A Crise do Parlamentarismo na Espanha (1917-1923)

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A Espanha, apesar de sua neutralidade na Primeira Guerra Mundial, enfrentou um período de profunda instabilidade política e social que culminou no colapso do sistema parlamentar liberal e na instauração de uma ditadura militar.

Impacto da Primeira Guerra Mundial na Espanha

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o governo de Eduardo Dato declarou neutralidade. Apesar da neutralidade política, os setores sociais estavam divididos em dois campos: aliadófilos e germanófilos. Essa divisão refletiu-se também nos partidos Conservador e Liberal. Essa neutralidade promoveu a expansão da economia: a Espanha fornecia aos países em guerra matérias-primas e produtos industriais. Enquanto a burguesia se enriquecia com os lucros da guerra, as classes trabalhadoras sofriam um declínio nos padrões de vida. Tudo isso levou a uma crescente agitação social e à ascensão do movimento operário, resultando em um grande número de greves importantes.

A Crise de 1917: Três Conflitos Simultâneos

No verão de 1917, a Restauração enfrentou três crises:

  • Crise Militar: As Juntas de Defesa

    A reforma militar visava modernizar o exército, reduzindo o número de oficiais, o que causou instabilidade militar. Esse descontentamento levou à formação de Juntas de Defesa pelos sindicatos militares. O governo, temendo um golpe de Estado por parte dos militares, pôs fim a essa reforma.

  • Crise Política: A Assembleia Parlamentar de Barcelona

    Cambo, líder da Lliga Regionalista, convocou senadores e deputados para uma Assembleia Parlamentar em Barcelona. Essa assembleia propunha a formação de um governo provisório e a realização de um Parlamento Constituinte para alterar a Constituição e aprovar a autonomia da Catalunha. Contudo, o apoio político limitado à Assembleia e a rejeição das Câmaras levaram à sua dissolução.

  • Crise Social: A Greve Geral de Agosto

    Em março de 1917, a UGT e a CNT decidiram convocar uma greve geral. A greve eclodiu em agosto, sendo mais intensa em Madrid, Barcelona, no País Basco e nas Astúrias. O exército disparou contra e prendeu os trabalhadores, reprimindo o movimento.

O Colapso do Sistema Parlamentar Liberal

Após a crise de 1917, houve uma grande instabilidade política. Governos fracos foram formados e tomaram medidas excepcionais, incluindo o fechamento das Cortes. Os partidos não dinásticos também tiveram seu auge: o Partido Socialista dividiu-se e formou o Partido Comunista da Espanha (PCE); os republicanos estavam enfraquecidos por divisões internas; e o nacionalismo catalão e basco exigia autonomia. A crise social favoreceu o crescimento dos sindicatos, aumentando o número de filiados. Isso levou os empregadores a formar sindicatos livres para combatê-los, demitindo trabalhadores e fechando fábricas.

Agitação Social: Triênio Bolchevique e Greve da Canadense

Na Andaluzia, os camponeses, que denunciavam suas condições de vida miseráveis, formaram o Triênio Bolchevique. Essa revolta camponesa abriu caminho para um movimento sindical, liderado pela CNT e pela UGT. O governo declarou guerra a essa revolta, pondo fim a essa revolução social. Esse conflito camponês coincidiu com um grande conflito social em Barcelona: a Greve da Canadense. A Canadense era uma empresa de energia em Barcelona que deixou a cidade sem eletricidade durante 44 dias. Foi a greve mais importante da história operária espanhola. O governo negociou e aprovou: a redução da jornada de trabalho para 8 horas, melhores salários e a reintegração dos demitidos. No entanto, as autoridades militares não quiseram liberar os detidos, e a CNT declarou uma nova greve geral. Os empregadores responderam com o fechamento de empresas e a contratação de pistoleiros para eliminar o anarcossindicalismo. O governo declarou então estado de guerra.

O Desastre de Annual e o Golpe de Primo de Rivera

Mas foi em Marrocos onde ocorreu a crise mais grave. Durante a Primeira Guerra Mundial, as operações coloniais em Marrocos foram interrompidas, mas após a guerra, a ocupação do território foi retomada. O general Berenguer iniciou a ocupação, e o general Silvestre não conseguiu avançar no Rif, resultando no cerco das tropas espanholas no Desastre de Annual. Silvestre foi destituído e fugiu para Melilla, abandonando a área que havia sido ocupada. A tragédia do Desastre de Annual teve grandes consequências políticas e gerou responsabilidades. O governo nomeou então uma comissão chefiada pelo General Picasso. A comissão atribuiu responsabilidades pelo desastre, inclusive ao rei. Antes que o relatório da comissão chegasse às Cortes Gerais, Primo de Rivera liderou um golpe de Estado, impondo uma ditadura militar.

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