Antropologia, Ética e Política: Platão vs. Aristóteles

Classificado em Filosofia e Ética

Escrito em em português com um tamanho de 5,61 KB

Antropologia: Platão e Aristóteles

Platão defende um dualismo radical: o homem é duas coisas totalmente diferentes, alma e corpo. Entre eles existe uma união meramente acidental, casual, pois o corpo é como uma prisão para a alma e um obstáculo ao conhecimento, sendo muito difícil para a alma viver sem ele. Esta concepção negativa do corpo foi adotada pelo cristianismo e defendida, entre outros, pelos grandes místicos espanhóis Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Em suas obras, eles mostram o desejo de deixar o corpo para se unir com Deus. De acordo com eles, a vida santa é uma má noite em uma pousada ruim.

Em contraste, Aristóteles argumenta que há uma união substancial, pois se um deles faltar, não haveria a substância que é o homem. O corpo é para ele a matéria, e a alma, a substância. Se o organismo morre, a alma deixa de existir. Como vemos, Aristóteles nega a imortalidade da alma individual que Platão defendia.

Dos dois significados que a alma tinha na filosofia grega (como princípio de vida e como princípio de conhecimento), Platão a entendeu principalmente como um princípio de conhecimento, enquanto Aristóteles a considerava principalmente como um princípio de vida, aquilo que faz um ser humano vivo. Aristóteles distingue três tipos de alma:

  • Vegetativa (nutrição, crescimento, etc.)
  • Sensitiva (sensação, movimento, etc.)
  • Intelectiva

O homem possui a alma intelectiva, que engloba em si as funções da alma sensitiva dos animais e a vegetativa das plantas.

A Ética Aristotélica

A ética de Aristóteles se opõe à teoria moral do intelectualismo defendida radicalmente por Sócrates e geralmente admitida por Platão. Segundo Aristóteles, não se é bom por saber o que é bom, mas por hábitos baseados em certos atos que nossa razão considera adequados. Ser virtuoso não depende tanto do conhecimento, mas do conhecimento, do amor e da repetição de atos que se tornam hábitos.

Aristóteles também se opõe à ideia de que existe um bem absoluto e único, pois ele acha que todo tipo de ser possui um bem que lhe é próprio. No caso do homem, esse bem é a autorrealização como ser dotado de razão. Contudo, não podemos defini-la usando uma fórmula matemática igual para todas as pessoas; cada homem, de acordo com sua natureza e circunstâncias, terá de escolher o que melhor lhe convém, agindo com moderação e sabedoria, buscando o meio-termo entre os extremos igualmente viciosos.

Política: Formas de Governo

Para Platão, a forma perfeita de governo é a aristocracia ou governo dos melhores, que para ele são os filósofos mais sábios. O problema é que, como tudo se degenera, a aristocracia frequentemente degenera em timocracia, depois em oligarquia, e eventualmente se impõem a democracia e a tirania. Platão tenta prever mecanismos (como a longa educação dos governantes, o comunismo de bens e pessoas, etc.) para evitar essa degeneração.

Aristóteles não pensa que há apenas uma maneira válida de governo. O importante é que o governo persiga o bem comum, e isso pode ser alcançado através da monarquia, aristocracia ou politeia (república ou governo constitucional), mas não suas formas degeneradas, onde o que se busca é o interesse particular: tirania (de um), oligarquia (de poucos) ou democracia (de muitos).

Conhecimento em Aristóteles

Ao contrário de Platão, para quem o conhecimento é apenas uma recordação da realidade referida pela alma, Aristóteles não admite a existência prévia da alma, pois sua explicação parte dos dados fornecidos pelos sentidos. Aristóteles disse que nada está no entendimento que não tenha passado antes pelos sentidos.

Existem diferentes níveis de conhecimento:

  1. Sensação: É o nível mais baixo, característico dos animais e do homem como animal. Alguns animais também possuem memória (que nasce da lembrança das sensações particulares) e imaginação (extensão da percepção). A recordação voluntária é peculiar apenas ao homem.
  2. Experiência: Nascida da recordação, é a coordenação racional das sensações, servindo como precursor para a ciência e a arte (entendida como capacidade de não apenas entender).

A imaginação desempenha um papel importante no conhecimento humano, pois permite a reprodução mental de objetos em sua ausência, possibilitando o trabalho do entendimento (capacidade de pensar e julgar, nível superior de conhecimento), o que permite a ciência.

Aristóteles distingue dois princípios do funcionamento intelectual da alma:

  • Intelecto ativo (ou agente): responsável pela compreensão.
  • Intelecto passivo (ou paciente): responsável pela apreensão.

O intelecto é imortal e eterno; ele abstrai a forma das coisas a partir das imagens sensíveis e, uma vez recebida, gera os conceitos universais da ciência. Ao aplicar o hilemorfismo ao problema do conhecimento, Aristóteles usa esse intelecto ativo, que é imortal e eterno. Em contraste, o intelecto passivo é corruptível e mortal.

Para Aristóteles, existem duas partes da alma:

  • Racional
  • Irracional

A teoria aristotélica da alma, ao considerar a alma da mesma natureza que o corpo, está em contradição com o pensamento tardio de Platão. Interpreta-se que Aristóteles afirmou que a alma não penetra o corpo, mas que este foi criado no momento em que ela o fez.

Entradas relacionadas: