## Ventilação Mecânica e SDRA: Guia de Bases e Condutas

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Ventilação Mecânica: Bases Fisiológicas e Indicações

Histórico

  • 1530: Paracelso utilizou fole manual para insuflar pulmões de pessoas recentemente falecidas.
  • 1555 (Vesalius), 1667 (Hook) e 1776 (Hunter): Animais com tórax aberto eram mantidos vivos pelo uso de pressão positiva nas vias aéreas.
  • 1887: O'Dwyer utilizou intubação endotraqueal com tubos de metal, cuja ponta apresentava dilatação que ficava encunhada na glote, para ser usada em pacientes com obstrução alta das vias aéreas por difteria.
  • 1893: George E. Fell utilizou um fole manual para ser aplicado por máscara, muito bem vedada, ou por um tubo de traqueostomia.
  • 1926: Drinker e Shaw construíram um sistema para expandir o tórax por pressão negativa, denominado de pulmão de aço.
  • 1928: Drinker e McKhann aplicaram o pulmão de aço em uma criança de 8 anos.
  • Primeira metade do século XX: Respiradores tipo couraça (tóraco-abdominal e torácico) foram desenvolvidos. Comparativamente ao tanque, a eficiência dos toracoabdominais e torácicos era de 62% e 47%, respectivamente.
  • Década de 40: VM com pressão positiva durante anestesia, aspiração de secreções, ventilação manual/mecânica e aumento da FiO2.
  • Década de 60: São desenvolvidos os respiradores de pressão positiva intermitente.
  • Década de 70: Surgem os aparelhos ciclados a volume, a pressão e a fluxo.
  • A partir da década de 80: Aparelhos microprocessados e computadorizados.

Conceituando a Ventilação Mecânica (VM)

Consiste em um método de suporte ventilatório para o tratamento de pacientes com insuficiência respiratória aguda ou crônica agudizada, com o objetivo de:

  • Manutenção das trocas gasosas, ou seja, corrigir a hipoxemia e a acidose respiratória associada à hipercapnia;
  • Reduzir o trabalho da musculatura respiratória;
  • Reverter ou evitar a fadiga da musculatura respiratória;
  • Reduzir o consumo de oxigênio;
  • Permitir a aplicação de medidas terapêuticas.

Indicações

  • Reanimação devido à parada cardiorrespiratória;
  • Hipoventilação e apneia:
    • Agudas: Pacientes com lesões no centro respiratório, intoxicação ou abuso de drogas; embolia pulmonar.
    • Crônica: Pacientes portadores de doenças com limitação crônica ao fluxo aéreo em fase de agudização; obesidade mórbida.
  • Insuficiência respiratória devido à doença pulmonar intrínseca e hipoxemia;
  • Diminuição da PaO2 por alterações da ventilação/perfusão;
  • Falência mecânica do aparelho respiratório:
    • Fraqueza muscular: doenças neuromusculares/paralisia;
    • Comando respiratório instável: trauma craniano, acidente vascular cerebral, intoxicação exógena e abuso de drogas.
  • Prevenção de complicações respiratórias:
    • Pós-operatório de cirurgia de abdome superior, torácica de grande porte, deformidade torácica, obesidade mórbida;
    • Parede torácica instável.
  • Redução do trabalho muscular respiratório e fadiga muscular devido ao aumento da demanda metabólica.

Classificação

Ventilação Mecânica Invasiva e Ventilação Mecânica Não Invasiva. Ambas são formas de aplicar pressão positiva nas vias aéreas. A diferença é a interface entre o ventilador e o paciente:

  • Invasiva: Tubo orotraqueal, nasotraqueal ou traqueostomia.
  • Não invasiva: Máscara.

Princípios da VM

A ventilação mecânica (VM) se faz através de aparelhos que, intermitentemente, insuflam as vias respiratórias com volumes de ar (volume corrente - Vc). O movimento do gás para dentro dos pulmões ocorre devido à geração de um gradiente de pressão entre as vias aéreas superiores e os alvéolos. Então, a função do ventilador mecânico é bombear ar para os pulmões (fase inspiratória) e possibilitar a sua saída (fase expiratória).

Revisando Conceitos Físicos

  • Pressão (P = F/A): É a força exercida (F) sobre uma área (A). Na ventilação espontânea, os músculos respiratórios geram a diferença de pressão; na ventilação mecânica, é o ventilador.
  • Volume: Espaço ocupado por uma determinada matéria, no caso da VM, ar (gás). Unidades: volume corrente (mL) e volume minuto (L).
  • Fluxo: Movimento do ar decorrente da diferença (gradiente) de pressão. Unidades: 1 L/min = 0,01 L/s; 1 L/s = 60 L/min.

Tipos de Curva de Fluxo

  • Fluxo quadrado: Tem início (inspiração) e fim (expiração) bruscos, mantendo um fluxo médio constante.
  • Fluxo descendente: Tem início (inspiração) rápido, com posterior declínio progressivo.
  • Fluxo ascendente: Aumenta progressivamente durante a inspiração e tem declínio abrupto.
  • Fluxo sinusoide ou sinusoidal: Aumenta progressivamente na primeira metade da inspiração e diminui progressivamente na segunda metade.

Ciclo Ventilatório na VM

  1. Fase inspiratória: O ventilador realiza a insuflação pulmonar. Válvula inspiratória aberta.
  2. Mudança de fase (ciclagem): Transição entre a fase inspiratória e a fase expiratória.
  3. Fase expiratória: Fechamento da válvula inspiratória e abertura da expiratória, permitindo o equilíbrio da pressão.
  4. Mudança da fase expiratória para inspiratória (disparo): Termina a expiração e inicia nova fase inspiratória.

Resumindo: Disparo (abre válvula ins.), Inspiração (entrada de ar), Ciclagem (fecha válvula ins. e abre exp.), Expiração (saída passiva).

Disparo do Ventilador

Na VM controlada, o disparo é por tempo. Na VM assisto-controlada ou assistida, o disparo ocorre por queda de pressão ou fluxo (sensibilidade).

  • Disparo a pressão: O ventilador detecta uma queda na pressão das vias aéreas. Pode iniciar a inspiração se atingir o limiar (trigger) ou não iniciar se o esforço for insuficiente (gerando dissincronia).
  • Disparo a fluxo: Envolve um fluxo inspiratório basal contínuo (bias flow). Quando a diferença entre fluxo inspiratório e expiratório alcança o limiar, o ciclo começa.
  • Disparo a tempo: Programado pela frequência respiratória (FR) na VM controlada.

Ciclagem do Ventilador

  • Ciclagem a tempo: Transição ocorre conforme tempo inspiratório pré-determinado. Comum em aparelhos limitados a pressão.
  • Ciclagem a pressão: Interrompida quando a pressão pré-determinada é atingida. Não garante volume corrente.
  • Ciclagem a volume: Finalizada quando o volume corrente ajustado é atingido. Pode provocar barotrauma se a pressão não for monitorada.
  • Ciclagem a fluxo: O tempo inspiratório é interrompido quando o fluxo cai abaixo de um valor (ex: 25% do pico). O paciente tem mais controle.

Modos Básicos de VM

  • Controlado: O aparelho determina todas as fases. Disparo por tempo.
  • Assistido: O disparo é feito pelo esforço do paciente (pressão ou fluxo).
  • Assisto-controlado: Mecanismo duplo. O ciclo controlado entra se o paciente não disparar o assistido.

Parâmetros Ventilatórios Programáveis

  • FiO2: Varia de 0,21 a 1,0. Objetivar FiO2 < 50% para manter SaO2 > 90%.
  • Sensibilidade: Varia entre -0,5 a -2,0 cmH2O. Recomendado iniciar com -1 cmH2O.
  • Pico de Pressão Inspiratória (PIP): Valores além de 50 cmH2O causam lesão pulmonar.
  • Volume Minuto (VE): VE = FR x Vc. Recomendado @ 7,5 L/min.
  • Volume Corrente (Vc ou Vt): Ajuste de 6-10 mL/kg (na SARA, 5-8 mL/kg).
  • Frequência Respiratória (FR): Fisiológico 10-20 rpm. Recomendado 8-12 rpm.
  • Tempos e Relação I:E: T ins (0,8 a 1,2s); Relação I:E fisiológica 1:2.
  • PEEP: Pressão positiva constante ao final da expiração. Fisiológico: 3 a 5 cmH2O. Melhora trocas gasosas e evita colapso alveolar.

SARA: Síndrome da Angústia Respiratória Aguda

A Síndrome da Angústia Respiratória do Adulto foi substituída pelo termo Síndrome da Angústia Respiratória Aguda, pois todas as faixas etárias são susceptíveis.

Definição

Lesão da barreira alvéolo-capilar com alteração da permeabilidade, levando ao extravasamento de líquido proteico para o interstício e alvéolos (edema não cardiogênico).

Lesão Pulmonar Aguda (LPA) x SARA

Ambas são parte de um continuum de lesão inflamatória:

  • LPA: PaO2/FiO2 < 300 mmHg.
  • SARA: PaO2/FiO2 < 200 mmHg.

Todo paciente com SARA tem LPA, mas nem toda LPA evolui para SARA.

Índice de Lesão Pulmonar (Escore de Murray)

Sistema de pontuação (0 a 4) baseado em: Radiografia de tórax, Índice de hipoxemia (PaO2/FiO2), PEEP e Complacência do sistema respiratório. Escore > 2,5 indica lesão grave (SDRA).

Critério Diagnóstico (Consenso Europeu-Americano)

  1. Instalação aguda;
  2. Infiltrado radiológico bilateral;
  3. PaO2/FiO2 < 200;
  4. Pressão capilar pulmonar < 18 mmHg (sem disfunção de VE);
  5. Presença de fator desencadeante.

Etiologia

  • Lesões Diretas (SARA Primária): Aspiração, infecções pulmonares, quase afogamento, trauma pulmonar.
  • Lesões Indiretas (SARA Secundária): Sepse, choque, queimaduras, hipertransfusão, pancreatite.

Fisiopatologia e Fases

  1. Fase Exsudativa (1-3 dias): Congestão capilar, edema alveolar e colapso.
  2. Fase Proliferativa (3-7 dias): Proliferação fibroblástica e rigidez pulmonar.
  3. Fase Fibrótica (após 1 semana): Remodelação, fibrose e hipertensão pulmonar.

Tratamento e Condutas

Não há tratamento específico; foca-se no controle da causa base e suporte ventilatório.

  • Medicamentos: Vasodilatadores inalatórios (Óxido Nítrico) e aminas simpaticomiméticas.
  • Fisioterapia: Reduzir resistência, melhorar complacência e prevenir complicações.
  • Aspiração Fechada: Permite sucção sem despressurizar a via aérea, mantendo PEEP e FiO2.
  • Decúbito Prono: Melhora a relação V/Q ao redistribuir as forças gravitacionais e reexpandir áreas dorsais.

Prognóstico

A mortalidade excede 40%, associada à sepse e falência de múltiplos órgãos. Fatores positivos incluem idade < 40 anos e complacência > 50. Fatores negativos incluem idade > 65 anos e etiologia séptica.

Conclusão

A SDRA é uma doença grave com alta mortalidade. O conhecimento da patogênese e a aplicação de estratégias ventilatórias adequadas são cruciais para a sobrevida do paciente.

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