Análise de Memorial do Convento e o Realismo em Portugal

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Análise de Memorial do Convento

1. Contributos para a Passarola

A construção e o voo inaugural da passarola resultam da conjugação das capacidades e dos esforços das três personagens:

  • Padre Bartolomeu de Gusmão: contribui com o saber científico e a inteligência («viajei à Holanda», linha 19; «estou subindo ao céu por obra do meu génio», linhas 22-23).
  • Baltasar: contribui com a sua força e o seu trabalho manual («Puxa, Baltasar», linha 5; «por obra da mão direita de Baltasar», linha 24).
  • Blimunda: contribui com os seus poderes sobrenaturais, que permitem ver o que escapa ao olhar humano («por obra também dos olhos de Blimunda», linha 23). Num momento de hesitação, é ela quem leva Baltasar a agir.

2. Reações ao Voo

Num primeiro momento, Baltasar e Blimunda são apanhados de surpresa («tinham caído no chão de tábuas da máquina», linhas 14-15; «Não tinham medo, estavam apenas assustados com a sua própria coragem», linha 26). Depois, deslumbrados, as reações individualizam-se:

  • Baltasar: dá largas à sua alegria, chorando como uma criança («Conseguimos», linha 31).
  • Blimunda: mantém a calma e o discernimento, preocupando-se com a direção do voo (linhas 37-38).

3. A Euforia do Padre

O padre manifesta euforia por se sentir realizado. Esta é enfatizada pela evocação de elementos biográficos: a viagem à Holanda (saber), o apoio de D. João V, a troça de Tomás Pinto Brandão e a perseguição da Inquisição.

4. O Regresso de Baltasar

Ao regressar a casa, Baltasar caracteriza-se por ser: pobre (de mãos vazias), mutilado (perdeu a mão esquerda na guerra) e acompanhado de Blimunda.

5. Reações à Mutilação

  • Marta Maria: manifesta espanto e dor, chorando e questionando o filho.
  • João Francisco: encara a mutilação com resignação, compreendendo a condição de soldado.

6. Aproximação entre Marta Maria e Blimunda

A relação evolui: Marta Maria inquieta-se ao ver o vulto, Baltasar apresenta Blimunda e, finalmente, esta é integrada nas tarefas domésticas.

7. O Silêncio de Baltasar

O narrador critica a atitude desatenta de Baltasar, que, estando em Lisboa há dois anos, apenas dera notícias há duas semanas, prolongando o sofrimento dos pais.

8. Contexto das Estátuas

No interior, a conversa esmorece e os familiares retiram-se. No exterior, destacam-se as condições atmosféricas (claridade e frio) e o nascimento da lua, com efeitos pictóricos de luz e cor.

9. Características de Blimunda

Destacam-se: o amor por Baltasar, a prudência, a clarividência (consciência dos perigos da máquina) e o fatalismo.

10. Estado das Obras

Após treze anos, o palácio tem apenas o piso térreo concluído, a igreja não está acabada e, no convento, apenas quarenta das trezentas celas estão prontas.

11. Narrador e o Paralelismo Formiga/Homem

O narrador assume uma atitude crítica face ao atraso e à exploração dos trabalhadores. O paralelismo reforça a desproporção entre a dimensão da obra e a pequenez humana.

12. Scarlatti e o Segredo

Antes de ser iniciado, Scarlatti mostra-se indiferente, calmo e cúmplice. A sua resposta sobre o segredo sugere que este pode ser insondável ou não traduzível por palavras.

13. Percepções da Passarola

Scarlatti, racional, vê a máquina como um instrumento musical. Baltasar, prático, vê-a como fruto de trabalho esforçado e acredita na possibilidade do voo.

14. Comentários do Narrador

O narrador critica Scarlatti por opinar sobre o que desconhece e elogia a fidelidade e o amor entre Baltasar e Blimunda.


Realismo em Portugal

O Realismo em Portugal teve o seu início em 1865, num período de tensões entre liberais e a velha monarquia. Foi um movimento de renovação que visava trazer ao país as ideias filosóficas e científicas em voga na Europa.

A Questão Coimbrã

O marco inicial foi a Questão Coimbrã, uma polémica literária entre a Geração de 70 (Oliveira Martins, Teófilo Braga, Antero de Quental) e o tradicionalista Castilho. Antero de Quental respondeu à censura de Castilho, gerando um debate entre o conservadorismo e o progresso.

Em 1870, o grupo organizou as Conferências Democráticas do Casino Lisboense, que, apesar da censura governamental, consolidaram os ideais realistas na poesia e na prosa.

Características do Realismo

  • Foco em questões sociais e na realidade sem distorções ou idealizações.
  • Descrição de pessoas comuns, com problemas e limitações.
  • Foco na vida quotidiana e na denúncia de falsos valores, expondo a origem e as consequências da moral da época.

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