Teorias do Conhecimento: Dogmatismo, Ceticismo, Descartes e Hume
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O Dogmatismo e o Realismo Ingénuo
O dogmatismo pode ser entendido em três sentidos:
- Como a perspectiva típica do realismo ingénuo, que admite a possibilidade de conhecer as coisas em si mesmas;
- Como a confiança absoluta numa determinada faculdade de conhecimento, nomeadamente a razão;
- Como a completa submissão a uma autoridade ou a determinados princípios, sem um exame crítico dos mesmos.
A Crítica ao Dogmatismo Ingénuo
No âmbito do dogmatismo ingénuo, não se coloca o problema de saber se o sujeito apreende ou não o objeto, ou seja, não se coloca o problema do conhecimento, partindo-se do pressuposto de que o sujeito apreende efetivamente o objeto. Ao não se aperceber do caráter relacional do conhecimento, o dogmático não coloca em dúvida a sua possibilidade, acreditando que os objetos nos são dados diretamente e de um modo absoluto, tal como são em si mesmos. Ora, isto não acontece na filosofia, porque todo o filósofo procede a um exame crítico daquilo que lhe é fornecido pelos sentidos, colocando a pergunta acerca do ser verdadeiro das coisas.
O Ceticismo: Tipos e Funções
A Postura Cética
De acordo com este excerto, a postura cética traduz-se na «recusa daquilo que poderíamos chamar as certezas demasiado fáceis, demasiado apressadas e demasiado certas». Assim, a característica comum aos diversos tipos de ceticismo reside na defesa de que não é possível ao sujeito apreender, de um modo efetivo e rigoroso, o objeto, o que significa que ninguém possui a verdade absoluta.
Ceticismo Absoluto ou Radical (Pírron)
O ceticismo absoluto ou radical, fundado por Pírron, considera que é impossível ao sujeito apreender o objeto, não havendo, por conseguinte, qualquer conhecimento verdadeiro. Por isso, Pírron aconselhava a suspensão do juízo. Esta forma de ceticismo, de certo modo, é autocontraditória, pois afirma que o conhecimento é impossível, mas exprime (ao afirmar tal coisa) um conhecimento.
Ceticismo Metódico vs. Sistemático
Quando faz parte do espírito crítico e autónomo, o ceticismo adquire um caráter metódico, sendo um meio para alcançar a verdade (como acontece com a dúvida metódica de Descartes) e não uma confissão explícita de que a não podemos encontrar. Com a dúvida, liberta-se a razão, para se poder alcançar o verdadeiro conhecimento. Este ceticismo metódico opõe-se ao ceticismo sistemático, que se fica pela dúvida como um princípio definitivo.
Racionalismo e Empirismo: Fontes do Conhecimento
Racionalismo vs. Empirismo
O racionalismo e o empirismo são duas teorias filosóficas que procuram responder ao problema da origem do conhecimento.
- Racionalismo: Segundo os racionalistas, a razão é a fonte do conhecimento verdadeiro. Só através da razão é que se pode encontrar um conhecimento seguro, o qual é totalmente independente da experiência sensível. Tal conhecimento só existe quando é logicamente necessário e universalmente válido, tendo como modelo o conhecimento matemático. Alguns autores racionalistas, como Descartes, defendem a existência de ideias inatas, que são claras e distintas, e a partir das quais se pode deduzir o verdadeiro conhecimento da realidade.
- Empirismo: Por sua vez, recusando as ideias inatas, é uma teoria segundo a qual todo o nosso conhecimento provém da experiência. O entendimento assemelha-se a uma página em branco onde, antes de qualquer experiência, nada se encontra escrito. Locke é um dos principais representantes do empirismo. Segundo este filósofo, o conhecimento é limitado pela experiência e resulta da ligação de ideias simples obtidas através dela.
Locke e os Limites da Experiência
Segundo Locke, a experiência – seja a externa (a sensação), seja a interna (a reflexão) – marca os limites do conhecimento, o qual é então limitado ao nível da extensão e das certezas que apresenta.
Sendo assim, todas as ideias, sejam elas simples ou complexas, têm uma base empírica, não havendo ideias inatas. Uma vez que não existem ideias inatas, importa averiguar a génese empírica das ideias, mostrando como as mais complexas e abstratas podem ser decompostas nas mais simples e como estas se associam e combinam para formarem as mais complexas.
René Descartes: O Método e a Dúvida
As Regras do Método de Descartes
As regras do método de Descartes são as seguintes:
- Regra da Evidência: Consiste em nunca aceitar algo como verdadeiro sem o conhecer evidentemente como tal, ou seja, de um modo indubitável, claro e distinto.
- Regra da Análise: Consiste em dividir cada uma das dificuldades nas parcelas necessárias para as resolver.
- Regra da Síntese: Consiste em conduzir por ordem os pensamentos, subindo do simples ao complexo.
- Regra da Enumeração: Consiste em fazer enumerações completas e uma revisão do percurso efetuado, a fim de se obter a garantia de que nada foi omitido.
A Dúvida Cartesiana: Função e Alcance
A dúvida cartesiana constitui um momento importante do método. Descartes decide «rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida», a fim de ver se, depois disso, restaria alguma coisa que fosse absolutamente indubitável.
Deste modo, a dúvida é um instrumento da luz natural ou razão, sendo posta ao serviço da verdade. Na busca dos princípios fundamentais e indubitáveis, é necessário colocar tudo em causa, evitando igualmente os juízos precipitados e os preconceitos.
Por outro lado, uma vez que os sentidos nos enganam, uma vez que não dispomos de um critério que permita discernir o sonho da vigília, uma vez que alguns homens se enganaram nas demonstrações matemáticas, e admitindo ainda a hipótese de haver um deus enganador, ou um génio maligno, que nos ilude a respeito da verdade, então a dúvida é absolutamente fundamental, assumindo uma função catártica e libertadora, no processo de reconstrução, com fundamentos sólidos, do edifício do saber.
O Cogito Cartesiano: A Primeira Certeza
Escreve Descartes que a «proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo espírito, é necessariamente verdadeira». Deste modo, o filósofo acaba por fornecer uma primeira característica do cogito: trata-se de uma afirmação indubitável da existência do sujeito, apreendida intuitivamente no próprio ato de pensar e de duvidar.
Sendo uma afirmação evidente, uma certeza inabalável, obtida por intuição, o cogito servirá de paradigma para as várias afirmações verdadeiras, traduzindo o critério de verdade: a evidência, ou seja, a clareza e a distinção das ideias.
Mostrando como a existência é indissociável do próprio pensamento, o cogito permite-nos perceber qual a natureza do sujeito: esta consiste no pensamento, ou alma, e equivale a toda a atividade consciente.
Descartes: Provas da Existência de Deus e Teoria do Erro
Argumento Ontológico
O argumento ontológico é uma prova da existência de Deus que parte da constatação de que na ideia de ser perfeito estão compreendidas todas as perfeições. Sendo a existência uma dessas perfeições, então Deus, que é o ser perfeito, existe. A existência de Deus é inerente à sua essência, apresentando um caráter necessário e eterno.
Argumento da Causalidade da Ideia de Ser Perfeito
Partindo da ideia de ser perfeito, podemos procurar a causa que faz com que essa ideia se encontre em nós. Tal causa não pode ser o sujeito pensante, pois aquela ideia, representando uma substância infinita, não pode ter por causa o sujeito pensante finito. O nada também não pode ser a sua causa, nem qualquer ser imperfeito. A causa da ideia de ser perfeito não é outro ser senão Deus, que é uma realidade que possui todas as perfeições representadas na ideia de ser perfeito.
Deus como Fundamento do Conhecimento
De acordo com o texto, a faculdade de conhecer (a razão ou luz natural), tendo-nos sido dada por Deus, que não é enganador, «nunca apreende nenhum objeto que não seja verdadeiro (…) no que ela conhece clara e distintamente». Desde que bem usada, a razão pode alcançar conhecimentos evidentes. Sendo assim, Deus, ao ser o criador da faculdade de conhecer, é também o fundamento do ser e do conhecimento em geral, garantindo a verdade objetiva das ideias claras e distintas. Sendo criador das verdades eternas, a origem do ser e o fundamento da certeza, Deus garante a adequação entre o pensamento evidente e a realidade, legitimando a edificação do sistema das ciências e conferindo validade e objetividade ao conhecimento.
A Teoria Cartesiana do Erro
A teoria cartesiana do erro põe em evidência o papel da vontade em todo este processo. Com efeito, se é verdade que na formação de juízos o entendimento tem um papel fundamental, é a vontade que dá o consentimento aos juízos que o entendimento formula. Sendo livre, é ela quem decide dar (ou não) o assentimento aos juízos, pelo que o erro se verifica quando há um uso indevido da liberdade, ou seja, quando a vontade se precipita e dá o consentimento a juízos que não são evidentes.
As Três Substâncias Cartesianas
Segundo Descartes, podemos ter ideias claras e distintas dos atributos essenciais de três tipos de substâncias:
- Substância Pensante (res cogitans): Cujo atributo essencial é o pensamento.
- Substância Extensa (res extensa): Cujo atributo essencial é a extensão.
- Substância Divina (res divina): Cujo atributo essencial é a perfeição, a qual se identifica, em virtude da simplicidade divina, com os vários atributos de Deus: omnipotência, omnisciência, suma bondade, etc.
David Hume: Impressões e Ideias
As percepções são classificadas por Hume segundo o critério da vivacidade e da força com que afetam o espírito. As percepções que apresentam maior grau de força e vivacidade são as impressões. Ora, a percepção de algo presente aos sentidos é sempre mais viva do que a sua imaginação ou representação, havendo uma grande diferença entre sentir «a dor de um calor excessivo» e trazer à memória a sensação respetiva ou antecipá-la mediante a imaginação. As ideias ou pensamentos são, assim, as representações das impressões, ou seja, são as imagens enfraquecidas das impressões, nunca alcançando vivacidade e força iguais às destas últimas.
Relações de Ideias e Questões de Facto
As relações de ideias, ao contrário das questões de facto, traduzem-se em enunciados independentes dos factos, daquilo que acontece. Embora estas ideias, características dos conhecimentos da lógica e da matemática, não deixem de derivar da experiência, a relação entre elas é independente da experiência. Estes conhecimentos apresentam um caráter evidente, traduzindo-se em proposições:
- Analíticas: Porque podem descobrir-se apenas pelo pensamento;
- Necessárias: Porque se baseiam no princípio de contradição (ou princípio de não-contradição), o que significa que negar essas proposições implica entrar em contradição.
Os Princípios de Associação de Ideias de Hume
Segundo Hume, há três princípios de associação de ideias:
- A semelhança;
- A contiguidade no tempo e no espaço;
- A causalidade (relação de causa e efeito).
A Crítica de Hume à Causalidade
A Causalidade Deriva da Experiência
Escreve Hume que o conhecimento da relação de causa e efeito «não é, em circunstância alguma, obtido por raciocínios a priori, mas deriva inteiramente da experiência». É perante a constatação de que determinados objetos se combinam entre si, ou de que entre dois fenómenos se verificou sempre uma sucessão constante (um deles ocorreu sempre a seguir ao outro), que o sujeito conclui ser um a causa e outro o efeito, tomando assim conhecimento da relação de causalidade.
Ora, essa sucessão constante entre fenómenos não nos pode levar a concluir que entre eles haja uma conexão necessária (embora seja desse modo que a relação de causa e efeito é geralmente entendida), tanto mais que não dispomos de qualquer impressão relativa à ideia de conexão necessária entre fenómenos.
Causalidade como Hábito e Crença
Uma vez que só a partir da experiência é que se pode conhecer a relação entre a causa e o efeito, sendo este um conhecimento a posteriori e não a priori, então não podemos concluir que esta relação traduza uma conexão necessária, mas sim uma sucessão constante entre factos.
O nosso conhecimento dos factos restringe-se às impressões atuais e às recordações de impressões passadas. Uma vez que não dispomos de impressões relativas ao que acontecerá no futuro, pode-se dizer que não possuímos um conhecimento rigoroso dos factos futuros.
Sendo assim, este conhecimento é apenas uma crença, no sentido de suposição ou de probabilidade. A certeza de que um facto (efeito) sucederá ao outro (causa) tem apenas um fundamento psicológico: o hábito ou costume. É o hábito de constatar que um facto sucede a outro que nos leva à crença de que tal sucessão sempre se há de verificar. O hábito é um guia imprescindível da vida prática, mas não constitui um princípio racional.
A Crítica de Hume à Ideia de Eu
Hume considera que não se deve recorrer a qualquer tipo de intuição para justificar a existência do eu como substância dotada de realidade permanente, isto é, como sujeito imutável dos vários atos psíquicos. Com efeito, só dispomos da intuição de ideias e impressões, e entre elas verifica-se a sucessão e a mutabilidade. Nenhuma ideia ou impressão apresenta um caráter de permanência. Sendo assim, a crença na identidade, na unidade e na permanência do eu é apenas um produto da imaginação, não sendo possível afirmar que existe o eu como substância distinta em relação às impressões e às ideias.
O Empirismo Cético de Hume
Segundo David Hume, todo o conhecimento deriva da experiência, tendo todas as crenças e ideias uma base empírica, até as mais complexas. As ideias derivam das impressões sensíveis, não havendo conhecimento fora dos limites impostos pelas impressões. Daí o empirismo defendido pelo filósofo.
Ora, uma vez que a realidade a que temos acesso se reduz às percepções, a crença na existência de algo para lá dos fenómenos carece de fundamento. A capacidade cognitiva do entendimento humano limita-se ao âmbito do provável. Como tal, estamos perante um empirismo cético.
Pontos Chave para Análise Comparativa
No comentário a estas afirmações, deverá o aluno ter em conta:
Descartes:
- A importância atribuída ao método para a conquista da verdade;
- A necessidade de se efetuar uma investigação de caráter metafísico, a fim de encontrar os princípios fundamentais do conhecimento humano;
- As operações fundamentais da razão humana – a intuição e a dedução – e o papel da dúvida em todo o processo de busca do conhecimento verdadeiro;
- O significado das ideias inatas e do conhecimento claro e distinto;
- Os princípios ou fundamentos do conhecimento (dos quais se deduzirão as restantes verdades): a existência do pensamento (alma); a existência de Deus e a consideração dos seus atributos; a existência de corpos extensos em comprimento, largura e altura.
Hume:
- O empirismo de Hume: todo o conhecimento deriva da experiência, não havendo conhecimento fora dos limites impostos.
- A distinção entre impressões e ideias.
- A crítica à conexão necessária na causalidade.
- A natureza da crença e do hábito.
- A crítica à ideia de substância (incluindo o Eu).