- Farmacêutico;
- Psicólogo;
- Assistente social;
- Gestor do programa.
Admissão aos programas de reabilitação
Indicada para todas as pessoas com doença respiratória crónica com sintomas persistentes (fadiga, dispneia), qualidade de vida diminuída, comprometimento funcional/emocional, incapacidade de ajustar à doença, estado nutricional comprometido, exacerbações frequentes, trocas gasosas comprometidas e motivação do paciente.
Patologias alvo
Obstrutivas: DPOC, asma, fibrose cística, bronquiectasias.
Restritivas: doenças do interstício, doenças da parede torácica, doenças neuromusculares.
Outras: cancro do pulmão, hipertensão pulmonar, pré e pós-cirurgias.
Gestão da DPOC — recomendações
| Grupo | Essencial | Recomendado | Dependendo das normas locais |
|---|---|---|---|
| Gold A | Cessação tabágica (pode incluir tratamento farmacológico) | Atividade física | Vacina da gripe, vacina pneumocócica, vacina COVID-19, outras vacinas |
| Gold B e E | Cessação tabágica, reabilitação respiratória | Atividade física | Vacina da gripe, vacina pneumocócica, vacina COVID-19, outras vacinas |
Factos importantes:
- O FEV1 tem fraca correlação com função física, emocional e social;
- O FEV1 não prevê a probabilidade de desistência de um programa;
- A reabilitação tem impacto em todos os graus de severidade; o FEV1 não é critério de seleção exclusivo.
Exclusões e limitações
Exclusões: doentes com doença ortopédica/neurológica grave que comprometam mobilidade e cooperação.
Limitações: patologias não controladas, especialmente psiquiátricas e cardíacas; tabagismo ativo (avaliar caso a caso).
Duração e frequência dos programas
Duração mínima recomendada: 6–8 semanas; programas mais prolongados trazem mais benefícios. Frequência mínima de treino: 3×/semana; algumas sessões podem ocorrer fora do centro especializado, com supervisão quando necessário.
Avaliação dos pacientes
Core da avaliação: essencial para medir impacto do programa. Outcomes fisiológicos e clínicos: dispneia, fadiga, capacidade funcional de exercício, função muscular dos membros inferiores.
Resultados de impacto na vida: qualidade de vida relacionada com a saúde, atividades de vida diária, comportamentos e estilo de vida, conhecimento da doença e objetivos pessoais.
Capacidade de exercício
Definição: esforço físico máximo que um paciente pode suportar. Um dos outcomes mais importantes, associado a melhor prognóstico e sobrevivência.
Testes laboratoriais e testes de campo são utilizados para individualizar a prescrição do exercício, avaliar necessidade de suporte (p.ex. oxigénio suplementar) e garantir segurança.
Consequências sistémicas
Alterações nas trocas gasosas podem induzir disfunção cardíaca: aumento do tamanho do ventrículo direito, hipertrofia e insuficiência ventricular direita, arritmias. Disfunção muscular periférica também é comum.
Outras comorbilidades: síndrome metabólica, diabetes, má nutrição, patologias músculo‑esqueléticas, ansiedade e depressão.
Avaliação laboratorial
Testes de laboratório fornecem informações sobre fatores fisiológicos/fisiopatológicos que limitam o exercício, quantificação da incapacidade, objetivos da intervenção, resposta ao tratamento e prognóstico.
Doenças pulmonares restritivas
Podem ser divididas em dois grupos de acordo com as estruturas anatómicas envolvidas:
- Intrínsecas (parênquima pulmonar): afetam interstício, espaços aéreos, vias aéreas e vasos pulmonares;
- Extrínsecas (extrapulmonares): afetam a parede torácica, pleuras, músculos respiratórios ou os neurónios que os inervam.
Efeitos das doenças intrínsecas
Inflamação e/ou cicatrização do tecido pulmonar; preenchimento dos espaços aéreos com exsudado e detritos celulares.
Fisiopatologia
- Resposta inflamatória aguda por diferentes causas;
- Destruição endotelial e epitelial (incluindo células alveolares tipo I e II): comprometimento da produção de surfactante → ↓ compliance e risco de atelectasia → ↓ ventilação;
- Formação de exsudado/pus → ↓ ventilação e difusão;
- Resultados possíveis: resolução da lesão ou desenvolvimento de fibrose.
↓ extensibilidade → ↓ compliance → ↓ ventilação. Espessamento da barreira alvéolo-capilar → ↓ difusão (O2); em casos graves pode ocorrer destruição dos capilares (hemorragia) → ↓ perfusão.