Análise de Os Maias: Personagens, Educação e Sociedade

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As personagens n'Os Maias representam grupos, classes sociais ou mentalidades. Estas mostram aos leitores o estado de corrupção, provincialismo e parasitismo da sociedade portuguesa, bem como os seus costumes e vícios.

Encontramos episódios que funcionam como caracterização da sociedade portuguesa da época (século XIX), assumem a forma de crítica e de sátira social e revelam os defeitos sociais que impedem o progresso e a renovação das mentalidades.

O Ramalhete: Espaço e Simbolismo

No outono de 1875, os Maias vieram habitar em Lisboa uma casa chamada "o Ramalhete". O Ramalhete é caracterizado como:

Antes da Reforma (1858/1870)

"Sombrio casarão de paredes severas com disposição apalaçada"; "as paredes cobertas de frescos onde já desmaiavam as faces dos cupidinhos e os tetos apainelados"; renque de estreitas varandas; pobre quintal abandonado às ervas bravas, com um cipreste, um cedro, uma cascatazinha seca, um tanque entulhado e uma estátua de mármore emagrecendo a um canto na lenta humidade das ramagens silvestres.

Depois da Reforma (1875/1877)

"Girassóis perfilados ao pé dos degraus do terraço"; cipreste e cedro envelhecendo juntos; Vénus Citereia no seu tom claro de estátua de parque; a cascatazinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus três pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucólico; quintal soalheiro com pranto de náiade doméstica.

Modelos Educacionais e a Teoria Naturalista

A educação apresenta dois modelos distintos, obedecendo à teoria naturalista. Os naturalistas defendem que todos os comportamentos do indivíduo são condicionados por três fatores: a hereditariedade, a educação e o meio envolvente.

Educação de Carlos da Maia (À Inglesa) vs. Eusebiozinho (Tradicional)

  • Carlos da Maia: Pedagogo (Brown); vida ao ar livre; contacto com a natureza; exercício físico; vitalidade física; aprendizagem de línguas vivas (Inglês); desprezo pelo conhecimento exclusivamente teórico; submissão da vontade ao dever; rigor, método e ordem (equilíbrio clássico).
  • Eusebiozinho: Pedagogo (Custódio); superproteção feminina; debilidade física; interesse por alfarrábios; aprendizagem de línguas mortas (Latim); recurso à memorização; deformação da vontade própria; chantagem afetiva.

A educação de Carlos da Maia em Santa Olávia incluía ginástica, línguas vivas, ciências experimentais, convivência com as crianças da aldeia, rigor nos princípios, tolerância nas ideias e uma educação religiosa agnóstica.

Caracterização das Personagens

  • Carlos da Maia: Filho de Pedro da Maia e Maria Monforte. Educado à inglesa por Brown em Santa Olávia. Apesar da educação, torna-se "fraco" devido ao meio. Apaixona-se por Maria Eduarda, mantendo a relação incestuosa, o que simboliza a incapacidade de regeneração do país. É corajoso, frontal e amigo do seu amigo.
  • Maria Eduarda: A sua dignidade, humildade, sensatez, equilíbrio e santidade são fundamentais. Salienta-se a sua faceta humanitária e compaixão pelos desfavorecidos. Simboliza a desgraça e a fatalidade.
  • Afonso da Maia: Símbolo do liberalismo. Psicológico: duro, clássico, paciente, caridoso, nobre, espírito são, rígido, austero, risonho e individualista. Morre de apoplexia no jardim do Ramalhete.
  • Pedro da Maia: Protótipo de herói romântico. Nervoso, sentimentos exagerados, instável. Educação tradicional portuguesa. Sente um amor doentio pela mãe, entrando em loucura após a morte desta.
  • Maria Monforte: Protótipo da cortesã. Fútil, fria, caprichosa, cruel e interesseira. Conhecida como "a negreira". Foge com o italiano Tancredo.
  • Craft: Representa a formação e mentalidade britânicas.
  • Guimarães: Personificação do destino.

Episódios e Recursos Estilísticos

O jantar no Hotel Central marca o primeiro contacto social de Carlos com a sociedade lisboeta, revelando a mentalidade retrógrada, a decadência das finanças e a crítica literária da época.

Recursos Expressivos: Metáfora, comparação, personificação, sinestesia, ironia, hipálage e diminutivos (tom depreciativo e caricatural). A presença de estrangeirismos (francesismos/anglicismos) critica a sociedade de aparências que imita o estrangeiro e desvaloriza o que é português.

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