Adam Smith: A Problemática da Riqueza e da Pobreza
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A Problemática dos Ricos e dos Pobres
Uma das principais problemáticas é um tema sempre presente, ainda que tratado de forma muito diferente. No século XVIII, o que consideramos hoje pobreza não tem nada a ver. Adam Smith muitas vezes associa a pobreza a situações nas quais pais matam os filhos de forma violenta — não existe registo, nos dois livros, de algo diferente. Não é apenas a morte, mas a morte de forma violenta; situação na qual os pais, não podendo alimentar os filhos, os matam de forma violenta.
O pobre, na realidade, sente-se muito bem e satisfeito e, ao mesmo tempo, está na pior situação possível (de tal forma que mata os filhos de forma violenta). Os pequenos salários do trabalhador iriam conseguir suprir todas as suas necessidades (como Rousseau refere do homem no estado natural).
Observação: Existe um problema no que diz respeito à observação. O rico é observado e o pobre não é — mesmo tendo as suas necessidades satisfeitas, não é observado e, para Adam Smith, não existe nada pior do que não ser observado. Comparado com o desdém da humanidade, todos os outros males são facilmente suportáveis; sermos apontados como mau exemplo, comparado com o desprezo da humanidade, a morte não é nada, não é o nosso principal medo, ou a miséria em sentido material — não há nada pior para a humanidade do que não ser observado, observável, não merecer observação. Temos mais medo do que se pensa; na verdade, tentamos evitar a todo o custo sermos ignorados.
É mais fácil ser observado quando se é rico; quem está na situação de não ser observado é o pobre. Quando interagimos na sociedade, procuramos mostrar a riqueza que temos e esconder a pobreza para podermos continuar a ser observados. O nosso lugar na sociedade não é classe, mas estatuto, hierarquia, posição. Os ricos estão bem e felizes porque não são desprezados, são observados; os pobres são desprezados — há uma tendência de esconder a pobreza e expor a riqueza. Esta é uma questão fundamental na sociedade comercial do século XVIII: o lado impressionista e a comercialização.
Não há nada pior do que sermos levados à exposição diante dos olhos do público numa situação de humilhação; Adam Smith está preocupado com a interação. Se a questão for as necessidades da natureza, os pobres têm as suas necessidades satisfeitas com o seu salário; a satisfação em termos materiais é fácil de obter. Rousseau aumentava a dificuldade dessa satisfação com a desigualdade; Adam Smith diz que o problema é a observação: sentem-se mal por não serem alvo da admiração dos outros. O que interessa é ter atenção, a vaidade (não queremos apenas estar bem — é a vaidade que nos move), vaidade essa fundada na aprovação dos outros.
A satisfação material é relativamente fácil de obter — os ricos estão numa situação em que, mais facilmente, conseguem ser observados pelo mundo. Ter um palácio impressiona mais do que uma cabana, mas não quer dizer que se durma melhor num palácio — todos sabem isto, todos conhecem. Quando um rico morre, as pessoas sentem-se pior do que quando um pobre morre; sentimos pena do rico, pois tinha mais potencial de gozo — a simpatia é maior, no sentido de Adam Smith. Se a riqueza serve para nos tornarmos atrativos aos olhos dos outros, não existe grande propósito em que o grande proprietário fique a olhar para o seu grande terreno — a riqueza não é tão importante em si. Queremos o trabalho para chegar ao que poderíamos ter desde o princípio.
Riqueza e grandeza são bugigangas de utilidade fútil e frívola que não estão adaptadas para que se obtenham tranquilidade e prazer; "mere trinkets of frivolous utility" — existe um lado dos trinkets que nos ajudam, dão-nos alguma utilidade como uma tesoura, mas uma vida a trabalhar para obtê-los, não.
Se tivermos de escolher entre um corta-unhas e um palácio, em sociedade escolhemos o palácio; numa ilha deserta escolheríamos o corta-unhas — a utilidade é igual, mas em sociedade teríamos os outros a observar, sendo esta observação que nos leva a ter preferências. Escolhemos porque os outros querem. No fim da vida, essa riqueza não lhes serve de nada; o prazer que podíamos ter tido quando éramos jovens, deixamos escapar — a ambição é uma maldição. Poder e riqueza são apenas... Quando atingimos a riqueza, somos infelizes; quem tem propriedade é infeliz, pois isso requer atenção meticulosa e diária; tudo pode ser desfeito em pedaços.
Porque acumular se isso só nos desgasta e nos torna ansiosos? Deixam-nos à mercê da ansiedade de perdê-las, nunca usufruímos delas. A riqueza sujeita-nos a mais ansiedade, medo, doenças e perigo do que quando éramos pobres — a riqueza deixa-nos à beira da morte. Estas bugigangas deixam-nos mais expostos — com mais medo, ansiosos e doentes. Para satisfazer a nossa vaidade, estamos dispostos a abdicar de tudo. É esta ansiedade em querermos mais e melhor, em melhorar a nossa situação, que mantém em funcionamento as artes e a natureza — se não quiséssemos melhorar, tudo parava, tornar-nos-íamos apáticos.
Não é mau que queiramos melhorar a nossa condição; não é assim tão mau que queiramos a atenção dos outros, pois é esta necessidade da atenção e aprovação dos outros que nos leva a comportar de certa maneira, que nos leva a pormo-nos no lugar dos outros e sentir o que estão a sentir.