Descartes: Substância, Dualismo e a Dúvida Metódica

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A Teoria da Substância em Descartes

Para René Descartes, as substâncias são definidas como algo que existe de tal forma que não necessita de qualquer outra coisa para existir. Ele distingue três tipos de substâncias:

  • A) Espiritual ou Pensamento:
    • Infinito: Deus. Não possui partes, por isso é infinito.
    • Finito: A alma, uma substância espiritual, porém finita.
  • B) Substância Material ou Extensiva.

O objetivo último de Descartes foi salvaguardar a autonomia da alma em relação à matéria. A ciência clássica institui uma concepção mecanicista e determinista do mundo material, na qual não há lugar para a liberdade. A liberdade só poderia ser preservada subtraindo a alma da necessidade mecanicista, o que exigia posicioná-la como uma esfera de realidade autônoma e independente da matéria.

Esta independência entre mente e corpo é a ideia central fornecida pela noção cartesiana de substância. A autonomia da alma em relação à matéria justifica-se pela clareza e distinção com que o intelecto percebe a independência de ambas. Sobre as relações entre alma e corpo, Descartes afirma que ambos se comunicam através da glândula pineal por meio dos espíritos animais.

A Dúvida e a Primeira Verdade

Na quarta parte do Discurso do Método, Descartes apresenta a dúvida metódica. O entendimento busca encontrar, dentro de si, as verdades básicas das quais seja possível deduzir todo o edifício do conhecimento humano. Este ponto de partida deve ser uma verdade absolutamente certa, da qual não seja possível duvidar.

A tarefa de encontrar um ponto de partida absolutamente certo requer eliminar todo o conhecimento, ideias e crenças que não apareçam dotados de certeza absoluta: é necessário afastar tudo o que for passível de dúvida. Assim, começa-se com a dúvida, que é estritamente metódica e uma exigência do método analítico.

Razões para a dúvida:

  1. As falácias dos sentidos: Os sentidos às vezes nos enganam; logo, nunca poderiam ser totalmente confiáveis.
  2. A impossibilidade de distinguir a vigília do sono: Pode ser que tudo o que conhecemos seja apenas um sonho.
  3. Erros de raciocínio: Há momentos em que nos enganamos ao argumentar; portanto, como a razão pode cometer erros, o raciocínio é passível de dúvida.
  4. A hipótese do Gênio Maligno: Talvez haja um espírito maligno de extrema força e inteligência que faz todos os esforços para nos induzir ao erro. Esta hipótese supõe que a mente humana pode estar errada mesmo quando pretende captar a verdade.

A Primeira Verdade e o Critério de Certeza

A dúvida parece fadada ao ceticismo, mas Descartes encontra uma verdade absoluta e imune a qualquer dúvida radical: a própria existência do sujeito que pensa e duvida. Se eu penso que o mundo existe, posso estar errado sobre a existência do mundo, mas não há erro no fato de que eu penso.

A minha existência como sujeito pensante está livre de erros ou dúvidas: "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum). O pensamento próprio não é apenas a primeira verdade, mas o protótipo de toda verdade e certeza, pois é percebido com clareza e distinção. O que for percebido com igual clareza será verdadeiro, definindo a regra geral de que o que percebemos clara e distintamente é verdade.

Ideias, Objeto do Pensamento:

  1. Já possuímos uma verdade absoluta: a existência do "eu" como sujeito pensante. A existência indubitável de si mesmo parece não implicar, inicialmente, a existência de qualquer outra realidade.
  2. É necessário inferir a existência da realidade a partir da existência do pensamento. O "eu penso" permite recuperar o conhecimento, inclusive da existência de uma realidade extra-mental.

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