Biofilme Dental, Cárie e Doenças Periodontais: Patogênese
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Biofilme Dental: Definição, Formação e Características
O Biofilme é um consórcio microbiano envolvido em uma extensa matriz de polissacarídeos extracelulares. Esse consórcio necessita de um meio aquoso para proliferar e é um produto da adesão, multiplicação e desenvolvimento de microrganismos (m.os) sobre estruturas sólidas (dentes, restaurações), sendo o causador de patologias humanas como a cárie dental e as doenças periodontais.
Formação do Biofilme Dental
O primeiro passo para a formação do biofilme dental ocorre após a formação da película adquirida, rica em PRP (Proteínas Ricas em Prolinas). Sua função é lubrificar e proteger os dentes. Ela é produzida pela saliva e possui carga positiva. Essas características contribuem para a aderência dos microrganismos, pelo fato de estes terem carga negativa. Através de ligações estereoquímicas, as bactérias se aproximam da película adquirida, causando a sua inversão: a carga positiva se solta do dente, aderindo aos m.os, o que resulta na colonização da superfície dental. A região invertida da película se chama cripttopo.
A colonização se dá pela adesão das bactérias por meio de fatores de patogenicidade (flagelos, fibrilas, fímbrias ou pili). As bactérias que iniciam a colonização são chamadas de colonizadoras primárias e são Gram-positivas:
- Streptococcus mutans
- S. sanguinis
- S. salivarius
- S. oralis
- S. gordonii
- S. mitis
A firme aderência dessas bactérias é essencial para a formação do biofilme. Sem a remoção mecânica, o biofilme evolui, causando uma multiplicação e diversidade microbiana. Com isso, há um consumo maior de O₂, favorecendo o aparecimento de bactérias facultativas. O desenvolvimento continua, zerando o O₂, e surgem os microrganismos anaeróbios Gram-negativos, causando a colonização completa do biofilme. Exemplos incluem: Lactobacillus casei, Rothia denticola e S. mutans.
Shift Microbiano
A tensão de O₂ é responsável pela modificação do biofilme de aeróbico/facultativo para anaeróbio. Essa modificação se chama Shift Microbiano. O O₂ consumido pelos aeróbios e anaeróbios facultativos é trocado por dióxido de carbono e outros gases, favorecendo o crescimento dos anaeróbios.
Características do Biofilme
O biofilme apresenta algumas características que garantem sua sobrevivência e resistência:
- Metabolismo Cooperativo: Os microrganismos atuam coletivamente, facilitando sua adaptação às alterações ambientais.
- Microambiente: Possui diferentes tensões de O₂, pH (acidogênicos, acidófilos, acidúricos).
- Sistema Circulatório Primitivo: Canais ou galerias que permitem a troca de nutrientes e metabólitos, além da passagem de água.
- Comunicação: Diferentes bactérias se comunicam, podendo sintetizar até 65 novas proteínas.
- Resistência: É altamente resistente a antibióticos.
- Níveis: Possui dois níveis: 1º supra-gengival e 2º subgengival, sendo o segundo influenciado pelo primeiro.
O biofilme é altamente resistente. Conforme seu acúmulo ocorre em nível supra ou subgengival, o resultado esperado é o aparecimento de doenças infecciosas, como a cárie dental, periodontopatias e peri-implantites.
Remoção do Biofilme
Não há meio químico eficaz para remover o biofilme. A melhor maneira é pela via física e mecânica:
- Escovagem
- Raspagem
- Limagem
- Esfregando/Lixando
- Jato de partículas
- Ultrassom
Cárie Dental: Etiologia, Fatores de Risco e Microrganismos
A Cárie é o resultado do acúmulo e desenvolvimento do biofilme. É uma doença infecciosa, contagiosa e multifatorial de maior incidência na espécie humana. Sua ocorrência depende de quatro fatores inter-relacionados:
- Hospedeiro (dente)
- Bactérias (cariogênicas)
- Substrato (dieta)
- Tempo
Na ausência de algum desses fatores, a doença não se desenvolve.
Mecanismo da Cárie
A cárie dental é um processo de desmineralização do dente provocado por microrganismos cariogênicos que possuem a capacidade de aderir, evadir, invadir, produzir e excretar substâncias tóxicas.
O substrato é proveniente de uma dieta cariogênica, composta por alimentos ricos em carboidratos e sacarose. Os microrganismos presentes no biofilme, principalmente os aeróbios Gram-positivos, que são fortemente acidogênicos e homoláticos, realizam a fermentação e decomposição microbiana dos carboidratos. O amido é degradado sob a ação de enzimas extracelulares até a forma de monossacarídeos. Nessa forma, já podem adentrar as células.
Dentro das células, o monossacarídeo sofre uma série de reações enzimáticas conhecidas como Ciclo EMP (Glicólise), até formar o ácido pirúvico. Ao passar pela fermentação lática mista, há a produção de ácidos lático, fórmico, butílico, acético e pirúvico. Esses ácidos liberados fazem o pH bucal cair para aproximadamente 4,0, que é mais ácido que o pH crítico (5,5), resultando na desmineralização do esmalte (mancha branca).
Os microrganismos mais encontrados são S. mutans e S. sobrinus.
Microrganismos Associados a Tipos Específicos de Cárie
Cárie de Esmalte
- S. mutans, S. sobrinus
Cárie de Superfícies Lisas
- S. mutans, S. salivarius
Cárie de Dentina
- Lactobacillus sp, Actinomyces naeslundii, S. mutans, Bacilos filamentosos
Cárie de Sulcos e Fissuras (mais predispostas)
- S. mutans, S. sobrinus, S. sanguinis, Lactobacillus
Cárie de Raiz / Cárie Radicular
- Actinomyces viscosus, A. naeslundii, S. mutans, S. sanguinis, S. salivarius, Bacilos fermentativos, Lactobacillus
Doenças Periodontais: Biofilme Subgengival e Patogenicidade
O biofilme é o causador das doenças periodontais. Inicialmente, ele é supra-gengival, com bactérias Gram-positivas. À medida que o biofilme se desenvolve, tornando-se espesso e consumindo mais O₂, o teor de oxigênio cai, favorecendo o desenvolvimento de microrganismos anaeróbios facultativos e, posteriormente, anaeróbios Gram-negativos. Essa inversão é o Shift Microbiano.
Forma-se, então, o biofilme subgengival, que é o responsável pela doença periodontal, pois as bactérias presentes são anaeróbias Gram-negativas, produtoras de várias substâncias. Esses microrganismos realizam a putrefação, que é a decomposição microbiana de proteínas. Eles agem no tecido mole, degradando as proteínas até a menor forma. Esse processo gera inflamação e posterior destruição dos tecidos periodontais.
Características dos Microrganismos Periodontopatogênicos
Os microrganismos periodontopatogênicos devem possuir algumas características essenciais:
- Adesão: Através de fímbrias, fibrilas, adesinas ou PEC nos tecidos duros ou moles.
- Multiplicação: No hospedeiro suscetível, produzindo enzimas como as proteases, com o objetivo de obter nutrientes. O subproduto de um é utilizado por outro (ocorre a seleção).
- Evasão: Fuga da defesa do hospedeiro (possuem cápsula, produção de enzimas ativas sobre os anticorpos e evitam a ação dos linfócitos T).
- Invasão: Através da produção de enzimas como colagenases, gelatinases e sulfidrases.
- Indução à Reabsorção Óssea: Através de subprodutos tóxicos como cadaverina, putrescina e amônia.
O hospedeiro é atacado duas vezes: pela ação da enzima e pela ação dos subprodutos tóxicos da putrefação. Os principais periodontopatógenos são:
- Prevotella oralis
- Prevotella intermedia
- Campylobacter rectus
- Treponema denticola
As espiroquetas não têm fator de virulência, mas sua presença indica que existem microrganismos em putrefação. O teste BANA é utilizado para detectar microrganismos periodontopatogênicos.
Prevenção e Tratamento Periodontal
A prevenção deve ser feita por meio mecânico e pode ser associada à clorexidina ou à água oxigenada a 10%.
Infecção Pulpo Periapical: Vias de Contaminação e Tratamento
Na Infecção Pulpo Periapical, o biofilme já atingiu o tecido conjuntivo, que é estéril. Portanto, a infecção começa no forame apical. Se a lesão estiver na coroa, os microrganismos liberam subprodutos que se difundem pelos canalículos dentinários e só podem sair pelo forame apical.
A origem dos microrganismos é a doença cárie e as doenças periodontais. Embora os microrganismos bucais apresentem capacidade limitada de invadir a polpa, os substratos liberados (como ácido sulfídrico, amônia e indol) podem afetar o sistema de defesa do hospedeiro, provocando dor.
Outro meio para o microrganismo atingir a polpa é por anacorese, ou seja, via sanguínea, o que é muito raro.
Mecanismo de Penetração e Pressão Hidrostática
O mecanismo de patogenicidade na infecção pulpo periapical se dá por penetração, espaço vazio e difusão com o líquido. Se os túbulos dentinários estiverem com líquido, os microrganismos penetram em direção à dentina. O mecanismo é por difusão, onde o primeiro processo é a pressão hidrostática.
Normalmente, a cavidade bucal é hipotônica e a polpa é hipertônica, então o movimento do fluido dentinário é sempre da polpa para a cavidade bucal. Contudo, quando ingerimos açúcar, o meio bucal fica hipertônico e a polpa hipotônica. Se houver uma lesão de cárie presente e movimentos realizados pela língua, bochecha ou dedo, os microrganismos são impulsionados para dentro através da pressão hidrostática.
Origem e Microrganismos Envolvidos
A origem da infecção pulpo periapical é a doença cárie e os mecanismos da lesão, como cárie em superfícies lisas, fóssulas e fissuras, bolsa periodontal e bacteriemia. Se a infecção ocorrer via lesão de cárie, os subprodutos já adentraram há mais tempo. O metabolismo elevado e a baixa resistência do indivíduo podem levar a infecção para a parte periapical, resultando na doença pulpo-periapical.
Microrganismos Encontrados
- Antes da exposição pulpar: S. mutans, S. sobrinus, Lactobacillus.
- Com a polpa já exposta: S. mitis, S. oralis, S. sanguinis, entre outros.
Estratégias de Eliminação
As estratégias de eliminação da infecção pulpo periapical incluem:
- Preparo químico-mecânico
- Medicação intracanal
- Terapia antibiótica
- Cirurgia perirradicular