Cultura: Um Conceito Antropológico de Roque Laraia
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O livro “Cultura: um conceito antropológico”, de Roque de Barros Laraia, professor emérito da UnB, é uma obra clássica, publicada pela primeira vez em 1986 pela Editora Jorge Zahar. O autor principia com uma breve apresentação, na qual situa o leitor quanto ao seu objetivo: tratar o conceito antropológico de cultura.
Laraia decompõe sua obra em duas partes:
- Primeira parte: refere-se ao desenvolvimento do conceito de cultura a partir das manifestações iluministas até os autores modernos.
- Segunda parte: procura demonstrar como a cultura influencia o comportamento social e diversifica a humanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica.
A Origem e o Conceito de Cultura
Desde a Antiguidade, os homens se preocupavam com a diversidade de modos de comportamento entre os povos. Para Laraia, tanto o determinismo geográfico quanto o biológico são incapazes de explicar tais diferenças. Segundo o antropólogo, o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, processo denominado endoculturação. Ou seja, o comportamento humano é fruto de uma educação diferenciada, e não de hormônios.
Conforme Laraia, a primeira definição de cultura sob o ponto de vista antropológico pertence a Edward Tylor, em Primitive Culture (1871). Tylor definiu cultura como todo comportamento aprendido, independente de transmissão genética, permitindo um estudo sistemático e objetivo do fenômeno.
A Evolução do Pensamento Antropológico
No que se refere à origem da cultura, Laraia cita diversos autores:
- Claude Lévi-Strauss: considera que a cultura surgiu com a primeira norma, a proibição do incesto.
- Leslie White: defende que a passagem do estado animal para o humano ocorreu com a capacidade de gerar símbolos.
O conhecimento científico atual entende que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e lento, desenvolvendo-se simultaneamente ao equipamento fisiológico do homem.
Cultura, Etnocentrismo e Dinâmica Social
Na segunda parte do livro, o autor discute como indivíduos de culturas diferentes veem o mundo de maneiras distintas. O fato de o homem ver o mundo através de sua cultura pode levá-lo ao etnocentrismo, que, em casos extremos, gera conflitos sociais ao classificar padrões alheios como inferiores ou imorais.
Laraia também aborda a apatia como reação oposta ao etnocentrismo, citando o exemplo de escravizados que, ao serem removidos de seu contexto cultural, perdiam a motivação para viver (o chamado "banzo"). Além disso, o autor destaca a influência da cultura em doenças psicossomáticas e na eficácia de curas.
A Dinâmica da Cultura
Para concluir, o autor discute a dinâmica cultural. Os homens questionam seus hábitos e os modificam ao longo do tempo. Existem dois tipos de mudança cultural:
- Mudança interna: mais lenta, resultante da dinâmica do próprio sistema.
- Aculturação: resultado do contato entre dois ou mais sistemas culturais, comum em grandes metrópoles.