Áreas Verdes Públicas Urbanas: Conceitos, Usos e Funções
Carlos Roberto Loboda
Bruno Luiz Domingos De Angelis
Resumo
O presente trabalho consiste em uma reflexão sobre os espaços públicos vegetados na organização dos aglomerados urbanos. Serão abordados aspectos históricos dos espaços livres de construção já nas primeiras cidades, como consequência das necessidades experimentadas a cada momento na relação cidade e natureza. Utiliza-se como fundamentação teórica os aspectos conceituais que definem e caracterizam as principais funções das áreas verdes urbanas. As diferentes concepções construídas ao longo dos períodos históricos remontam um perfil desses espaços, representados hoje pelos parques, praças, jardins públicos e arborização de acompanhamento viário. Torna-se necessário fazer um resgate das áreas verdes públicas e suas funções indispensáveis na estruturação da cidade moderna.
Palavras-chave: áreas verdes urbanas; planejamento urbano; espaços públicos.
Introdução
"A cidade não pode ser vista meramente como um mecanismo físico e uma construção artificial. Esta é envolvida nos processos vitais das pessoas que a compõe; é um produto da natureza e particularmente da natureza humana." (Robert Ezra Park, 1973, p. 26).
Apesar de muito da história das áreas verdes urbanas ter se perdido no tempo, é possível traçar um perfil de sua evolução. Partindo do seu caráter mítico-religioso, passando por mitos e lendas, estudando os jardins suspensos da Babilônia e chegando aos jardins modernos, observa-se a importância de cada momento histórico-cultural desses espaços formadores da estrutura urbana.
Retrospectiva Histórica
As ideias atuais do que sejam as áreas verdes urbanas estão profundamente enraizadas na história. A princípio, ocorreu com a arte da jardinocultura, surgida independentemente no Egito e na China.
- Egito: Berço da jardinagem ocidental, focada em sistemas de irrigação para amenizar o calor.
- China: Foco em jardins naturalistas com forte carga espiritual e simbólica.
- Grécia e Roma: Surgimento do conceito de espaço livre público (Ágora e Fórum), além da técnica da topiaria.
- Renascimento: A jardinagem passa a ser produzida sob a ótica da arquitetura e da cenografia (estilos italiano e francês).
- Brasil: O Passeio Público do Rio de Janeiro (1779) é um dos marcos iniciais do paisagismo no país.
O Verde e o Urbano: Relações Cidade e Natureza
A discussão sobre problemas ambientais tornou as áreas verdes ícones de defesa do meio ambiente. Em um cenário de crise estrutural, onde o espaço urbano é tratado como mercadoria, a natureza é frequentemente relegada a segundo plano. A falta de planejamento que considere elementos naturais agrava a qualidade de vida urbana, resultando em problemas como:
- Compactação e impermeabilização do solo;
- Formação de ilhas de calor;
- Redução da biodiversidade;
- Aumento da poluição sonora e atmosférica.
Áreas Verdes: Conceitos e Definições
É fundamental sistematizar os termos técnicos para evitar confusões na gestão urbana:
- Espaço Livre: Conceito abrangente que se contrapõe ao espaço construído.
- Área Verde: Predomínio de vegetação arbórea (praças, parques, jardins).
- Parque Urbano: Área verde com funções ecológicas, estéticas e de lazer, de grande extensão.
- Arborização Urbana: Elementos vegetais de porte arbóreo, incluindo árvores em calçadas.
Funções das Áreas Verdes Públicas
As áreas verdes desempenham papéis cruciais na cidade moderna:
- Ecológica: Purificação do ar, controle térmico, permeabilidade do solo e abrigo à fauna.
- Estética: Integração entre espaços construídos e circulação, quebrando a monotonia do concreto.
- Social: Promoção de lazer, saúde mental e convivência comunitária.
Considerações Finais
Todavia, nas circunstâncias atuais, o planejamento das áreas verdes (públicas)
urbanas parte de uma definição de recursos que é residual. Os reclamos pelos espaços
verdes de ordem pública são amenizados com recursos que sobram de outras atividades,
consideradas como mais prioritárias, e que, geralmente, incluem-se nesse âmbito aquelas
de cunho estratégico, político e econômico. Por isso, os resquícios destinados às áreas
verdes públicas sempre são reduzidos, enquanto aumentam as necessidades reais criadas
pela expansão urbana. Associada às questões acima está a falta de políticas públicas
consistentes no campo urbanístico que poderiam evitar os problemas que ocorrem hoje
nas grandes cidades.
É nesse sentido que embora todas as cidades apresentem áreas verdes
(públicas) onde a população possa desfrutar de momentos de lazer e contato com a
natureza, poucas têm esses espaços de forma organizada, de modo que não passam de
espaços dispersos pela malha urbana.
Outro fator que contribui para aumentar a penúria renitente das áreas verdes
urbanas são as descontinuidades políticas. Sabe-se que um plano de áreas verdes,
implantação de uma praça, arborização de um bairro, são ações que precisam ser pensadas
e executadas a longo prazo. Todo esse processo é prejudicado com a alternância de
grupos políticos na administração, pelo fato de que as políticas, os planos e metas traçados
não vão além do período de gestão, isso ainda quando chegam a ser efetivados.
No âmbito geral, a falta de planejamento é uma constante no desenvolvimento
de nossas cidades, principalmente tratando-se das áreas verdes geralmente delegadas ao
segundo plano, quando não ao abandono. Os resultados são os déficits permanentes e
crescentes dessas áreas de forma contígua ao espaço urbano. É nesse sentido que
gostaríamos de concluir com a análise de Guiducci (1975, p. 47), salientando que devemos:
LOBODA, C. R.; DE ANGELIS, B. L. D.
Ambiência - Revista do Centro de Ciências Agrárias e Ambientais V. 1 No 1 Jan/Jun. 2005
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... construir sim, mas um mundo claro e humano, ser bons construtores. Construir com
todos os instrumentos oferecidos pelo progresso da técnica e da indústria, porém lembrando
que o homem necessita de ar, de sol, de verde, e de um espaço para seus
movimentos.
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