Biologia dos Fungos: Morfologia, Classificação e Micoses

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Biologia dos Fungos: Considerações Gerais

  • O estudo dos fungos é chamado de Micologia.
  • Os fungos podem desenvolver-se em meios de cultivo especiais, formando colônias de dois tipos: leveduriformes e filamentosos.

Leveduras

  • São fungos unicelulares, esféricos ou ovais.
  • Podem se multiplicar:
    1. Por fissão binária, produzindo duas células novas iguais; ou
    2. Por gemulação ou brotamento (protuberância em sua superfície externa), que se dividem formando células desiguais.
  • Uma célula de levedura pode produzir mais de 24 células-filhas por brotamento.
  • Algumas leveduras produzem brotos que não se separam uns dos outros; quando estes brotos formam uma pequena cadeia, esta é chamada de pseudo-hifas.
  • Candida albicans se fixa às células na forma de levedura, mas é na forma de pseudo-hifas que invade os tecidos mais profundos.
  • Crescem à temperatura de 37 °C, com aspecto de colônias bacterianas.

Fungos Filamentosos

  • Sinonímia: bolores, orelha-de-pau, mofos, etc.
  • Formados por filamentos denominados hifas.
  • As hifas podem ser septadas ou asseptadas (cenocíticas).
  • Mesmo nos fungos com hifas septadas, há aberturas nos septos que fazem com que o citoplasma de células adjacentes seja contíguo.
  • As hifas crescem por alongamento das extremidades.
  • Quando um fragmento de hifa é quebrado, este pode se alongar para formar uma nova hifa.
  • A porção da hifa que obtém nutrientes é chamada de hifa vegetativa.
  • A porção envolvida com a reprodução é a hifa reprodutiva ou aérea, que se projeta acima da superfície sobre a qual o fungo está crescendo e frequentemente sustenta os esporos reprodutivos.
  • O conjunto de hifas é chamado de micélio.
  • Crescem à temperatura ambiente (aproximadamente 25 °C).
  • Podem se reproduzir assexuadamente ou sexuadamente.
  • Tanto a reprodução sexual quanto a assexual ocorrem pela formação de esporos.
  • Os esporos sexuais resultam da fusão de núcleos de tipos de cruzamento opostos de uma mesma espécie do fungo.
  • Os fungos produzem esporos sexuais menos frequentemente que os esporos assexuais.
  • Tipos de esporos assexuais:
    1. Conidiósporos: esporo unicelular ou multicelular que não é envolto em uma bolsa. São produzidos em cadeia na extremidade do conidióforo.
      • Artrósporo: formado pela fragmentação de uma hifa septada em células únicas, pequenas e levemente espessas.
      • Blastósporo: consiste em um broto originado de uma célula parental.
    2. Clamidósporo: esporo com paredes espessas, formado por arredondamento e alargamento no interior de um segmento de hifa.
    3. Esporangiósporo: formado dentro de um esporângio (bolsa) na extremidade de uma hifa aérea, chamada esporangióforo. O esporângio pode conter centenas de esporangiósporos.
  • Esporos Sexuais:
    • Ascósporos: formam-se no interior de estruturas denominadas ascos. Os ascos podem estar contidos em corpos de frutificação, os ascocarpos. Três tipos de ascocarpos são conhecidos: cleistotécio, peritécio e apotécio.
      • Cleistotécio: estrutura globosa, fechada, com parede formada por hifas unidas, contendo um número indeterminado de ascos, cada um geralmente com oito ascósporos em seu interior.
      • Peritécio: estrutura piriforme com um poro por onde os ascos são eliminados.
      • Apotécio: ascocarpo aberto em forma de cálice.
    • Basidiósporos: originam-se no ápice de uma célula fértil chamada basídio. Esses propágulos são característicos dos denominados cogumelos (fungos macroscópicos).

Dimorfismo Fúngico

  • Característica de alguns fungos patogênicos que exibem ambas as formas, leveduriforme e filamentosa, dependendo da temperatura a que são submetidos. A 37 °C, assume a forma de levedura e, a 25 °C, assume a forma de fungo filamentoso.

Características Nutricionais dos Fungos

  • São quimio-heterotróficos.
  • Crescem bem em pH 5,0.
  • Quase todos são aeróbicos; algumas leveduras são anaeróbias facultativas.
  • São muito resistentes à pressão osmótica, podendo sobreviver bem em altas concentrações de sal e açúcar.
  • Podem crescer em substâncias com baixo grau de umidade.
  • Necessitam de pouco nitrogênio.
  • São capazes de metabolizar carboidratos complexos, como lignina (madeira).

Observação: Exceto em relação à quimio-heterotrofia, os fungos diferem das bactérias em todos os outros aspectos mencionados.

Divisões do Reino Fungi

  1. Deuteromicota

    • Categoria não definitiva de fungos, pois neste grupo se enquadram aqueles que produzem apenas esporos assexuais, provavelmente porque ainda não se conseguiu demonstrar seus esporos sexuais. O brotamento também pode ocorrer.
    • Possuem hifas septadas.
    • Muitos fungos patogênicos são, ou uma vez foram, classificados como Deuteromicota.
    • Pneumocystis, patógeno oportunista em pacientes imunocomprometidos, foi primeiramente classificado como protozoário, mas estudos recentes de RNA ribossomal indicaram que estava mais relacionado com fungos, sendo classificado como Deuteromicota.
  2. Zigomicota

    • Têm hifas cenocíticas.
    • Exemplo: Rhizopus nigricans, conhecido como mofo preto do pão.
    • Os esporos assexuais são esporangiósporos.
    • Os esporos sexuais são zigósporos (um esporo grande dentro de uma parede espessa). (Referência: TORTORA, PÁG 328, FIG 12.6 ABAIXO À ESQUERDA)
  3. Ascomycota

    • Têm hifas septadas e algumas leveduras.
    • Seus esporos assexuais são normalmente conidiósporos produzidos a partir de um conidióforo.
    • Conídio significa pó.
    • Estes esporos são produzidos por uma estrutura em forma de saco conhecida como asco.
  4. Basidiomycota

    • Possuem hifas septadas.
    • Este filo inclui fungos que produzem cogumelos.
    • Tem basidiósporos formados externamente em um pedestal chamado de basídio.

Micoses Superficiais (Dermatofitoses)

Geralmente, os agentes etiológicos são os dermatófitos abaixo:

  • Epidermophyton
  • Microsporum
  • Trichophyton

Infectam somente tecidos superficiais queratinizados, particularmente pele, pelo e unhas, mas não invadem os tecidos mais profundos nem tendem a disseminar-se.

Epidermophyton

  • Formam colônias aveludadas ou pulverulentas de cor amarelo-amarronzada.
  • Não atingem o cabelo; apenas pele e pelo.

Microsporum

  • A cor das colônias varia do branco ao marrom.
  • Atinge cabelo, pele e raramente unhas.

Trichophyton

  • Formam colônias pulverulentas, aveludadas ou cerosas com pigmentação variada, que vai do branco, róseo, vermelho e púrpura até amarelo e marrom.
  • Invadem cabelo, pele e unhas.

Aspectos Clínicos das Micoses Superficiais

  1. Tinea Negra Palmar e Pedis

    • Agente etiológico: Exophiala werneckii.
    • É um fungo dimórfico.
  2. Tinea Pedis (Pé de Atleta)

    Há prurido e aparecimento de vesículas que se rompem com saída de líquido claro. A pele dos espaços interdigitais torna-se macerada e se rompe, aparecendo fissuras, o que predispõe à infecção secundária por bactérias.

  3. Tinea Corporis (Impigem)

    Tinea da pele glabra (sem pelos) que causa lesões com zona central clara e escamosa, rodeada por bordo elevado e eritematoso.

  4. Tinea Capitis (Tinea do Couro Cabeludo)

    Ocorre na infância e cura espontaneamente na adolescência, o que provavelmente está relacionado à elaboração, na vida adulta, de ácidos graxos superiores que são fungistáticos.

  5. Pitiríase Versicolor (Pano Branco)

    • O agente etiológico é a Malassezia furfur.
    • Produz lesões descamativas de cor parda ou cinza.
  6. Piedra Preta

    • Localiza-se nos cabelos, produzindo nódulos duros, de coloração escura.
    • Agente etiológico: Piedraia hortae.
  7. Piedra Branca

    • Apresenta lesões nodulares claras (branco-amareladas) e se localizam nos pelos de rosto, pescoço e geralmente nas extremidades do pelo.
    • Agente etiológico: Trichosporon beigelii.
  8. Candidíase

    É uma das micoses superficiais de maior importância devido à alta frequência de quadros clínicos na população, principalmente pelo fato de ser uma doença oportunista. É uma doença cosmopolita.

    Fontes de Infecção:

    • Endógena (mais comum)
    • Exógena: ar, alimentos, ambiente em geral

    A Candida albicans é o agente etiológico mais frequente; é um fungo leveduriforme, portanto, unicelular e se reproduz normalmente por gemulação.

    Outras espécies de Candida também podem causar candidíase, tais como:

    • Candida tropicalis
    • Candida stellatoidea
    • Candida krusei
    • Candida parakrusei

    Aspectos Clínicos:

    • Candidíase das Mucosas:
      • Boca (vulgarmente conhecida como sapinho), podendo se estender até a língua.
      • Cantos da boca (queilite).
      • Mucosa vaginal (vulvovaginite).
      • Pênis (balanopostite).
    • Candidíase Cutânea:
      • Da unha. Pode ser paroníquia (nos cantos da unha) ou oníquia (na unha propriamente dita, aparecem ondulações e fragmentação).
      • Espaços intertriginosos ou intertrigo (virilha, axila, dobras, etc.).
      • Perianal.
    • Candidíase Generalizada:
      • Candidíase pulmonar, etc.

Micoses Subcutâneas

  • Cromomicose
  • Esporotricose
  • Micetomas
  • Feohifomicose

Micoses Profundas

  1. Cryptococcus neoformans

    • É um fungo leveduriforme, gemulante, que possui uma grande cápsula.
    • Vive livremente no solo e é encontrado com frequência em fezes de pombo.
    • No homem, a infecção pulmonar primária é ocasionalmente seguida por meningite.
  2. Histoplasma capsulatum

    • É um fungo dimórfico que causa a histoplasmose.
    • Pode desencadear pneumonia no homem.
  3. Outras Micoses Profundas:

    • Paracoccidioidomicose
    • Lobomicose
    • Blastomicose Norte-Americana
    • Coccidioidomicose

Diagnóstico Laboratorial de Micoses

  1. Colheita das Amostras

    A partir de Fontes Cutâneas:

    • Passar no local algodão embebido com álcool a 70% para remover bactérias contaminantes.
    • Em lesões aneliformes típicas, colher da borda eritematosa de desenvolvimento periférico: raspar com bisturi ou com lâmina de microscopia (das bordas).
    • Recolher os fragmentos em placa de Petri ou envelopes de papel.

    Unhas Infectadas:

    • Colher por baixo. Se não for possível, raspar a superfície com lâmina para obter material das partes mais profundas, onde é provável encontrar microrganismos infectantes.
  2. Processamento

    Exame Direto:

    • Exame direto para amostras densas e opacas (escamas de pele, raspados de unhas e pelos).
    • Emulsionar em uma gota de KOH sobre lâmina de vidro. Para escarro, secreções e pele, KOH a 10-20%. Para unha: 30-40%.
    • Aquecer a mistura sobre chama de bico de Bunsen, examinar após 10-15 minutos (tempo para clarear o esfregaço).
    • Função do KOH: dissolve a queratina e intensifica o contraste das estruturas fúngicas com outros materiais presentes, além de desengordurar.
  3. Meios de Cultura

    Meios Não Seletivos:

    • Permite o crescimento de virtualmente todas as espécies fúngicas, como o Ágar Sabouraud Glicose.
    • Esse meio tem baixo pH, o que inibe o desenvolvimento de muitas bactérias contaminantes que podem estar presentes na amostra.
    • Pode ser realizada uma modificação no Ágar Sabouraud, na qual o conteúdo de glicose é reduzido de 4 para 2 e o pH ajustado para 6,9. Esta modificação intensifica a esporulação e é particularmente útil para o subcultivo de fungos cuja identificação pode ser difícil devido ao escasso desenvolvimento das estruturas de frutificação características.

    Composição tradicional do Ágar Sabouraud:

    • Ágar Sabouraud Glicose
    • Dextrose (glicose) - 40g
    • Peptona - 10g
    • Ágar - 15g
    • Água destilada - 1L
    • pH = 5,6

    Meios Seletivos:

    • Adiciona-se antibiótico (penicilina - 20 U/mL, estreptomicina - 40 U/mL, gentamicina - 5 µg/mL, cloranfenicol - 16 µL/mL) a um meio basal não seletivo, a fim de inibir a contaminação bacteriana.
    • Adição de cicloheximida (Actidione): 0,5 mg/mL, para impedir o crescimento de alguns bolores de crescimento mais rápido, que contaminam os meios. Porém, alguns fungos patogênicos como C. neoformans e A. fumigatus podem ser parcial ou totalmente inibidos pela cicloheximida.

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