Tópicos Essenciais em Periodontia: Um Guia Detalhado
Classificado em Medicina e Ciências da Saúde
Escrito em em
português com um tamanho de 17,29 KB
Terapia Antimicrobiana Subgengival
O tratamento mecânico convencional resulta na redução de bactérias Gram-negativas, bastonetes anaeróbios e bactérias móveis, com um aumento de Estreptococos, Gram-positivos e Actinomyces.
Princípios da Terapia com Antibióticos
- O antibiótico deve atingir uma concentração suficientemente alta nos tecidos e na bolsa periodontal.
- A resistência a antibióticos ocorre principalmente onde a penetração bacteriana é restrita ou o fármaco pode ser degradado por bactérias diferentes do micro-organismo alvo.
- As bactérias no biofilme são difíceis de erradicar por agentes antimicrobianos e são protegidas dos mecanismos de defesa do hospedeiro, sendo efetivamente removidas por ação mecânica.
- A instrumentação mecânica deve sempre preceder a terapia antimicrobiana.
- É importante considerar o antagonismo e o sinergismo na bolsa periodontal, visando eliminar as bactérias alvo e permitir o crescimento de bactérias benéficas. Recomenda-se o uso de antibióticos de baixo espectro.
Via Sistêmica
A droga se dissolve em todo o líquido corporal, e apenas uma pequena quantidade chega à bolsa periodontal. A concentração média no fluido gengival corresponde a aproximadamente 0,0003% da dose. É necessário atingir uma concentração adequada no sítio de ação por tempo suficiente, o que depende da colaboração do paciente.
Vantagens da Via Sistêmica
- Atingem microrganismos via soro, no fundo da bolsa, em furcas, e dentro do epitélio e tecido conjuntivo.
- A supressão diminui o risco de repopulação bacteriana.
- Atinge sítios extra-bolsa.
Efeitos Adversos dos Antibióticos Sistêmicos
- Diarreia, náuseas, vômitos e dores de estômago.
- Dor de cabeça, fraqueza e fadiga.
- Amoxicilina e Clindamicina: podem causar colite pseudomembranosa pelo Clostridium difficile.
Via Local
A administração local pode ser feita através de:
- Irrigação
- Pomadas ou géis
- Dispositivos de liberação lenta
Resistência Bacteriana
Desenvolvimento de Resistência
- Pela mutação e seleção de microrganismos durante a administração do antibiótico.
- Pela transferência de sequências de DNA entre bactérias.
- Efeitos mutagênicos, como os das quinolonas.
- Mutações ocorrem a cada 40 a 100 mil gerações bacterianas.
- É crucial reduzir o uso de antibióticos. Se houver necessidade, sua utilização deve ser correta, baseada no diagnóstico bacteriano, na seleção do antibiótico correto e na escolha do esquema de administração adequado, com seguimento detalhado.
Mecanismos de Resistência
- Alteração da superfície bacteriana.
- Habilidade de expelir as moléculas de antibiótico.
- Alteração da estrutura alvo.
- Inativação ou clivagem da molécula do antibiótico.
- Transferência da resistência: via plasmídeos, pili sexuais unidos a bacteriófagos ou DNA naked, levando à multirresistência.
Características da Infecção Periodontal
O tratamento deveria alcançar toda a área afetada, especialmente a base da bolsa, e ser mantido por um longo tempo. O fluido do sulco no volume da bolsa tem uma meia-vida da droga de aproximadamente 1 minuto.
Avaliação de Antibióticos na Terapia Periodontal
- Amoxicilina: Atua na síntese da parede celular, é bactericida e efetiva contra patógenos periodontais. Atinge boa concentração no fluido do sulco. Pode ser associada ao ácido clavulânico.
- Tetraciclina: Amplo espectro e baixa toxicidade. Inibe a síntese proteica, sendo bacteriostática. Inibe a colagenase e se liga às superfícies dentárias, sendo liberada lentamente. Doses comuns: Cloridrato de tetraciclina 250mg 6/6h por 7 a 10 dias; Minociclina e Doxiciclina 100 a 200mg 12/12h por 7 a 10 dias.
- Nitroimidazóis (Metronidazol, Ornidazol): Inibem a síntese de DNA. Afetam a flora estritamente anaeróbia, incluindo P. gingivalis, mas são inativos contra A. actinomycetemcomitans. Dose comum: Metronidazol 400mg 8/8h por 7 a 10 dias.
- Drogas Antifúngicas: Utilizadas em 10 a 15% das doenças periodontais com associação de fungos. Exemplos: Micostatina 500.000 UI 3x/dia por 25 dias; Fluconazol 50mg 2x/dia por 7 dias.
Observação: Testes in vitro não refletem as verdadeiras condições encontradas nas bolsas periodontais.
Terapia Combinada
A microbiota subgengival na periodontite abriga várias espécies com diferentes suscetibilidades antimicrobianas, portanto, a terapia combinada pode ser útil. A combinação Amoxicilina + Metronidazol tornou-se a modalidade de tratamento preferida, especialmente na Periodontite Agressiva e na Periodontite Avançada associada ao A. actinomycetemcomitans.
Terapia Antimicrobiana Local
Irrigação Subgengival
- Espaço limitado (5 microlitros) e lavagem da bolsa 40 vezes/hora.
- Vida média de uma droga na bolsa: 1 minuto.
- Dificuldade de atingir o fundo da bolsa e necessidade de várias aplicações.
- Dificuldade de autoaplicação pelo paciente.
Dispositivos de Liberação Lenta
Vantagens
- Minimiza efeitos colaterais.
- Concentração na bolsa 100 vezes maior que no uso sistêmico.
- Ideal para pacientes não colaboradores.
Desvantagens
- Não elimina patógenos extra-bolsa.
- Custo elevado.
- Desconforto local.
Exemplos de Dispositivos
- Actisite (Tetraciclina)
- Elyzol (Metronidazol)
- Periochip (Clorexidina)
- Dentomycin (Minociclina)
- Atridox (Doxiciclina)
Conclusões sobre Terapia Antimicrobiana
- Antibióticos sistêmicos são úteis como auxiliares ao tratamento mecânico de formas agressivas de periodontite e para casos de doença contínua.
- Regiões localizadas refratárias podem ser tratadas com terapia local.
- O tratamento mecânico prévio é essencial.
- Os antibióticos devem ser considerados uma ferramenta disponível e uma extensão do tratamento mecânico.
- Pacientes com gengivite ou periodontite crônica respondem bem à terapia mecânica, tendo pouco ou nenhum benefício do uso de antibióticos.
Lesão de Furca
É um defeito ósseo inter-radicular com destruição parcial ou total do aparelho de inserção na região de furca de um dente multirradiculado. Sua morfologia complexa influencia a instrumentação e a higiene bucal, resultando em um prognóstico menos favorável.
Fatores Etiológicos
Fatores Predisponentes
- Anatômicos: Comprimento e concavidade do tronco radicular, projeções cervicais de esmalte, pérolas de esmalte, localização e largura da furca, teto da furca, morfologia e comprimento radicular, canais acessórios.
- Anomalias de desenvolvimento.
- Iatrogenias: Sobrecontornos, margens desadaptadas, restaurações classe V deficientes, contatos oclusais prematuros, trepanação de furca.
Tronco Radicular
É o espaço compreendido entre a junção amelo-cementária e o ponto onde as raízes se separam.
- Raízes próximas ou fusionadas: podem impedir a instrumentação.
- Raízes mais separadas: oferecem maiores opções de tratamento.
- Tronco longo e raízes curtas: podem ter perdido a maior parte do suporte quando a furca é afetada.
- Tronco curto e raízes longas: melhor acesso para tratamento e maior inserção remanescente.
Diagnóstico Diferencial da Lesão de Furca
- Origem Endodôntica: Patologia pulpar via canais acessórios. Pode ocorrer fístula sem afetar os tecidos periodontais. A infecção pode se estender, formando bolsa periodontal. Radiograficamente, é similar à causada por periodontite marginal. Sinais clínicos importantes incluem ausência de vitalidade, sensibilidade à percussão e mobilidade. É reversível após tratamento endodôntico.
- Origem Oclusal: Histologicamente, ocorrem mudanças vasculares na área inter-radicular que permitem a remodelação do espaço do ligamento. Causa radiolucidez e mobilidade, sem bolsa. É reversível. Quando associada à placa, causa sangramento, bolsa periodontal, perda de inserção e reabsorção óssea, tornando-se irreversível.
- Origem Combinada: Doença periodontal e pulpar concomitantes. Uma vez que se unem, as lesões podem ser clinicamente indistinguíveis. O prognóstico depende da extensão do componente periodontal. Inicia-se com o tratamento endodôntico e reavalia-se o grau da lesão periodontal.
Fatores que Influenciam o Tratamento
- Morfologia do dente afetado.
- Posição do dente em relação aos dentes adjacentes.
- Anatomia local do osso alveolar e defeitos ósseos.
- Outras alterações: cárie, doença pulpar.
- Quantidade de gengiva inserida e profundidade do vestíbulo.
Tratamento por Grau de Lesão
- Grau I: Raspagem e alisamento corono-radicular, odontoplastia, osteoplastia e orientação de higiene bucal.
- Grau II: Raspagem e alisamento corono-radicular, regeneração tecidual guiada, enxertos, odontossecção, radilectomia e orientação de higiene.
Inter-relação Periodontia-Prótese
1. Quanto ao Preparo Protético
Localização do Limite Cervical das Próteses
- Supragengival: Término localizado coronariamente à margem gengival.
- Gengival: Posicionado ao nível da gengiva.
- Intrassulcular/Intracrevicular: Término localizado dentro do sulco gengival.
Vantagens do Preparo Supragengival
- Procedimentos clínicos e laboratoriais são facilitados.
- Aumenta a possibilidade de uma prótese com melhor justeza e acabamento.
- Qualidade do preparo é melhor controlada pela inspeção visual e sondagem.
- Não há necessidade de afastamento gengival durante a impressão.
- A interface prótese-dente não interfere na homeostasia do sulco gengival.
Indicações e Contraindicações do Preparo Intrassulcular
- Indicações: Fatores estéticos, paciente com predisposição à cárie, necessidade de aumento da retenção em dentes curtos, erosões, fraturas, sensibilidade dentinária.
- Contraindicações e Desafios: Materiais restauradores facilitam a retenção de placa, dificuldade de limpeza, aspereza do término, dificuldade na examinação da adaptação, e grau de fluidez do material cimentante.
2. Quanto à Prótese
A confecção protética (contorno, textura, formato dos pônticos) deve permitir o controle de placa pelo paciente e fornecer proteção aos tecidos periodontais.
Contorno das Coroas Protéticas
- Faces Livres (Vestibulares e Linguais): O sobrecontorno pode causar retenção de placa e dificultar a limpeza. O subcontorno pode levar à impacção alimentar e hiperplasia gengival.
- Faces Proximais: A forma de conveniência deve considerar o ponto de contato e as cristas marginais, adaptando-se a dentes unitários, ferulizados e com diferentes níveis de inserção.
Textura de Superfície e Pônticos
- Textura: O polimento cervical dos materiais é mais importante que o tipo de material empregado para minimizar a retenção de placa.
- Pônticos: Devem ser de fácil limpeza, estéticos, confortáveis e restabelecer a oclusão. As formas incluem Sela, Chanfro, Bala e Higiênico.
3. Dimensões Fisiológicas do Periodonto de Proteção
As estruturas que compõem as dimensões fisiológicas do periodonto de proteção são o sulco gengival histológico, o epitélio juncional e a inserção conjuntiva.
Medidas Médias
- Epitélio do Sulco: 0,69 mm
- Epitélio Juncional: 0,97 mm
- Inserção Conjuntiva: 1,07 mm
Espaço ou Altura Biológica
É o espaço que representa a junção fisiológica dentogengival, compreendida entre a base do sulco gengival e a crista óssea. É composto pelo epitélio juncional e pela inserção conjuntiva, medindo, em média, 2 mm. A invasão desse espaço (preparo subgengival) causa inflamação do periodonto marginal (aguda ou crônica).
4. Interface Alveolorestauradora (IAR)
É a distância da crista óssea ao término do preparo. Clinicamente, a IAR deve ser de, no mínimo, 3 mm. A invasão do espaço biológico ocorre quando a IAR é menor que 2 mm.
5. Técnicas para Restabelecer a Distância Biológica
- Aumento de coroa clínica.
- Osteotomia com retalho posicionado apicalmente.
- Tração ortodôntica.
6. Tratamento de Bolsas Falsas
Em situações de hiperplasia gengival (bolsa falsa) sem invasão da distância biológica, o tratamento para aumento de coroa clínica pode incluir gengivectomia, cunha distal/interproximal ou retalho posicionado apicalmente sem osteotomia.
Doenças Gengivais e Fatores Modificadores
Modificadas por Malnutrição
- Deficiência de Vitamina C (Ácido Ascórbico): Causa petéquias, equimoses, hiperemia, edema, sangramento gengival e mobilidade dentária. O escorbuto é caracterizado por diátese hemorrágica e cicatrização retardada.
- Deficiência de Vitamina A: Pode levar a erupção dental retardada, hipoplasia do esmalte, dentina atípica, formação óssea alterada e hiperqueratinização do epitélio gengival.
Modificadas por Fatores Sistêmicos
- Gravidez: Pode ocorrer gengivite intensa, epúlides gravídicas e hipermobilidade dentária devido à hiperelasticidade do ligamento periodontal. O tratamento consiste em um programa preventivo de higiene oral.
- Diabetes: Fatores como a função alterada dos leucócitos, metabolismo do colágeno comprometido e maior suscetibilidade a infecções contribuem para a doença periodontal. O tratamento envolve controle rigoroso da placa a cada 3 meses.
- Anemia: Sintomas incluem cansaço, dificuldade de respiração e palidez gengival.
- Leucemia: Proliferação neoplásica dos tecidos formadores de leucócitos. Na leucemia aguda, a gengiva pode ficar amolecida, vermelho-escura, com volume aumentado e sangramento espontâneo. No periodonto, pode haver perda óssea e mobilidade dentária.
De Origem Fúngica e Viral
- Fúngica: Infecções por espécies de Candida, como o eritema linear.
- Viral: Infecções por herpes, como a gengivoestomatite herpética primária e o herpes oral recorrente.
Induzidas por Medicamentos
- Fenitoína (Dilantin): Anticonvulsivante que pode causar crescimento gengival, especialmente nos dentes anteriores. O tratamento envolve controle profissional de placa e, se necessário, gengivectomia.
- Ciclosporina: Droga imunossupressora usada em transplantes que também pode induzir crescimento gengival. O tratamento cirúrgico requer autorização médica.
Lesões Mucocutâneas
- Líquen Plano: Doença inflamatória que afeta pele e mucosas. As lesões orais podem persistir por anos. Tratamento: remoção não traumática da placa e aplicação de corticoides tópicos.
- Pênfigo: Doença autoimune potencialmente fatal. As lesões intraorais costumam ser as primeiras a aparecer. O diagnóstico e tratamento são feitos em conjunto com um médico.
- Penfigoide Bolhoso Benigno: Doença autoimune que causa eritema difuso, descamação do epitélio e sensibilidade. Tratamento: evitar alimentos condimentados, corticoides tópicos e clorexidina.
Distúrbios Genéticos
- Síndrome de Papillon-Lefèvre: Distúrbio raro que afeta a pele das mãos e pés e causa destruição periodontal rápida na dentição decídua, levando à perda prematura dos dentes.
- Síndrome de Chediak-Higashi: Doença autossômica recessiva que leva a anomalias celulares e disfunção de neutrófilos, resultando em gengivite grave e rápida perda de inserção.
Indicadores vs. Fatores de Risco
Explicação: Fatores são classificados como indicadores de risco quando são observados em estudos transversais. Eles são considerados fatores putativos, mas para serem confirmados como fatores de risco, precisam ser observados e validados em estudos longitudinais.