O Boom Latino-Americano: Características e Pós-Boom
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O Boom Latino-Americano
O Boom na narrativa latino-americana. Os escritores passaram do anonimato absoluto à popularidade desde 1962, contribuindo para o desenvolvimento surpreendente da narrativa latino-americana, até então marginalizada e desconhecida.
1962 e 1963 são datas importantes no nascimento e desenvolvimento desse fenômeno. O "boom" surgiu com a industrialização pesada do setor editorial na América do Sul e foi influenciado por escritores e intelectuais espanhóis exilados.
Os autores do boom revolucionaram a linguagem para revolucionar a sociedade. Características distintivas desta narrativa são:
- A preocupação com estruturas narrativas complexas (influenciada pela ficção norte-americana ou autores europeus como James Joyce). A estrutura labiríntica reflete uma visão do mundo: a visão da realidade do homem moderno é fragmentada, caleidoscópica, quase sempre percebida de forma distorcida, razão pela qual os autores deste movimento preferem estruturas narrativas, por vezes labirínticas (quebra temporal, narrativa polifônica, o monólogo interior). É longe do realismo dos romances anteriores (sobre a Índia, a Revolução Mexicana, etc.). Apesar de destacar os romances históricos e sociais, que aprofundam as questões nacionais, o fazem a partir de novas perspectivas (que distorcem a história, recorrem ao humor ou usam frequentemente linguagem erótica, jornal ou televisão, música pop, relatórios militares, etc.).
- Sua grande preocupação é a língua da fala. Misturam um registro local com uma identidade mais universal e cosmopolita. Isto não é um espelho para representar o discurso indígena ou mestiço, mas sim dar-lhes uma dimensão que transcende as fronteiras nacionais. Permite-lhes também o conhecimento de sua linguagem. Por outro lado, a linguagem não deve propor ordem, mas a desordem; é um elemento subversivo de rebelião contra a retórica acadêmica burguesa.
- A novela nos anos recentes também reflete sobre a criação literária. Em Cem Anos de Solidão, o manuscrito de Melquíades é a origem do romance posterior; em A Casa dos Espíritos serão "os cadernos para registrar a vida", assunto sobre o qual se constrói a história.
Uma das novas contribuições que a nova narrativa deve receber é da psicanálise: em muitos casos, como geralmente acontece nos grandes romances do século XX, os romances são verdadeiras radiografias dos males da humanidade. Sonhos, desejos ocultos, fobias ou repressão aparecem como elementos constitutivos dos personagens.
O Pós-Boom e a Narrativa Hispano-Americana no Fim do Século XX
Se por um instante houve medo, após o boom, da falta de novos narradores, a produção das duas últimas décadas do século XX tem dissipado esse temor. Autores de reconhecido valor literário como Mempo Giardinelli, Luis Sepúlveda, Laura Esquivel, Antonio Skármeta ou Isabel Allende confirmaram a força da nova narrativa.
O último quarto de século viu mudanças importantes na Europa (queda do Muro de Berlim, o colapso do império soviético e da ideologia comunista) e na América do Sul (queda de Pinochet no Chile, o colapso do Sendero Luminoso no Peru e da revolução sandinista na Nicarágua, as intervenções dos EUA no Caribe, etc.).
O exposto acima influenciou a literatura e, especificamente, a narrativa, com ênfase na paixão dos roteiristas americanos. Muitos dos escritores, devido ao advento da ditadura militar, refugiaram-se em outros países. A tragédia do intelectual é recorrente na América Latina.
Algumas características da literatura do último quarto de século, que foi denominada "narrativa do pós-boom", são:
- É uma literatura de forma mais realista, fugindo dos elementos de vanguarda e concentrando-se na vida cotidiana, especialmente nas cidades, e nos personagens envolvidos em conflitos que, em muitos casos, estão relacionados com a política e a injustiça social.
- Chama a atenção a enorme vitalidade da escrita feminina (Laura Esquivel, Ángeles Mastretta, Cristina Peri Rossi ou a própria Isabel Allende, entre outras) e a importância do feminino na literatura recente. Muitas protagonistas vitalistas são mulheres, corajosas, lutando contra a estrutura social e familiar baseada no paternalismo e no poder masculino.
- É importante a recorrência da memória e o uso de experiências históricas e autobiográficas que servem para denunciar as injustiças sociais e políticas que ocorreram nos regimes ditatoriais hispano-americanos, muitas vezes.
- O amor e o humor e uma visão otimista da vida cotidiana, que desconfia dos sonhos utópicos do futuro, são típicos desta nova narrativa.
- Houve uma abordagem interessante à expressão popular dos diferentes países em termos de linguagem; por outro lado, os autores fazem uso da rica mistura de citações e expressões em inglês, em um esforço de cosmopolitismo e intertextualidade ou referências a outros autores e obras em seus textos.
Realismo Mágico e A Casa dos Espíritos
Esta corrente surge devido ao desgaste do romance realista do início do século da América Latina e à necessidade de enfrentar os regimes ditatoriais na América Latina através da palavra.
Origem
A cultura latino-americana possui uma tradição associada a grandes eventos e seres fantásticos:
A outra fonte do "realismo mágico" vem da Europa. Os autores deste movimento retiraram da vanguarda (especialmente do surrealismo) a ideia de que a realidade pode ser percebida e compreendida por outros meios que não a razão e a lógica. Proclamam a existência de outro tipo de realidade a que se acede a partir do inconsciente, ou seja, do sonho ou da alucinação.
Características
Ambientes sobrenaturais trabalham sem se afastar dos nativos. Isso exige "distorcer" a realidade: os lugares, pessoas e acontecimentos são reconhecíveis, mas o narrador apresenta elementos surpreendentes na história que não tenta esclarecer logicamente. O estranho é incorporado à vida cotidiana de forma natural. Aparições fantasmagóricas, clarividência e sonhos premonitórios convivem com o cotidiano.
Através da fantasia, o realismo mágico é capaz de expressar muitos dos elementos da cultura hispânica, como certas crenças populares e superstições. Por outro lado, começa a ver-se neste movimento a possibilidade de libertar a criatividade e renovar o gênero.
A avaliação dos elementos inexplicáveis intuitivos, bem como a presença do sensorial ou o valor do sentimento como parte da percepção da realidade, ajuda a criar o ambiente "mágico", assim como o fato de conceber o tempo como cíclico, e não linear, o que permite que este se assemelhe ao passado ou reincidência. A morte de uma pessoa é considerada na maioria desses romances como uma continuação da vida, pois os personagens que morreram não só permanecem na memória viva, mas em muitos casos entram em contato com eles através de aparições e afetam grandemente a história deles.
Quanto às técnicas utilizadas pelo "realismo mágico", incluem-se:
- A quebra do tempo e do espaço: com a diversidade temporal, o leitor será responsável por ligar as partes, a variedade das perspectivas: diferentes pessoas narram combinando para dar a impressão de objetividade e credibilidade ao conhecer os fatos de diferentes perspectivas. Isto contrasta com os elementos mágicos e fantásticos, alguns credíveis, pois: "A diversidade e mistura de estilos e a combinação linguística dos registros há polifonia de vozes que representam diversos personagens e espaços (campo, cidade, região, o analfabetismo, etc.)".
- Dos recursos discutidos acima, mostra-se que o leitor deve participar ativamente e fazer um esforço para a recriação pessoal.
A Casa dos Espíritos: O Mítico-Lendário e o Sobrenatural
Em A Casa dos Espíritos, tudo está relacionado com o mítico-lendário, o sobrenatural e o puramente fantástico.
A figura mítica de Pedro é lendária em primeiro lugar. Sua referência à sabedoria antiga, às tradições e aos mitos da América Latina, ações como a de reduzir uma praga de formigas através da fala ou reconstruir o esqueleto de Esteban Trueba, que não teria sido conseguido através da medicina moderna. Nessa linha de tradição, também se pode destacar a marca de nascença de Alba, um sinal de bom presságio, ou a figura de Barrabás, descrito como um animal quase mítico, assim como a presença do sobrenatural é evidente no cumprimento de profecias, premonições, em que se materializam as maldições. Splint, irmã de Estevão. Primeiro, por sua profecia, que prevê a redução física de seu irmão. A segunda aparece como um espírito, que se relaciona com tudo o que é sobrenatural presente na obra sobre Clara del Valle, com o assombro de espíritos, suas premonições, que podem mover objetos (telecinesia), inclusive levitar. Talvez a visão mais exótica seja a que a cabeça tem que encontrar sua mãe (que morreu em um acidente). Clara, com seus cadernos para registrar a vida após a morte de Rosa, entra em um silêncio que continuou a ser interrompido por outra parte de suas premonições: seu casamento. Tudo isso justifica o título do romance e faz o leitor acreditar na presença de espíritos com a mesma normalidade que os próprios personagens.
Fantástico são alguns padrões que se repetem na família Trueba: a "Beleza de Cabelos Verdes", branca, lisa, sem rugas, como uma boneca de porcelana com cabelos verdes e olhos amarelos", que se dizia que "tinha alguns peixes" e bordados de animais que "desafiavam as leis da biologia.