Sociologia: Desvio, Violência e Poder

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1. Qual é a Relação Entre Desejo e Violência em Girard?

Para René Girard, o homem é marcado por um desejo mimético (desejo de imitação), de modo que não somos autossuficientes. Invejamos e admiramos modelos para nos guiar na vida, ou seja, não somos capazes de desejar por nós mesmos, mas precisamos de um terceiro que indique o objeto que desejaremos. De tal forma, a autonomia de um indivíduo não passa de uma mentira. Este comportamento é dotado de um caráter violento, onde, quando invejamos um objeto, pessoa ou ideia que outros detêm, geramos conflitos, não havendo mais imitado e imitador, sujeito e modelo, mas sim adversários, já que disputam o mesmo objeto. Estes conflitos podem terminar num sacrifício, seja ele com a eliminação física (morte), seja por meio de um sacrifício simbólico, ou por meio do assédio moral e psicológico. A violência é vista como um componente natural das sociedades. Aí então que surge o mecanismo do bode expiatório (mecanismo vitimário), ou única vítima onde depositam neste toda a culpa de um eventual conflito e única forma de pacificação, é através de um sacrifício. Então esta vítima expiatória deve ser excluída através do sacrifício. Este mecanismo pode ser denominado interdito, pois a vítima, inocente ou não, quando assumiu a função que lhe atribuiu a comunidade para ser o bode expiatório, tornou-se maldita, mas imediatamente após ser sacrificada, ou seja, passar pelo rito, foi reabilitada, pois salvou a comunidade e transformou-se num mito do qual todos celebram a memória. A função do sacrifício é, portanto, apaziguar a violência e impedir a explosão de conflitos decorrentes de rivalidades. Ele diz que o desejo mimético é a raiz da violência humana.

2. Por que Girard Atribui ao Cristianismo Maior Relevância?

Girard acredita que ao cristianismo se deve atribuir maior relevância, pois expõe o mecanismo do bode expiatório pelo que ele é: uma forma primitiva e ineficaz de controle da violência, que apenas consiste na renovação de vítimas expiatórias a cada novo conflito gerado e não resulta em qualquer resolução destes. A ideia do cristianismo, diferente de todas as religiões anteriores, abraça a causa da vítima, declarando sua inocência, revelando que a verdadeira culpa não é da vítima sacrificada para que o conflito cesse, mas sim da própria resolução expiatória da violência mimética gerada. O círculo mimético se rompe, pois sua eficácia depende da crença na culpa da vítima. O cristianismo usa como estratégia para evidenciar a inocência da vítima, a crucificação de Cristo e torna essa crença (bode expiatório) questionável e talvez até inaceitável. Mostra a violência como parte do homem.

3. O que é um Outsider Segundo Becker?

É necessário saber, antes de tudo, que o conceito de outsider dado por Howard Becker é uma questão de ponto de vista. Ele diz que outsider é a pessoa que presumivelmente infringe regras estabelecidas por um determinado grupo; é o chamado desviante. Então, outsider é aquele que não se enquadra na sociedade, que vive à margem das convenções sociais e determina seu próprio estilo de vida, através de suas crenças e valores. Portanto, aquele que infringe a regra estabelecida por um determinado grupo pode pensar que seus juízes são outsiders, por agirem de forma distinta a dele. Becker conclui que rotular ou identificar uma ação ou ato como desvio social dependerá do grupo social a que os atores sociais estão ligados: classe social, político, cultural, religioso, entre outros. A noção de desvio é uma caracterização social de qualquer comportamento fora do padrão em diferentes contextos.

4. Por que a Sociedade é Relevante para os Outsiders?

A sociedade é relevante na problemática dos outsiders por se tratar de um conjunto de pessoas que compartilham de propósitos, gostos, costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade na qual estabelecem algumas regras como certas ou erradas. Outsiders são os indivíduos que, de certo modo, infringem tais regras estabelecidas por um grupo. Ocorre que a definição do certo ou errado depende do ponto de vista, do lugar de ocupação na sociedade, do meio social em que vive o indivíduo, bem como a condição social. Uma vez que aquele que hipoteticamente infringe uma regra pode pensar que os verdadeiros outsiders são seus juízes. Isto ocorre pois os diferentes grupos consideram diferentes coisas desviantes. A concepção mais simples de desvio é essencialmente estatística, definindo como desviante tudo que varia excessivamente com relação à média. Sendo desvio, qualquer coisa que difere do que é mais comum. Deve-se lembrar que as sociedades modernas não constituem organizações simples em que todos concordam quanto ao que são as regras e como elas devem ser aplicadas. Pelo contrário, são altamente diferenciadas ao longo de linhas de classe social, étnicas, ocupacionais e culturais. Assim, um ato é ou não desviante, dependendo do modo como as outras pessoas reagem a ele.

5. Em que Sentido o Desvio é uma Produção Social?

Como já anteriormente exposto na resolução da questão 4, grupos sociais dominantes estabelecem as regras ou diretrizes de comportamento do grupo social. A própria ciência do direito, por exemplo, trabalha em cima do homogêneo, pressupondo que aqueles que a estudam dentro da sociedade. E a lei nada mais é do que fundamentação do grupo dominante, estabelecendo os valores que os dominantes têm sobre os dominados. O desvio é relativo com o contexto e produzido socialmente. O próprio crime, como desvio, é uma produção social. É praticamente impossível pensar em pontos de congruência no corpo social. Entretanto, em razão do que é estabelecido, o desvio sempre é produzido socialmente.

6. Análise da Crítica de Gilberto Velho sobre Anomia e Anomie

Gilberto Velho revê completamente os conceitos de anomie e anomia. Para ele, devem ser revistos tais conceitos e reavaliado aquilo que realmente influencia o comportamento do indivíduo como um todo. A anomia seria uma ausência total, a falta, a não existência, a completa ausência de valores, referida ao indivíduo. Anomie, entretanto é a condição do ambiente social, não de indivíduos particulares, propriedade de um sistema social, não o estado de espírito deste ou daquele indivíduo dentro do sistema. O grau de anomie de um sistema social é indicado pelo grau de falta de acordo a respeito das normas que se julgam legítimas, com sua concomitante incerteza e insegurança nas relações sociais.

7. Contribuições de Becker para a Compreensão do Desvio Social

Segundo Velho, uma das principais contribuições de Becker foi perceber o comportamento desviante não como uma questão de inadaptação cultural, mas um problema político, obviamente vinculado a uma problemática de identidade.

8. Contribuições de Gilberto Velho para o Desvio

Trata-se de uma reversão do quadro. Os indivíduos desviantes, ao invés de serem entendidos como patologicamente disfuncionais, devem ser entendidos como oriundos de um corpo social que, por sua essência, é existente de uma sociedade mal-integrada. Entre os diversos elementos das estruturas sociais e culturais, dois são de imediata importância. São analiticamente separáveis, embora se misturem em situações concretas. O primeiro consiste em objetivos culturalmente definidos, de propósitos e interesses, mantidos como objetivos legítimos para todos, ou para membros diversamente localizados da sociedade. Os objetivos são mais ou menos integrados - o grau de integração é uma questão de fato empírico - e aproximadamente ordenados em alguma hierarquia de valores. Um segundo elemento da estrutura cultual define, regula e controla os modos aceitáveis de alcançar estes objetivos.

9. O que é um Campo na Teoria de Bourdieu?

Campo pode ser definido como uma rede ou uma configuração de relações objetivas entre posições que são definidas em sua existência e nas determinações que elas impõem aos seus ocupantes, agentes ou instituições, devido a sua situação atual e potencial na estrutura da distribuição das diferentes espécies de poder (capital), cuja posse comanda o acesso aos lucros específicos que estão em jogo no campo e, ao mesmo tempo, por suas relações objetivas com outras posições (dominação, subordinação...). A estrutura do campo é um estado da relação de força entre os agentes ou as instituições engajadas na luta, ou ainda na distribuição do capital específico (capital que é válido em relação a um certo campo). Campo então, é entendido como um espaço social multidimensional de relações sociais entre agentes que compartilham interesses comuns, disputam por um prêmio específico, mas cada um com seus recursos e competências. Trata-se de um espaço de disputa entre dominantes e dominados.

10. Qual é o Papel do Capital na Teoria de Bourdieu?

O capital para Pierre Bourdieu desempenha o papel de determinar a posição de privilégio ou não-privilégio ocupada por um grupo ou indivíduo que é definida de acordo com o volume e a composição de um ou mais capitais adquiridos e ou incorporados ao longo de suas trajetórias sociais. O conjunto desses capitais seria compreendido a partir de um sistema de disposições de cultura (nas suas dimensões material, simbólica e cultural, entre outras), denominado por ele habitus. A disparidade dos grupos na estrutura social é derivada da desigual distribuição dos recursos/poderes (capital). Que pode ser: capital econômico (renda, salários, imóveis), o capital cultural (saberes e conhecimentos reconhecidos por diplomas e títulos), o capital social (relações sociais que podem ser revertidas em capital, relações que podem ser capitalizadas) e por fim, mas não por ordem de importância, o capital simbólico (o que vulgarmente chamamos prestígio e/ou honra).

11. Análise da Concepção de Capital Simbólico

Capital simbólico pode ser entendido por prestígio ou honra ou ainda carisma que um indivíduo ou instituição possui em um determinado campo. Deste modo, permite que um indivíduo desfrute de uma posição de proeminência frente a um campo. O capital simbólico é assim o instrumento principal da violência simbólica, ao impor seu peso sobre os que não o possuem ou o possuem em quantidades inferiores em um dado campo. Por último, é possível afirmar que o capital simbólico, enquanto elemento indicador de prestígio, pode ser convertido em dado momento em capital cultural ou econômico, na medida em que os acessos a estas outras modalidades de capital são facultadas pelo efeito de valorização exercido pelo indivíduo detentor deste capital.

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