A Atualidade do Sermão de Santo António aos Peixes

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O Sermão de Santo António aos Peixes revela-se, para além de atual, um ditado dos defeitos intemporais dos homens, refletindo a ideia de que pouco ou nada mudaram.

Para além de permanecerem os mesmos defeitos, outros surgiram: o homem continua a não ouvir os pregadores e a dar mais importância à sua pessoa.

Neste sermão, o Padre António Vieira apresenta defeitos dos peixes a título de exemplo do que se passa nos homens do seu tempo — entre os quais o orgulho, a soberba, a traição, a hipocrisia e o parasitismo; todos eles ainda bem presentes no homem da sociedade de hoje.

Para além do efeito óbvio da presunção e da ambição, que remete o homem a um ciclo vicioso de pretensão desmedida, este sermão prova-nos que o mal está em querer fazê-lo à custa dos outros: dos mais pequenos, dos mais desprotegidos e dos que menos têm, tanto em termos materiais como sociais. O estatuto e a palavra na época apresentavam-se bastante valorizados mas, tendo em conta a sociedade que concebemos, atualmente esta relevância social envolve-se de uma importância quase absurda.

Os maiores querem mais à custa dos mais pequenos: “os peixes comem-se uns aos outros, e os maiores comem os mais pequenos”; o Estado atual, como gigante que se afirma, sustenta-se com base na exploração do indivíduo, “o mais pequeno”, ideologia confirmada nos tempos vividos atualmente.

A juntar a tudo isto está ainda o parasitismo por parte daqueles que levam a vida dependentes dos outros e que, normalmente, se encostam a pessoas com mais poder apenas para se mostrarem, visto que por eles próprios não conseguem nada e, na realidade, não têm de facto nada.

Como grande exemplo de soberba, orgulho e hipocrisia, podemos referir os religiosos eclesiásticos que tanto dizem querer ajudar os mais pobres mas que, por vezes, governam a vida com o dinheiro que estes lhes concedem, quase como fruto do dever divino. São bastante conhecidos os casos de pedofilia que envolvem padres católicos ou sacerdotes que acabam por casar, ter amantes e até mesmo filhos, quando estes sabem ter feito um juramento ao qual estariam supostamente ligados por toda a sua vida religiosa.

Outro grande defeito dos peixes apontado pelo Padre Vieira que podemos ver no homem é a traição: neste campo podemos colocar todos os que se aproveitam dos outros quando necessitam e, no fim, os traem pelas costas, sabendo por vezes que poderão arruinar as suas vidas.

Depois de tantos anos passados, ainda se conhecem bem os defeitos dos homens atribuídos metaforicamente aos peixes e, de forma quase iluminada, imortalizados em forma de sermão pelo Padre António Vieira.

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