Stegodyphus lineatus: O Sacrifício Materno Extremo
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Nesta véspera de Dia das Mães, resolvemos falar sobre uma criatura que faz das tripas coração – ou sopa, para ser mais exato – por suas crias: a aranha Stegodyphus lineatus.
Quando a primavera começa nas regiões semiáridas do Mediterrâneo e no Deserto do Neguev, em Israel, é a época do pico de reprodução de vários tipos de insetos. Essas aranhas os caçam vorazmente a fim de estocar nutrientes.
Elas então tecem uma toca circular, semelhante a um ninho de passarinho posto de lado, e acasalam. Os cerca de 80 ovos são depositados no fundo da cavidade na teia, e a mamãe-aranha começa o processo de aumentar suas enzimas digestivas para que seus próprios órgãos internos comecem a se dissolver.
Uma fêmea da espécie Stegodyphus lineatus dá os retoques finais em seu túmul... quer dizer, sua teia. (Imagem: Dra. Mor Salomon)
Quando os ovos eclodem, ela começa a vomitar uma substância clara e fina, que basicamente são suas entranhas liquefeitas. Ela passará as próximas duas semanas fazendo isso, alimentando seus descendentes com uma sopinha de vísceras extremamente nutritiva, até perder aproximadamente 41% de seu peso total e morrer. Mas o banquete não acaba aí.
As pequenas aranhas perfuram o que restou do corpo da mãe e sugam todos os fluidos restantes, até sobrar apenas uma casca oca. Cerca de 95% do aracnídeo original terá virado janta, e seu abdômen parecerá um balão murcho.
As mamães-aranha ficam super estufadas antes da eclosão dos ovos, para garantir uma boa nutrição para os filhotes. (Imagem: Dra. Mor Salomon)
A Sobrevivência dos Mais Espertos
O processo todo deve acontecer conforme descrito acima, a menos que algum espécime macho entre na toca antes que as crias nasçam ou durante os primeiros dias de vida delas. Como os leões, as aranhas S. lineatus do sexo masculino matam os filhotes para gerarem suas próprias ninhadas. A mãe defenderá sua prole ferozmente, mas caso não consiga, ela será obrigada a cruzar novamente.
É necessário que o macho faça isso no máximo até os cinco primeiros dias depois do nascimento da ninhada. Nesse ponto, a fêmea ainda não dissolveu seus ovários e outros órgãos importantes, e consegue interromper o processo de liquefação de suas entranhas.
As aranhas recém-nascidas se reúnem em volta da boca da mãe para se alimentar da papinha de órgãos que ela vomita. (Imagem: Dra. Mor Salomon)
No entanto, essa segunda prole terá um número menor de ovos e menos nutrição. Isso diminuirá as chances de sobrevivência dessas aranhas, mas alguém se esqueceu de contar isso aos papais infanticidas. Caso a primeira prole sobreviva ao processo todo, o resultado serão dezenas de aranhas com cabecinhas minúsculas, se comparadas ao tamanho dos seus abdomens, dilatados de tanta comida.
Então, pelo próximo mês, elas disputam os insetos que ficaram presos na parte externa da toca enquanto crescem, e os filhotes menores terão que “sair de casa” o quanto antes. Elas precisam começar sua própria teia, ou ficarão sem alimentos depois que digerirem toda a sopa da mamãe.
Um Ciclo Sem Fim
É claro que, para nós, tudo isso parece um comportamento completamente grotesco e irracional. No entanto, segundo a Dra. Mor Salomon, bióloga do Instituto Israel Cohen de Controle Biológico, isso é uma brilhante forma de adaptação encontrada por esses animais ao severo clima em que vivem.
Em vez de mandar suas crias, que nascem sem estar plenamente desenvolvidas, para um ambiente inclemente como o deserto, onde a abundância de comida não é uma certeza, a mamãe-aranha dá todo o suporte possível para que sua prole perdure. Mesmo que isso, literalmente, custe a sua vida.
O ninho e a carcaça de uma Stegodyphus lineatus, com o abdômen parecendo um balão murcho.
E o ciclo se repetirá na próxima primavera, quando a temporada de acasalamento começar novamente. O instinto básico de qualquer ser vivo é sempre a perpetuação da espécie, às vezes por qualquer meio que seja necessário, e é exatamente o que essas criaturas fazem.
Então, um Feliz Dia das Mães para todas as Stegodyphus lineatus, porque elas merecem.