Teologia Fundamental: Revelação, Tradição e Apologética
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Teologia Fundamental: Revelação, Tradição e Apologética
Revelação e estudo de Deus
A revelação dá suporte ao estudo de Deus. A revelação refere-se à autorrevelação do conhecimento de Deus. Revelação e história têm um vínculo profundo (história: crenças, saúde, tudo o que engloba por trás dos muros). A história da salvação coincide com a história do mundo. Falar sobre teologia é pensar a revelação. O saber teológico está relacionado com o mundo. Quanto mais nos apropriamos do conteúdo da revelação, mais temos a capacidade de nos tornar parte da história.
Isto é: quanto mais integrados com Deus, mais temos a capacidade de nos sentir engajados com Ele e com a realidade em que vivemos. Quanto mais contemplamos em Deus a origem de todas as coisas, mais conseguimos perceber os reflexos. Para além do histórico e do questionável passível de respostas, a teologia tem o transcendente, aquilo que está acima de nós. Em Deus que se revela, estamos diante do objeto do conhecimento, que é a razão do próprio ser e poder. Além disso, Ele é também o próprio autor da Sua vontade. Deus é o que Ele quer, quer o que pode e pode aquilo que é.
Não temos capacidade de conhecer Deus em Sua totalidade. Em termos de quantidade, aquilo que Deus nos revela é exatamente o que nos plenifica. Ele nos deu a conhecer de Si tudo o que nos faz alcançar a condição de filhos de Deus e nos realizar como pessoas. Fomos criados para receber a autocomunicação com Deus. A revelação, como nos foi dada, tem uma expressão de comunicação de geração em geração que é própria da Igreja. A Igreja tem o cuidado de anunciar, cuidar e zelar.
Quatro elementos da disciplina:
- Teologia como fruto da autorrevelação de Deus.
- Cosmo e história.
- Práxis eclesial.
- Disciplinas teológicas.
Teologia popular, pastoral e acadêmica
Teologia popular
A teologia popular vai além das teorias. É teologia porque existe um conceito pessoal que a fundamenta. Deus ouve as nossas súplicas. A teologia popular possui a marca da espontaneidade do cotidiano: fala o nome de Deus a partir de expressões e palavras do dia a dia. Quando a pessoa fala de Deus em sua vida, utiliza palavras de incentivo, por exemplo: “Eu tenho fé que Deus irá salvar a vida dela”. A teologia popular existe na pastoral e também na academia.
Teologia pastoral
A teologia pastoral está presente nos movimentos eclesiais com expressões doutrinais. Situa-se na dinâmica eclesial ou local, articulando-se com a teologia popular e a acadêmica. A teologia pastoral desperta na comunidade movimentos de fé elaborados de modo orgânico. Há o conceito de Deus e o conceito de comunidade. A teologia pastoral aparece em cursos de teologia, formações culturais e em organizações diocesanas e paroquiais. Ela incorpora elementos da teologia acadêmica, como teorias, práxis e autores.
Teologia acadêmica e profissional
A teologia acadêmica e profissional reflete a fé a partir do conhecimento, em diálogo com as ciências contemporâneas. Possui lógica e método, sendo ao mesmo tempo teórica e dinâmica. Precisa de locais formais de ensino, como institutos teológicos, seminários, faculdades de teologia e escolas de formação catequética.
Da apologética à teologia fundamental
O fundamento da teologia é a revelação, desde os primeiros séculos da Igreja e do cristianismo. A parte dogmática da Igreja e da teologia constitui enunciados válidos para aqueles que creem. Além de a apologética ser uma das dimensões do fazer teológico, ela inspira um método próprio, com objetivos, caminhos e modos de proceder.
Apologética pode ser definida como o ramo da teologia que se dedica à defesa racional da fé cristã, utilizando argumentos filosóficos, teológicos, históricos, científicos e exegéticos para responder a críticas, refutar objeções e apresentar uma defesa coerente e convincente das verdades fundamentais do cristianismo. As disputas apologéticas voltam-se contra as heresias no seio da Igreja. A apologética serve para preservar o conteúdo da fé. Essas disputas geralmente surgem quando diferentes correntes teológicas ou grupos dentro da comunidade cristã têm interpretações divergentes sobre questões fundamentais de fé e doutrina.
Alguns grupos e a Reforma
Alguns grupos surgiram nessa época:
- Reforma protestante (luterana): acentuou aspectos subjetivos para a adesão à revelação e à salvação — sola fide, sola gratia, sola scriptura.
- Igreja (posição contrária): acentuou aspectos objetivos, insistindo na representação normativa do objeto da fé por parte da Igreja e na justificativa racional do fato da revelação.
Nessa virada, houve expansão da teologia, entendendo que a teologia se estende às outras áreas da revelação. A passagem da apologética para a dogmática relaciona-se com a transição da Idade Média (visão cristã) para a Idade Moderna (visão antropocêntrica). Essa passagem foi metodológica: a diferença está em informar sobre Deus enquanto acontecimento que se dá a si mesmo na história e na vida da humanidade. Deus acontece na história.
A apologética clássica ou fundamental tradicional manteve-se presente no ensino dos seminários e faculdades eclesiásticas até os albores do Concílio Vaticano II. A reforma e o mundo moderno foram por vezes vistos como inimigos irreconciliáveis a quem se devia atacar e de quem se devia defender. A revelação continua sendo considerada o fundamento da teologia.
Áreas de estudo e disciplinas teológicas
Áreas: bíblica, história, dogmática, sistemática, pastoral e seus conjuntos de disciplinas que dialogam entre si. A disciplina de sistemática ocupa-se de estudar o sistema da fé cristã, que inclui a Sagrada Escritura, o magistério e a elaboração teológica.
O fundamento da teologia não é apenas um conjunto argumentativo; é o fato de que Deus se revelou o suficiente para tornar a fé discutível, debatida e refletida. Essa mudança marcou uma inversão na apologética. O Concílio Vaticano II, concluído em 1965, foi um marco significativo para a temática da revelação na teologia, culminando na promulgação da constituição dogmática Dei Verbum. Dei Verbum enfatizou que Deus se revela por meio de palavras e eventos na história, especialmente em Jesus Cristo, e que essa revelação é transmitida tanto pela Sagrada Escritura quanto pela Tradição viva da Igreja.
Formas de teologia fundamental:
- De cunho dogmático: inspirada por Dei Verbum, coloca a revelação no centro da reflexão teológica.
- De cunho apologético: insiste nos fundamentos argumentativos da fé apreendidos pela razão, dedicando-se a defender a fé por meio de argumentos racionais e fundamentos sólidos.
- De cunho epistemológico: insiste nos fundamentos teológicos a partir da semântica e da linguagem, buscando compreender como o conhecimento teológico é adquirido, comunicado e justificado por meio da linguagem.
Formulação teológica e tradição
A tradição confere à Igreja o atributo de transmissora da revelação, ou seja, a transmissão contínua e viva da mensagem de Cristo e do ensinamento apostólico ao longo da história da Igreja. Ela inclui a interpretação autêntica das Escrituras, o depósito da fé, as práticas litúrgicas, as doutrinas dogmáticas e morais, bem como as expressões populares de piedade e devoção.
Esse fato envolve três elementos importantes:
- Actus tradendi – o processo de transmissão.
- Traditio – o conteúdo transmitido.
- Tradentes – os sujeitos da tradição.
Jesus é a referência para os ensinamentos. Tradição refere-se à continuidade dinâmica e orgânica da vida e prática da comunidade cristã ao longo do tempo, transmitindo a fé dos ensinamentos deixados por Jesus e continuados pelos apóstolos.
Temas centrais da teologia fundamental
O conteúdo da teologia coincide com aquilo que se dá a conhecer: a revelação é a base de toda teologia, sua fonte e seu núcleo, diante da qual todo discurso teológico deve se colocar para saber se está cumprindo sua missão de veicular a compreensão da verdade. Se a revelação foi feita pela Encarnação, a transmissão da revelação dá-se pela continuidade do mistério da Encarnação. Essa continuidade ao longo da história chama-se Igreja: a Igreja é o Deus que se fez carne e que agora vive ao longo da história. A revelação é histórica e dialogal.
Teologia e seu fundamento. Deus utiliza meios próprios a Ele e distintos da nossa natureza. Para abrir acesso à nossa compreensão, Ele se utiliza da história e de tudo o que nela está presente. A revelação especial refere-se à manifestação direta de Deus por meio de eventos históricos e das Sagradas Escrituras. Deus sai do Seu silêncio. Deus se diz, gerando em nós condições de possibilidade para que O conheçamos e acolhamos. A revelação tem em Deus sua Palavra fundante. Deus é o princípio vital de todas as coisas; nele está nosso amor original, e dele parte toda nossa capacidade de construção e recepção.
A teologia aparece como uma necessidade do homem em busca de respostas para sua vocação. A teologia deve ultrapassar as fronteiras meramente especulativas e envolver-se com o mistério de Deus. A teologia tem vida: o movimento de transmissão chamamos de tradição; é preciso envolver-se com o objeto de estudo. A tradição foi entregue a nós sobre a vida, os feitos e a obra de Jesus, como afirma Tertuliano. Ao falar de tradição, entendemos um movimento que pode ser oral, gestual e escrito. Tertuliano usa o termo traditio apostolorum para os ensinamentos que os apóstolos receberam e transmitiram.
Tradição, no sentido teológico, está ligada ao elo estabelecido pelos apóstolos, que foram os mais próximos da comunidade do Mestre. Além dos ensinamentos dos apóstolos, houve a sistematização da fé, transformando-a em um sistema racional e lógico que procura explicar o motivo do crer. A tradição tem sido uma força vital na preservação e observância do conteúdo da fé cristã ao longo dos séculos. Os costumes dão sentido ao conceito de tradição por transmitir o conteúdo da fé.