Análise de Cantigas: Amor, Escárnio e Maldizer
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"Proençaes soem mui bem trobar"
Caracterização temática
O tema desta cantiga é a coita de amor “sem par”, ou seja, inigualável, e a morte por amor — “pois m’á-de matar”.
O trovador compara o seu amor com o dos provençais. Embora lhes reconheça a capacidade de trovar (“Proençaes soem mui bem trobar” / “e dizem eles que é com amor”), considera que os sentimentos que exprimem resultam de um artificialismo, de um fingimento, pois só trovam na primavera (“no tempo da flor”; “quand’ a frol sazon á, e non ante”) e fora desse tempo não (“e, tanto que se for aquel tempo, logu’ en trobar razon non an”).
Logo, o trovador critica os poetas provençais, mas faz mais do que isso: distancia-se deles, uma vez que “os que trobam no tempo da flor / e não eu por mim em outro, sei eu bem que não / na tão grande coita no seu coração / qual senhor vejo levar”. E essa diferença vai sendo acentuada: na 2ª copla, já se fala em “coita qual ei sem par” e na 3ª na morte por amor (“non an, non vivem em qual perdição / hoje eu vivo que pois m’á-de matar”).
O sofrimento do poeta é verdadeiro, em oposição ao convencionalismo provençal. Há, assim, toda uma gradação e uma reiteração de argumentos em favor da poesia do sujeito poético. Há que salientar a ironia que o trovador utiliza na forma verbal «dizem», manifestando, assim, a sua desconfiança relativamente aos «provençais» que não amam como ele, amor esse que «m’á-de matar».
A sua estrutura formal é uma cantiga de mestria constituída por três estrofes de seis versos (sextilhas) predominantemente decassílabos. Quanto à rima, esta apresenta-se emparelhada em «amor» e «frol», e interpolada em «trobar» e «levar», de acordo com o seguinte esquema rimático: abbcca, que se repete ao longo das três estrofes. Em relação à morfologia, a rima é predominantemente pobre, como em «trobar» e «levar». Esta cantiga não tem refrão (cantiga de mestria). Esta cantiga de amor, ao contrário das outras, faz uma crítica ao «amor cortês» pela sua artificialidade, contrapondo-a à sinceridade do trovador que compõe a cantiga que sente um amor verdadeiro.
"Ai dona fea, foste-vos queixar"
Caracterização temática
A composição apresentada enquadra-se nas chamadas cantigas de escárnio, já que se critica, de forma indireta (o nome nunca é referido), a atitude e o comportamento de uma dona (aludindo-se, assim, à senhor das cantigas de amor) que quer ser louvada, apesar de não possuir atributos para tal, pois é “fea, velha e sandia”.
O trovador decide então «loar» esta «dona» como «fea, velha e sandia», verso que se repete no final de todas as estrofes (refrão), adquirindo um ritmo rápido, conferindo-lhe uma certa mordacidade e que reforça a crítica feita pelo sujeito de enunciação. Estas três características negativas atribuídas à «dona» possuem uma grande importância, na medida em que o número três é o símbolo da perfeição, da totalidade, sendo a «dona» o exemplo de perfeição nestas três categorias: «fea, velha e sandia».
Para além da crítica à «dona fea», são também ridicularizadas as próprias cantigas de amor, pois o trovador afirma que fará «já um bom cantar» «em que vos louvarei todavia», desvirtuando o sentimento que poderia existir nesses cantares.
No que diz respeito aos artifícios poéticos, para além do paralelismo semântico de que são constituídas as três estrofes que compõem a cantiga, existe uma repetição do mesmo verbo variando os tempos, o verbo «loar» («louv’en»; «loar»; «louvarei»; «louvação»; «louvei»), o que reforça o objetivo do trovador: louvar a «dona fea».
A sua estrutura formal é uma cantiga de refrão, constituída, como já foi referido, por três estrofes de cinco versos (quintilhas) predominantemente decassilábicos («Ai/ do/na/ fe/a/ fos/tes/vos/ quei/xar/») e refrão monóstico (estrofe de 1 verso) octossilábico («do/na/ fe/a/ ve/lha e/ san/di/a»). Quanto à rima, esta apresenta-se emparelhada em «queixar», «cantar» e «cantar» e cruzada em «via» e «sandia», de acordo com o seguinte esquema rimático: aaabab, que se repete ao longo das três estrofes. Em relação às classes de palavras, a rima é predominantemente pobre, como em «coração» e «razão».
"Foi um dia Lopo jograr"
Trata-se de uma poesia satírica, mais especificamente de maldizer, visto que o poeta explicita claramente de quem ele fala. Lopo era jogral, certamente, visto estar escrito “foi um dia Lopo jograr”, e este tal Lopo foi jograr na casa de um fidalgo em troca de dinheiro que na poesia é tratado por “dom”. Inferimos, pois, que o tal fidalgo não deu a Lopo o pagamento correto, visto que o poeta diz: “escasso foi o infanção”, onde escasso significa avaro; ao mesmo tempo, também se faz aqui uma sátira através do recurso à ironia.
O sujeito poético critica de forma direta o jogral e o seu cantar, que é tão sem jeito que, na opinião do sujeito poético, merecia mais do que "3 couces na garganta".
Marcas da cantiga de maldizer
- Voz masculina que ridiculariza uma figura concreta — o Jogral Lopo e o seu cantar.
- Uso de termos populares para criar um efeito cómico, por ex.: "couces".