Violência Doméstica: Crítica à Perspetiva Unilateral de Género

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Análise Crítica: A Perspetiva Unilateral de Género

Uma forma eficaz de realizar esta crítica é utilizando como referência o livro de Paula Nicolson, “Domestic Violence and Psychology”. Este livro está excessivamente centrado numa perspetiva unilateral do abuso doméstico, focando-se na violência clássica onde o homem abusa da mulher.

A autora foca-se somente na violência unilateral, ou seja, na violência de género, refletindo uma questão inerente ao próprio conceito de género, sabendo que género são fundamentalmente papéis sociais. A violência de género é vista como um papel social em que o homem assume o papel de abusador e dominador, e a mulher assume o papel de abusada e dominada. Na verdade, estas características correspondem ao contexto social e cultural, pois não existe psicologia fora do contexto social. O discurso, que nem sempre corresponde à verdade social, refere o modo como uma realidade é apresentada.

A Fluidez dos Papéis de Género e o Contexto Social

O género transforma-se conforme a sociedade se transforma, e as transformações de género, por sua vez, alteram a sociedade. Uma vez que a violência de género se manifesta em relações de género, e relações de género são necessariamente papéis que se assumem, isto implica que perspetivas demasiado unilaterais do abuso doméstico são limitadas. Todo o papel de género é um papel simbólico que transporta significados.

O poder de género manifesta-se em papéis, e por isso, homens e mulheres podem trocar de papéis. A mudança de papéis nas relações de género pode ser observada quando as mulheres assumem inteiramente a lógica do poder, seja ele percebido como feminino ou masculino. O problema está na persistência de pensar que o homem é o polo dominante e a mulher é o polo dominado, uma visão que parece vir do passado.

A Dinâmica da Relação Abusiva e a Responsabilidade Mútua

Em larga medida, a mulher é considerada responsável pela sua própria tragédia, pois fixa-se em relações abusivas das quais não precisa fazer parte. As mulheres em relações abusivas são frequentemente motivadas pela frustração do homem que deseja ser um pequeno ditador. Ambos os parceiros demonstram uma relação mal resolvida com o poder masculino: ele só se sente homem por causa dela, e ela não é capaz de o encontrar senão através da violência. Eles trocam os papéis no campo do sadismo (prazer em fazer sofrer) e do masoquismo (prazer em sofrer).

Estrutura do Livro: As Três Dimensões da Violência

A autora do livro organiza a sua análise em três dimensões principais (três capítulos iniciais):

  1. Dimensão Social e Cultural: Define a violência como abuso doméstico, explicando as práticas abusivas no contexto de pessoas que vivem ou são obrigadas a viver juntas.
  2. Dimensão Narrativa e Discursiva: Explora como as mulheres procuram construir um discurso benevolente da sua própria história de violência. Muitas recorrem a explicações discursivas e justificações para ainda investirem na relação, acreditando que devem consertá-la em vez de terminá-la. Outra narrativa comum é a preocupação pelos filhos. A dimensão discursiva é um traço psicológico da sua história, uma narrativa que as pessoas criam como sendo a sua verdadeira história, havendo tendência para romantizá-las.
  3. Abordagem Psicológica (Domínio Intrapsíquico): Trata do nível emocional e subjetivo da violência. O aspeto mais importante é abordado no Capítulo Sete, onde ocorre a transmissão intrageracional da violência, ou seja, as filhas tendem a repetir a violência que testemunham em casa.

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