Biologia dos Fungos: Morfologia, Classificação e Micoses
Classificado em Biologia
Escrito em em
português com um tamanho de 13,8 KB
Biologia dos Fungos: Considerações Gerais
- O estudo dos fungos é chamado de Micologia.
- Os fungos podem desenvolver-se em meios de cultivo especiais, formando colônias de dois tipos: leveduriformes e filamentosos.
Leveduras
- São fungos unicelulares, esféricos ou ovais.
- Podem se multiplicar:
- Por fissão binária, produzindo duas células novas iguais; ou
- Por gemulação ou brotamento (protuberância em sua superfície externa), que se dividem formando células desiguais.
- Uma célula de levedura pode produzir mais de 24 células-filhas por brotamento.
- Algumas leveduras produzem brotos que não se separam uns dos outros; quando estes brotos formam uma pequena cadeia, esta é chamada de pseudo-hifas.
- Candida albicans se fixa às células na forma de levedura, mas é na forma de pseudo-hifas que invade os tecidos mais profundos.
- Crescem à temperatura de 37 °C, com aspecto de colônias bacterianas.
Fungos Filamentosos
- Sinonímia: bolores, orelha-de-pau, mofos, etc.
- Formados por filamentos denominados hifas.
- As hifas podem ser septadas ou asseptadas (cenocíticas).
- Mesmo nos fungos com hifas septadas, há aberturas nos septos que fazem com que o citoplasma de células adjacentes seja contíguo.
- As hifas crescem por alongamento das extremidades.
- Quando um fragmento de hifa é quebrado, este pode se alongar para formar uma nova hifa.
- A porção da hifa que obtém nutrientes é chamada de hifa vegetativa.
- A porção envolvida com a reprodução é a hifa reprodutiva ou aérea, que se projeta acima da superfície sobre a qual o fungo está crescendo e frequentemente sustenta os esporos reprodutivos.
- O conjunto de hifas é chamado de micélio.
- Crescem à temperatura ambiente (aproximadamente 25 °C).
- Podem se reproduzir assexuadamente ou sexuadamente.
- Tanto a reprodução sexual quanto a assexual ocorrem pela formação de esporos.
- Os esporos sexuais resultam da fusão de núcleos de tipos de cruzamento opostos de uma mesma espécie do fungo.
- Os fungos produzem esporos sexuais menos frequentemente que os esporos assexuais.
- Tipos de esporos assexuais:
- Conidiósporos: esporo unicelular ou multicelular que não é envolto em uma bolsa. São produzidos em cadeia na extremidade do conidióforo.
- Artrósporo: formado pela fragmentação de uma hifa septada em células únicas, pequenas e levemente espessas.
- Blastósporo: consiste em um broto originado de uma célula parental.
- Clamidósporo: esporo com paredes espessas, formado por arredondamento e alargamento no interior de um segmento de hifa.
- Esporangiósporo: formado dentro de um esporângio (bolsa) na extremidade de uma hifa aérea, chamada esporangióforo. O esporângio pode conter centenas de esporangiósporos.
- Conidiósporos: esporo unicelular ou multicelular que não é envolto em uma bolsa. São produzidos em cadeia na extremidade do conidióforo.
- Esporos Sexuais:
- Ascósporos: formam-se no interior de estruturas denominadas ascos. Os ascos podem estar contidos em corpos de frutificação, os ascocarpos. Três tipos de ascocarpos são conhecidos: cleistotécio, peritécio e apotécio.
- Cleistotécio: estrutura globosa, fechada, com parede formada por hifas unidas, contendo um número indeterminado de ascos, cada um geralmente com oito ascósporos em seu interior.
- Peritécio: estrutura piriforme com um poro por onde os ascos são eliminados.
- Apotécio: ascocarpo aberto em forma de cálice.
- Basidiósporos: originam-se no ápice de uma célula fértil chamada basídio. Esses propágulos são característicos dos denominados cogumelos (fungos macroscópicos).
- Ascósporos: formam-se no interior de estruturas denominadas ascos. Os ascos podem estar contidos em corpos de frutificação, os ascocarpos. Três tipos de ascocarpos são conhecidos: cleistotécio, peritécio e apotécio.
Dimorfismo Fúngico
- Característica de alguns fungos patogênicos que exibem ambas as formas, leveduriforme e filamentosa, dependendo da temperatura a que são submetidos. A 37 °C, assume a forma de levedura e, a 25 °C, assume a forma de fungo filamentoso.
Características Nutricionais dos Fungos
- São quimio-heterotróficos.
- Crescem bem em pH 5,0.
- Quase todos são aeróbicos; algumas leveduras são anaeróbias facultativas.
- São muito resistentes à pressão osmótica, podendo sobreviver bem em altas concentrações de sal e açúcar.
- Podem crescer em substâncias com baixo grau de umidade.
- Necessitam de pouco nitrogênio.
- São capazes de metabolizar carboidratos complexos, como lignina (madeira).
Observação: Exceto em relação à quimio-heterotrofia, os fungos diferem das bactérias em todos os outros aspectos mencionados.
Divisões do Reino Fungi
Deuteromicota
- Categoria não definitiva de fungos, pois neste grupo se enquadram aqueles que produzem apenas esporos assexuais, provavelmente porque ainda não se conseguiu demonstrar seus esporos sexuais. O brotamento também pode ocorrer.
- Possuem hifas septadas.
- Muitos fungos patogênicos são, ou uma vez foram, classificados como Deuteromicota.
- Pneumocystis, patógeno oportunista em pacientes imunocomprometidos, foi primeiramente classificado como protozoário, mas estudos recentes de RNA ribossomal indicaram que estava mais relacionado com fungos, sendo classificado como Deuteromicota.
Zigomicota
- Têm hifas cenocíticas.
- Exemplo: Rhizopus nigricans, conhecido como mofo preto do pão.
- Os esporos assexuais são esporangiósporos.
- Os esporos sexuais são zigósporos (um esporo grande dentro de uma parede espessa). (Referência: TORTORA, PÁG 328, FIG 12.6 ABAIXO À ESQUERDA)
Ascomycota
- Têm hifas septadas e algumas leveduras.
- Seus esporos assexuais são normalmente conidiósporos produzidos a partir de um conidióforo.
- Conídio significa pó.
- Estes esporos são produzidos por uma estrutura em forma de saco conhecida como asco.
Basidiomycota
- Possuem hifas septadas.
- Este filo inclui fungos que produzem cogumelos.
- Tem basidiósporos formados externamente em um pedestal chamado de basídio.
Micoses Superficiais (Dermatofitoses)
Geralmente, os agentes etiológicos são os dermatófitos abaixo:
- Epidermophyton
- Microsporum
- Trichophyton
Infectam somente tecidos superficiais queratinizados, particularmente pele, pelo e unhas, mas não invadem os tecidos mais profundos nem tendem a disseminar-se.
Epidermophyton
- Formam colônias aveludadas ou pulverulentas de cor amarelo-amarronzada.
- Não atingem o cabelo; apenas pele e pelo.
Microsporum
- A cor das colônias varia do branco ao marrom.
- Atinge cabelo, pele e raramente unhas.
Trichophyton
- Formam colônias pulverulentas, aveludadas ou cerosas com pigmentação variada, que vai do branco, róseo, vermelho e púrpura até amarelo e marrom.
- Invadem cabelo, pele e unhas.
Aspectos Clínicos das Micoses Superficiais
Tinea Negra Palmar e Pedis
- Agente etiológico: Exophiala werneckii.
- É um fungo dimórfico.
Tinea Pedis (Pé de Atleta)
Há prurido e aparecimento de vesículas que se rompem com saída de líquido claro. A pele dos espaços interdigitais torna-se macerada e se rompe, aparecendo fissuras, o que predispõe à infecção secundária por bactérias.
Tinea Corporis (Impigem)
Tinea da pele glabra (sem pelos) que causa lesões com zona central clara e escamosa, rodeada por bordo elevado e eritematoso.
Tinea Capitis (Tinea do Couro Cabeludo)
Ocorre na infância e cura espontaneamente na adolescência, o que provavelmente está relacionado à elaboração, na vida adulta, de ácidos graxos superiores que são fungistáticos.
Pitiríase Versicolor (Pano Branco)
- O agente etiológico é a Malassezia furfur.
- Produz lesões descamativas de cor parda ou cinza.
Piedra Preta
- Localiza-se nos cabelos, produzindo nódulos duros, de coloração escura.
- Agente etiológico: Piedraia hortae.
Piedra Branca
- Apresenta lesões nodulares claras (branco-amareladas) e se localizam nos pelos de rosto, pescoço e geralmente nas extremidades do pelo.
- Agente etiológico: Trichosporon beigelii.
Candidíase
É uma das micoses superficiais de maior importância devido à alta frequência de quadros clínicos na população, principalmente pelo fato de ser uma doença oportunista. É uma doença cosmopolita.
Fontes de Infecção:
- Endógena (mais comum)
- Exógena: ar, alimentos, ambiente em geral
A Candida albicans é o agente etiológico mais frequente; é um fungo leveduriforme, portanto, unicelular e se reproduz normalmente por gemulação.
Outras espécies de Candida também podem causar candidíase, tais como:
- Candida tropicalis
- Candida stellatoidea
- Candida krusei
- Candida parakrusei
Aspectos Clínicos:
- Candidíase das Mucosas:
- Boca (vulgarmente conhecida como sapinho), podendo se estender até a língua.
- Cantos da boca (queilite).
- Mucosa vaginal (vulvovaginite).
- Pênis (balanopostite).
- Candidíase Cutânea:
- Da unha. Pode ser paroníquia (nos cantos da unha) ou oníquia (na unha propriamente dita, aparecem ondulações e fragmentação).
- Espaços intertriginosos ou intertrigo (virilha, axila, dobras, etc.).
- Perianal.
- Candidíase Generalizada:
- Candidíase pulmonar, etc.
Micoses Subcutâneas
- Cromomicose
- Esporotricose
- Micetomas
- Feohifomicose
Micoses Profundas
Cryptococcus neoformans
- É um fungo leveduriforme, gemulante, que possui uma grande cápsula.
- Vive livremente no solo e é encontrado com frequência em fezes de pombo.
- No homem, a infecção pulmonar primária é ocasionalmente seguida por meningite.
Histoplasma capsulatum
- É um fungo dimórfico que causa a histoplasmose.
- Pode desencadear pneumonia no homem.
Outras Micoses Profundas:
- Paracoccidioidomicose
- Lobomicose
- Blastomicose Norte-Americana
- Coccidioidomicose
Diagnóstico Laboratorial de Micoses
Colheita das Amostras
A partir de Fontes Cutâneas:
- Passar no local algodão embebido com álcool a 70% para remover bactérias contaminantes.
- Em lesões aneliformes típicas, colher da borda eritematosa de desenvolvimento periférico: raspar com bisturi ou com lâmina de microscopia (das bordas).
- Recolher os fragmentos em placa de Petri ou envelopes de papel.
Unhas Infectadas:
- Colher por baixo. Se não for possível, raspar a superfície com lâmina para obter material das partes mais profundas, onde é provável encontrar microrganismos infectantes.
Processamento
Exame Direto:
- Exame direto para amostras densas e opacas (escamas de pele, raspados de unhas e pelos).
- Emulsionar em uma gota de KOH sobre lâmina de vidro. Para escarro, secreções e pele, KOH a 10-20%. Para unha: 30-40%.
- Aquecer a mistura sobre chama de bico de Bunsen, examinar após 10-15 minutos (tempo para clarear o esfregaço).
- Função do KOH: dissolve a queratina e intensifica o contraste das estruturas fúngicas com outros materiais presentes, além de desengordurar.
Meios de Cultura
Meios Não Seletivos:
- Permite o crescimento de virtualmente todas as espécies fúngicas, como o Ágar Sabouraud Glicose.
- Esse meio tem baixo pH, o que inibe o desenvolvimento de muitas bactérias contaminantes que podem estar presentes na amostra.
- Pode ser realizada uma modificação no Ágar Sabouraud, na qual o conteúdo de glicose é reduzido de 4 para 2 e o pH ajustado para 6,9. Esta modificação intensifica a esporulação e é particularmente útil para o subcultivo de fungos cuja identificação pode ser difícil devido ao escasso desenvolvimento das estruturas de frutificação características.
Composição tradicional do Ágar Sabouraud:
- Ágar Sabouraud Glicose
- Dextrose (glicose) - 40g
- Peptona - 10g
- Ágar - 15g
- Água destilada - 1L
- pH = 5,6
Meios Seletivos:
- Adiciona-se antibiótico (penicilina - 20 U/mL, estreptomicina - 40 U/mL, gentamicina - 5 µg/mL, cloranfenicol - 16 µL/mL) a um meio basal não seletivo, a fim de inibir a contaminação bacteriana.
- Adição de cicloheximida (Actidione): 0,5 mg/mL, para impedir o crescimento de alguns bolores de crescimento mais rápido, que contaminam os meios. Porém, alguns fungos patogênicos como C. neoformans e A. fumigatus podem ser parcial ou totalmente inibidos pela cicloheximida.