Argumentação, Retórica e Persuasão: Uma Análise Filosófica
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Argumentação e Demonstração
Na argumentação, a conclusão é mais ou menos plausível; as provas apresentadas são suscetíveis de múltiplas interpretações, frequentemente marcadas pela subjetividade de quem argumenta e do contexto em que o faz. Na argumentação, procura-se, acima de tudo, convencer alguém de que uma dada tese é preferível à sua rival. Toda a argumentação implica, deste modo, o envolvimento ou comprometimento de alguém em determinadas teses.
Na demonstração, a conclusão é universal, decorrendo de forma necessária das premissas, e impõe-se desde logo à consciência como verdadeira; as provas são sem margem de erro e não estão contaminadas por fatores subjetivos ou de contexto. A demonstração assume um caráter impessoal. É por isso que podemos dizer que a mesma foi correta ou incorretamente feita, dado só se admitir uma única conclusão.
Retórica Segundo Aristóteles
Aristóteles foi o primeiro filósofo a expor uma teoria da argumentação, nos Tópicos e na Retórica, procurando um meio-caminho entre Platão e os sofistas, encarando a retórica como uma arte que visava descobrir os meios de persuasão possíveis para os vários argumentos. Assim, esta pode ser dividida em:
- Deliberativa: se o auditório tiver que julgar uma ação futura;
- Judicial: se o auditório tiver que julgar uma ação passada;
- Epidíctica: se o auditório não tiver que julgar ações passadas nem futuras.
O seu objetivo é o de obter uma comunicação mais eficaz para o saber que é pressuposto como adquirido. A retórica torna-se numa arte de falar de modo a persuadir e a convencer diversos auditórios de que uma dada opinião é preferível à sua rival.
Outra característica da retórica de Aristóteles, também muito importante, é a de que se podem distinguir três domínios: retórica, moral e verdade. O bom ou mau uso da retórica — ou seja, o uso da arte do bem falar para defender argumentos verdadeiros ou falsos — depende única e exclusivamente da ética de quem assim procede, isto é, da prioridade de valores morais que cada um vai estabelecendo ao longo da sua vida. A retórica em si não é boa nem má; o seu uso é que a torna boa ou má. Portanto, é uma ilusão pensar que a má retórica não tem sentido; se o homem é livre de se exprimir, são as suas intenções que determinarão o tipo de uso que fará da palavra.
Persuasão e Manipulação
Persuadir não é a mesma coisa que manipular. A grande diferença reside na intenção do orador. No caso da persuasão, o objetivo é apenas provocar a adesão, apelando a fatores racionais e emocionais. No caso da manipulação, existe uma intenção deliberada de desvalorizar os fatores racionais, apelando a uma adesão emocional. O próprio discurso é baseado em falácias, onde é patente a intenção de confundir o auditório.
As principais críticas que Platão tecia à prática dos sofistas tinham a ver com a distinção entre a verdade e o erro, que para Platão era fundamental e, em contrapartida, sem importância para os sofistas. Para ele, o sofismo não era ciência, nem verdade, nem conhecimento, mas um negócio. Eram especialmente hábeis em criar discussões e polémicas intermináveis, como se fossem dotados de tremenda sabedoria e tudo soubessem. Platão reflete sobre o "modus operandi" dos sofistas, definindo-os inicialmente pelas artes da mimética — que provocam ilusões em nós, dando à realidade uma falsa aparência de ciência universal. Eles fabricam imitações da realidade, criando uma linha de raciocínio propícia para defenderem o que quiserem perante os seus interlocutores. Este tipo de discurso é chamado por Platão de "discurso do simulacro", um discurso que não sobrevive ao tempo, pois a história acaba por revelar a sua falsidade.