Análise de Mensagem: Parte I – Brasão de Fernando Pessoa
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1ª Parte – Brasão
I – Os Campos
O dos Castelos
Apresenta Portugal como o “rosto” da Europa. O velho continente é descrito como uma imagem feminina:
- Uma mulher deitada “De Oriente a Ocidente”.
- Os seus cabelos fazem lembrar os olhos gregos.
- Os braços são identificados com a Itália e com a Inglaterra, sendo que este último braço apoia o rosto:
- O rosto é Portugal, que fita, “com um olhar esfíngico e fatal / O Ocidente, futuro do passado”.
- Este olhar esfíngico, misterioso e enigmático, desvenda o futuro.
A simbologia do poema é uma Europa decadente que vive glórias do passado, onde apenas Portugal, desempenhando um papel messiânico, poderá fazer renascer o velho continente.
O das Quinas
O poema inicia-se com um aparente paradoxo – vender/dar – que expressa o sacrifício dos mártires portugueses como forma de pagamento aos Deuses pela dádiva da existência de Portugal. Assim, as ideias fulcrais do poema são:
- A grandeza só se atinge pelo sofrimento e sacrifício.
- O homem só se excede através do sacrifício.
- A oposição entre as filosofias epicurista (materialista) e estoica (austera) presentes nos versos “Baste a quem baste o que lhe basta / O bastante de lhe bastar!” e “Compra-se a glória com desgraça”.
- A enfermidade/fraqueza da vida – “A vida é breve”.
- A purificação que faz o homem ascender a um plano superior, ou seja, a realizar-se plenamente como Homem-Deus através do sacrifício, tal como Cristo.
A ideia central do poema é a de que só o sacrifício leva à glória; esta ideia está sintetizada no título, se fizermos corresponder as cinco quinas às cinco chagas de Cristo.
II – Os Castelos
Ulisses
O poema organiza-se em torno das seguintes ideias:
- O paradoxo inicial (tese) “o mito é o nada que é tudo” é demonstrado ao longo do poema.
- O mito – a lenda – é o nada (não existe), mas, ao mesmo tempo, é tudo porque explica o real, fecundando-o: “Assim a lenda se escorre / A entrar na realidade, / E fecundá-la decorre”.
- A importância da referência a Ulisses:
- É um herói mítico – “Este, que aqui aportou, / Foi por não ser existindo”.
- A sua existência lendária não invalida a sua força criadora da identidade nacional – “Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo / E nos criou”.
- A sua ligação ao mar explica o destino marítimo dos portugueses.
Ulisses, que é nada porque é um mito, explica o destino marítimo dos portugueses, que é tudo. É irrelevante que todos os heróis fundadores tenham ou não existência real; o que importa é que todos tenham funcionado com a força do mito, que, não existindo, é tudo.
Viriato
O sujeito poético apresenta Viriato como a “matéria” que dará origem a Portugal, completando assim a função de Ulisses, que era apenas a forma. Assim, Viriato aparece como:
- Instinto de raça, porque constitui o embrião, a Lusitânia, que se transformará em Portugal.
- A semente de Portugal – assim como a semente morre para dar origem à planta, a Lusitânia morre para dar origem a Portugal.
- “A fria luz” que é prenúncio/sinal de “madrugada” – o Portugal que há de ser.
- Símbolo das raízes ibéricas de Portugal.
O Conde D. Henrique
O verso inicial – “Todo começo é involuntário” – remete para os traços característicos do herói natural, uma vez que:
- O Conde D. Henrique é escolhido por Deus para iniciar o processo de formação de Portugal.
- A sua disponibilidade é total.
- A consciência da sua missão não é plena, daí a interrogação – “Que farei eu com esta espada?”.
- A aceitação incondicional do seu papel – “Ergueste-a, e fez-se”.
D. Tereja
O poema é uma espécie de prece dirigida à “mãe de reis e avó de impérios”, D. Tereja, que surge:
- Associada ao papel de mãe (tal como D. Filipa de Lencastre).
- Evocada como Magna Mater de Portugal – “Teu seio augusto amamentou (…) / O que, imprevisto, Deus fadou”.
Mais uma vez, o sujeito poético sublinha a relação Homem/Deus ao apresentar D. Tereja como o veículo da Sua vontade, medianeira/intermediária entre Deus e o Homem – “A quem fadou o instinto teu!”.
D. Afonso Henriques
O poema inicia-se com uma invocação à figura de D. Afonso Henriques como pai e cavaleiro – pai porque, enquanto fundador da nação, é pai dos portugueses; cavaleiro porque, como todos os cavaleiros, desempenhou o papel de se dedicar, de corpo e alma, a uma demanda/justiça de caráter político e religioso.
D. Afonso Henriques aparece então como:
- O modelo de guerreiro, com força “inteira”.
- Exemplo de luta, intérprete de uma missão religiosa.
O poema encerra com a utilização de um quiasmo – “A bênção como espada, / a espada como bênção!” – que sintetiza a união entre a fé e a ação.
D. Dinis
Este poema invoca a figura do nosso rei trovador – “Na noite escreve um seu Cantar de Amigo” – que mandou plantar o pinhal de Leiria que, 200 anos mais tarde, daria a madeira para a construção das naus das descobertas – “O plantador de naus a haver”.
D. Dinis surge como:
- Um poeta – “Na noite escreve um seu cantar de amigo”.
- O iniciador da literatura portuguesa – “Arroio, esse cantar, jovem e puro”.
- Um predestinado (alguém que foi escolhido por Deus para cumprir uma missão) – plantar o pinhal de Leiria que levou às descobertas.
- Um profeta que sabe, porque poeta, ouvir, pressentir e perceber o que os outros não conseguem.
O poema encerra com uma espécie de profecia – “E a fala dos pinhais, (…) / É o som pressente desse mar futuro, / É a voz da terra ansiando pelo mar.”
D. João o Primeiro
Este poema é mais um exemplo de que o homem é o simples instrumento na mão de Deus. Assim, D. João aparece como:
- Origem inconsciente do Império – “Sem o saber”.
- Exemplo da natureza perecível/mortal do homem – “O mais é carne, cujo pó / A terra espreita”.
- Símbolo da espiritualidade da nação – “Mestre, sem o saber, do Templo / Que Portugal foi feito ser”.
D. Filipa de Lencastre
O poema inicia-se com uma pergunta dirigida à figura de D. Filipa, responsável pela conceção de génios – “Que só génios concebia?”.
A segunda estrofe constitui uma invocação, em que o sujeito poético apela a D. Filipa pela sua proteção para Portugal. É de notar a designação da rainha como “Princesa do Santo Gral”, que aponta para o caráter messiânico da sua figura.