Características e Patogenia de Clostridium, Bacillus e Mycoplasma
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Clostridium: Características e Espécies Patogênicas
Características Gerais: Bacilos Gram-positivos, esporulados, anaeróbios estritos, microrganismos de solo.
Espécies Patogênicas: C. perfringens, C. tetani, C. difficile, C. botulinum.
Diferenciação das Espécies: Aparência da colônia, forma e posição dos esporos, motilidade, testes bioquímicos e produção de toxinas.
Clostridium Perfringens (C. welchii)
- Aerotolerante por até 72 horas.
- Imóvel e hemolítico.
- Localização: Solo, intestino, trato genital feminino e pele. Causa gangrena gasosa em feridas de guerra.
Patogenia e Virulência
Produz grande quantidade de toxinas e enzimas extracelulares. Existem 5 tipos de cepas (A a E).
Toxinas:
- Alfa: Lesa hemácias, leucócitos, plaquetas e endotélio, causando hemólise, sangramento e destruição tecidual.
- Beta: Causa extravasamento vascular e enterite necrosante.
- Delta: Lisa hemácias.
- Teta: Causa hemólise, edema pulmonar e arritmias cardíacas.
- Enterotoxina: Causa perda de líquidos (diarreia).
Enzimas:
Auxiliam na disseminação rápida da bactéria.
Diagnóstico
- Microscopia: Gram, esporos terminais ou subterminais (podem corar poucos).
- Material: Líquidos, tecidos, swabs.
- Meio de Cultivo: Anaerobiose, ágar sangue, caldo carne ou caldo tioglicolato.
- Bioquímica: Fermentação de açúcares (5 tipos), redução de nitrato.
Sintomatologia
Gangrena (pele, músculos), morte rápida, intoxicação alimentar, enterite necrosante.
Clostridium Tetani
- Bacilo grande, anaeróbio, esporos terminais.
- Encontrado no solo. Causa o tétano através de toxina.
Patogenia
Produz tetanospasmina (toxina termolábil) que se liga às membranas dos nervos periféricos, bloqueando a liberação de neurotransmissores inibidores, resultando em paralisia espasmódica. A tetanolisina aumenta localmente a necrose tecidual, intensificando a esporulação e a propagação da infecção.
Sintomatologia
Rigidez muscular progressiva, espasmos, paralisia espástica, trismo (riso sardônico), dorso arqueado. O Sistema Nervoso Autônomo (SNA) pode causar salivação, sudorese, aumento da pressão arterial e espasmos laríngeos ou da glote, levando à morte.
Diagnóstico
- Pode ser isolado de feridas infectadas, mas sem liberação de toxinas.
- Não é invasivo (multiplica-se na ferida).
- A bactéria pode não ser encontrada na ferida.
- Pode ser encontrado no cordão umbilical (tétano neonatal).
Controle
Imunização com toxoide tetânico (toxina cujo efeito tóxico foi inativado, mas mantém a característica imunogênica e antigênica).
Clostridium Botulinum
- Esporulado (esporos ovais - subterminais ou centrais), móvel.
- Produz sete tipos de toxina botulínica (A a G); os tipos A, B, E e F causam doença em humanos.
Patogenia
Intoxicação por toxina termolábil. A toxina liga-se aos nervos colinérgicos, bloqueando a liberação da acetilcolina e, consequentemente, a neurotransmissão.
Clostridium Difficile
- Parte normal da flora intestinal (crianças e alguns adultos).
- Os esporos persistem em hospitais e outros ambientes.
Patogenia
Produz enterotoxina (toxina A), que causa diarreia hemorrágica, e citotoxina (citopática).
Sintomas do Botulismo (Relacionados à Toxina Botulínica)
Visão dupla e/ou embaçada, pálpebras caídas, fala difícil, dificuldade de deglutição, boca seca e fraqueza muscular. Crianças com botulismo ficam letárgicas, alimentam-se mal, têm intestino preso e choro fraco, com músculos relaxados. Se não houver tratamento, pode ocorrer paralisia dos braços, pernas, tórax e músculos respiratórios. No botulismo alimentar, os sintomas surgem entre 18 e 36 horas após a ingestão, mas podem variar de 6 horas a 10 dias. Diarreia que agrava com antibióticos.
Diagnóstico (C. Difficile)
- Isolamento em fezes (culturas anaeróbias) contendo antibióticos.
- Diagnóstico clínico.
- Detecção da toxina em camundongos.
- Crescimento da bactéria a 80°C por 10 minutos.
Bacillus: Características e Espécies
Características Gerais
Bastonetes, aeróbios (anaeróbios facultativos), esporulados. Inclui B. anthracis e B. cereus.
Bacillus Anthracis
Zoonose, causador do Anthrax, que se manifesta em humanos de três formas clínicas: cutânea, gastrointestinal e respiratória, podendo ser letal. Animais são infectados pela ingestão de esporos no solo ou alimentos. Humanos se infectam pela ingestão de carnes contaminadas, exposição a carcaças, pele, lã, pelos contaminados ou inalação dos esporos.
Arma Biológica
Devido à alta resistência, fácil reprodução, baixo custo e grande poder de infecciosidade, foi estudado como arma biológica desde o início do século XX. Foi usado com esse propósito na II Guerra Mundial, e a destruição de instalações de estocagem foi um objetivo na Guerra do Golfo (1991). Em 2001, esporos foram enviados a dirigentes nos EUA como ato de bioterrorismo.
Diagnóstico Clínico
Lesões típicas como úlceras não dolorosas que se apresentam como uma cicatriz necrótica escura (pústula maligna), podendo progredir para bacteremia e morte. Pneumonia específica (antrax pulmonar) pela inalação de esporos (alto risco em selecionadores de lã de carneiro).
Diagnóstico Laboratorial
- Bacterioscopia: Identifica bacilo Gram-positivo.
- Cultura: Isolamento do Bacillus anthracis.
- Técnicas de imunodiagnóstico e testes rápidos (PCR).
- Culturas de líquido ascítico, derrames pleurais, líquido cefalorraquidiano (em caso de meningite) e fluido da escara (não recomendado por risco de disseminação).
Bacillus Cereus
- Facultativamente aeróbico, formador de esporos.
- Produtor de duas toxinas: diarreica (termo-lábil) e emética (termo-estável).
- Frequente no solo e meio ambiente, encontrado em baixos níveis em alimentos crus, secos ou processados.
Transmissão
Ingestão de alimentos mantidos em temperatura ambiente por longo tempo após cozidos, permitindo a multiplicação dos organismos. Surtos com vômitos predominantes são mais associados ao arroz cozido que permaneceu em temperatura ambiente.
Diagnóstico
- Isolamento das cepas do mesmo sorotipo do alimento suspeito e das fezes/vômitos dos pacientes.
- Isolamento de grande quantidade do sorotipo (geralmente > 105 por grama do alimento incriminado).
- Determinação da enterotoxigenicidade por testes sorológicos (toxina diarreica) ou biológicos (emética e diarreica).
- O rápido início dos sintomas na forma emética, com evidência de intoxicação alimentar, é frequentemente suficiente para o diagnóstico.
Controle
- Notificação de Surtos: Ocorrência de 2 ou mais casos requer notificação imediata às autoridades de vigilância epidemiológica.
- Medidas Preventivas: Educação para manipuladores de alimentos e donas de casa. Alimentos cozidos não devem permanecer em temperatura ambiente, pois os esporos podem sobreviver à fervura, germinando e se multiplicando rapidamente. Sobras devem ser refrigeradas prontamente. Reaquecimento rápido e total do alimento ajuda a evitar a multiplicação dos microrganismos.
Mycoplasmas (PPLOs)
Denominação Comum: Gêneros Mycoplasma e Ureaplasma. Grupo único e complexo, frequentemente ignorado por laboratórios de diagnóstico devido ao baixo crescimento, exigência de meios específicos (fastidiosos), falta de meios comerciais e ausência de procedimentos rápidos.
Tamanho: Cerca de 0,15 µm - 0,3 µm.
Evolução: Há discussão se evoluíram de micoplasmas primitivos ou se são estirpes separadas. Alguns sugerem evolução a partir de vírus.
Características Morfológicas e Fisiológicas
- Forma Variada: Cocobacilo, anel, glóbulos e pequenos elementos.
- Imóveis.
- Coram mal pelo Gram (considerados Gram-negativos). Coram-se pelo Giemsa.
- Aeróbios, anaeróbios facultativos.
- Necessitam colesterol para crescimento.
Diferença Principal em Relação às Bactérias
As bactérias possuem parede celular sólida; os micoplasmas possuem apenas uma membrana flexível. Isso, somado ao tamanho reduzido, dificulta a identificação, mesmo ao microscópio eletrônico.
- Não são sensíveis a penicilinas.
- Sensíveis a tetraciclinas.
- Presença de estirpes com crescimento semelhante a micélios de fungos (origem do termo micoplasma).
Habitat
Comensais de mucosas respiratória, digestória e urogenital (animais e humanos). Contaminantes em culturas de tecidos. Saprófitos em dejetos (esgoto). Encontrados em articulações e glândulas mamárias de animais.
Infecção
Contato entre animais e ovo.
Cultivo
- Meios PPLO sólido e líquido. Inocula-se em meio líquido e, após 3-7 dias, transfere-se para meio sólido.
- Temperatura: 37°C por 7 dias. Algumas amostras requerem jarra com vela.
- As colônias têm aparência de ovo frito.
Material Diagnóstico
Leite, swabs, tecidos (cornetos nasais ou articulações). Diagnóstico por imunofluorescência e ELISA.
Bioquímica
Fermentam glicose, hidrolisam arginina e causam hemólise.
Patogenia e Doenças Associadas
Os micoplasmas podem viver dentro ou fora das células hospedeiras. São responsáveis por doenças como artrite reumatóide, inflamações alérgicas, pneumonia atípica e outras. Há suspeita de ligação com doenças do sistema imunitário, como diabetes e esclerose múltipla.
- M. hyopneumoniae: pneumonia em suínos.
- M. hyorhinis: poliartrite em leitões.
- M. mycoides: pleuropneumonia em bovinos.
- M. pneumoniae: pneumonia em humanos.
- M. gallisepticum: sinusite infecciosa em perus, doença respiratória crônica em galinhas e perus.
- M. synoviae: sinusite infecciosa de galinhas e perus.
Resistência
Conservação a -70°C em nitrogênio líquido, liofilização. Resistentes à penicilina.