Análise da Obra Felizmente Há Luar! de Luís de Sttau Monteiro

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Primeira História

A primeira história leva-nos ao tempo da construção do Convento de Mafra, cuja edificação foi ordenada por D. João V e oferecida a Deus, para que este lhe desse um herdeiro, uma vez que o rei era casado há dois anos com D. Maria e, até então, não tinham tido filhos. Saramago critica a opressão que os nobres e o clero exerciam sobre o povo, uma vez que esta grandiosa construção custou muitos sacrifícios e originou a morte de muitos populares.

Segunda História

A segunda história é o romance entre Blimunda e Baltazar, pessoas pobres e humildes. Blimunda tem o dom de ver por dentro das pessoas, mas, para isso, precisa de estar em jejum. Ambos são amigos do padre Lourenço, um homem perseguido pela Inquisição, que deseja voar e desenhou uma máquina, a passarola. Pede a ajuda de Baltasar para a construir e este, após algumas hesitações, aceita. Com a ajuda da amada, mudam-se para a quinta do Duque de Aveiro, em S. Sebastião da Pedreira, para iniciarem a obra. Entretanto, com a partida do padre para a Holanda, o casal parte para Mafra, terra de Baltasar. Estiveram três anos sem se ver, até que Baltasar recomeça a construção da máquina. Num desses dias, consegue voar e nunca mais aparece. Blimunda procura-o durante nove anos, até que, num auto-de-fé, encontra-o condenado à fogueira. Até esse ponto, Blimunda nunca tinha visto Baltasar por dentro, pois, mal se levantava, comia sempre um pouco de pão para não estar em jejum. No entanto, instantes antes de ele morrer, ela olhou-o e recolheu a sua vontade, porque ele lhe pertencia.


Personagens

  • GOMES FREIRE: Protagonista. Embora nunca apareça, é evocado através da esperança do povo, das perseguições dos governadores e da revolta da sua mulher e amigos. É acusado de ser o grão-mestre da maçonaria, estrangeirado e soldado brilhante, idolatrado pelo povo. Acredita na justiça e luta pela liberdade. É o defensor do povo oprimido; o herói (que acaba como anti-herói ou herói falhado); símbolo de esperança.
  • D. MIGUEL FORJAZ: Primo de Gomes Freire. Assustado com as transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio, calculista, prepotente, autoritário e servil.
  • PRINCIPAL SOUSA: Defende o obscurantismo, é deformado pelo fanatismo religioso, desonesto, corrompido pelo poder eclesiástico e odeia os franceses.
  • BERESFORD: Demonstra cinismo em relação aos portugueses e a Portugal. É oportunista, autoritário, mas bom militar. Preocupa-se apenas com a sua carreira e dinheiro. É franco e honesto ao dizer o que quer, ao contrário dos governadores portugueses. É poderoso, interesseiro, calculista, trocista e sarcástico.
  • VICENTE: Sarcástico, demagogo, falso humanista, movido pelo interesse material, hipócrita, despreza a sua origem. É um traidor e delator que ascende socialmente traindo os seus iguais.
  • MANUEL: Denuncia a opressão a que o povo está sujeito. É o mais consciente dos populares e é corajoso.
  • MATILDE DE MELO: Corajosa, exprime romanticamente o seu amor, reage violentamente perante o ódio e as injustiças. Representa a denúncia da hipocrisia do mundo e dos interesses instalados. É a mulher dedicada de Gomes Freire, com discursos marcados pelo amor e pelo ódio.
  • SOUSA FALCÃO: Inseparável amigo de Gomes Freire. Sofre junto de Matilde e assume as mesmas ideias, mas não teve a coragem do general. Representa a amizade e a fidelidade.
  • FREI DIOGO: Homem sério, representante do clero e honesto; é o contraposto do Principal Sousa.
  • DELATORES: Mesquinhos, oportunistas e hipócritas.
  • GOVERNADORES: Representam o poder político e são o cérebro da conjura contra Gomes Freire. Não querem perder o seu estatuto; são fracos, mesquinhos e vis.
  • ANDRADE CORVO E MORAIS SARMENTO: Delatores por excelência, que não hesitam em trair ideais para servir propósitos patrióticos.

Didascálias

Nesta obra, as didascálias assumem especial relevância, pois constituem a explicitação ideológica da peça, servindo como explicação e denúncia.

Simbologia

  • Saia verde: Associada à felicidade e à esperança de justiça.
  • A luz: Metáfora do conhecimento, valores de futuro (igualdade, fraternidade e liberdade) e progresso, vencendo a escuridão da opressão.
  • Noite: Mal, castigo, morte e obscurantismo.
  • Lua: Representa dependência, periodicidade e renovação.
  • Luar: Para os opressores, aviso; para os oprimidos, luz para lutar pela liberdade.
  • Fogueira: Destruição, mas também esperança e liberdade futura.
  • Moeda de cinco reis: Símbolo do desrespeito dos poderosos pelo próximo.
  • Tambores: Símbolo da repressão.
  • Sinos: Envolvimento perverso da Igreja nos assuntos do Estado.
  • Cadeiras: Opulência, poder tirânico e absolutista.

Estrutura

Externa: Peça em dois atos. Não apresenta divisão em cenas, sendo estas sugeridas pela entrada/saída de personagens e pela luz.
Interna: Não respeita a forma clássica nem a regra das três unidades, embora o esquema clássico (exposição, conflito, desenlace) esteja implícito.

Título

O título Felizmente Há Luar! aparece duas vezes: na fala de D. Miguel (efeito dissuasor) e na fala final de Matilde (coragem e estímulo à revolta), conferindo circularidade à obra.

Resumo dos Atos

Ato I: O povo discute a miséria e a figura de Gomes Freire. Vicente, um delator, é recrutado pelos governadores para vigiar o general. Os governadores (D. Miguel, Principal Sousa e Beresford) conspiram para encontrar um culpado pela insurreição, escolhendo Gomes Freire como vítima.
Ato II: Matilde sofre pela prisão do marido. Sousa Falcão confirma que o general está encarcerado sem julgamento. Matilde tenta confrontar o poder, mas é em vão. A execução é marcada para a noite. O ato termina com Matilde a incitar o povo à resistência: "Limpem os olhos no clarão daquela fogueira (...) felizmente há luar!"

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