Análise: Mensagem, Os Lusíadas e Felizmente Há Luar!
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A Estrutura de Mensagem de Fernando Pessoa
Os 44 poemas que constituem a Mensagem encontram-se agrupados em três partes:
- Primeira Parte – Brasão (construtores do Império): Corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos.
- Segunda Parte – Mar Português (o sonho marítimo e a obra das descobertas): Surge a realização e a vida; refere personalidades e acontecimentos dos Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. Mas, porque "tudo vale a pena", a missão foi cumprida.
Comparação entre Os Lusíadas e Mensagem
- Os Lusíadas e a Mensagem cantam, em perspetivas diferentes, a grandeza de Portugal e o sentimento português.
- Nas duas primeiras partes da Mensagem, é possível um diálogo com Os Lusíadas; em O Encoberto, Pessoa situa-se no momento em que o Império Português parece desmoronar-se por completo e assume, então, o cargo de anunciador de um novo ciclo, o Quinto Império, que não precisa de ser material, mas civilizacional.
- Os Lusíadas são uma narrativa épica que faz uma leitura mítica da História de Portugal. Em estilo elevado, canta uma ação heroica passada e analisa os acontecimentos futuros, cuja visão os deuses são capazes de antecipar.
- Fernando Pessoa, no poema épico-lírico, canta, de forma fragmentária e numa atitude introspetiva, o império territorial, mas retrata o Portugal que "falta cumprir-se", que se encontra em declínio e a necessitar de uma nova força anímica.
- Camões propõe o povo português como sujeito da ação heroica.
- Camões procura perpetuar a memória de todos os heróis que construíram o Império Português; Fernando Pessoa descobre a predestinação desses heróis para encontrar um novo heroísmo que exige grandeza de alma e capacidade de sonhar, quando o mesmo Império se mostra moribundo.
- Os nautas, incluindo Vasco da Gama, são símbolo do heroísmo lusíada, do seu espírito de aventura e da capacidade de vivência cosmopolita.
- Em Os Lusíadas, Camões conseguiu fazer a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão; na Mensagem, Pessoa procura a harmonia entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico.
- Fernando Pessoa, na Mensagem, procura anunciar um novo império civilizacional. O "intenso sofrimento patriótico" leva-o a antever um império que se encontra para além do material.
Análise de Felizmente Há Luar!
Estrutura Externa
- A peça tem dois atos. No Ato I, é feita a apresentação da situação, mostrando-se o modo maquiavélico como o poder funciona, não olhando a meios para atingir os seus objetivos. O Ato II conduz o espetador ao campo do anti-poder e da resistência.
- Não apresenta qualquer divisão em cenas. Estas são sugeridas pela entrada e saída de personagens e pela luz.
Estrutura Interna
Não se trata de uma obra que respeite a forma clássica nem obedeça à regra das três unidades (lugar, tempo e ação); no entanto, o esquema clássico está implícito (exposição, conflito, desenlace).
Análise das Personagens
- Gomes Freire de Andrade: Homem instruído, um militar que sempre lutou em prol da honestidade e da justiça.
- D. Miguel Forjaz: Personifica Salazar; é o protótipo do pequeno tirano, autoritário, desumano, inseguro e prepotente.
- Principal Sousa: Para além da hipocrisia e da falta de valores éticos, não hesita em condenar inocentes; tem problemas de consciência.
- Beresford: Poderoso, interesseiro, calculista, sarcástico, autoritário; representa o poder militar.
- Governadores: Representam o poder político e são o cérebro da conjura que acusa Gomes Freire; não querem perder o seu estatuto; são fracos e mesquinhos.
- Andrade Corvo e Morais Sarmento: Querem ganhar dinheiro a todo o custo. Mesquinhos, oportunistas e hipócritas.
- Vicente, o traidor: Demagogo, hipócrita, traidor, desleal e sarcástico. Elemento do povo, tem vergonha do seu nascimento e condição social.
- Delatores: Representam os "bufos" no regime salazarista.
- Sousa Falcão: Inseparável amigo de Gomes Freire, sofre junto de Matilde perante a condenação do general.
- Matilde de Melo: Personagem principal do Ato II, "companheira de todas as horas" de Gomes Freire; é ela que dá voz à injustiça sofrida pelo seu homem.
- Manuel e Rita: Assumem algum protagonismo por abrir os dois atos. Símbolos do povo oprimido, têm consciência da injustiça.
- Povo: Personagens coletivas que representam o analfabetismo e a miséria.