Desobediência na Sala de Aula: Reflexões e Práticas

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Este artigo tem como objetivo abordar uma reflexão sobre a Desobediência presente na sala de aula, que tem sido uma das maiores preocupações existentes entre os educadores, sendo na maioria das vezes associada ao desrespeito ao direito do outro, à falta de limites e à desordem. O trabalho foi elaborado por meio da experiência vivenciada na disciplina de estágio supervisionado, do curso de Letras Inglês da Universidade Estadual de Maringá, por meio do qual foram realizados estágios de observação, participação e regência, sendo possível observar a realidade da escola pública e o dia a dia de uma sala de aula. É de fundamental importância analisar a compreensão de Desobediência, os motivos que levam à desobediência dos alunos, a desmotivação no ensino-aprendizagem e as possíveis maneiras de contê-la. O estágio é indispensável para a formação profissional; é o momento de construir conhecimentos que promovam melhorias educacionais.


Palavras-chave: Estágio Supervisionado. Desobediência. Práticas Pedagógicas.


ABSTRACT


This article aims to approach a reflection about indiscipline present in the classroom that has been one of the greatest concerns among educators, which is most often associated with disrespect to the rights of others, lack of limits, and disorder. The work was elaborated through the experience of supervised traineeship in the English Language course at the State University of Maringá, through which observation, participation, and regency stages were conducted, making it possible to observe the reality of the public school day-to-day in a classroom. It is of fundamental importance to analyze the concept of indiscipline, the reasons that lead to the indiscipline of students, the demotivation in teaching-learning, and the possible ways to contain it. The stage is essential for professional formation; it is the moment to build knowledge that promotes educational improvements.


Keywords: Supervised traineeship. Indiscipline. Pedagogical practices.


1. INTRODUÇÃO


A Desobediência é um dos maiores bloqueios enfrentados pelos educadores na atualidade, causando grande angústia em boa parte do corpo docente que não sabe lidar muito bem com a condição.
O artigo tem como objetivo analisar o problema da desobediência enfrentada no dia a dia da sala de aula, relacionando-a com suas possíveis causas, sua compreensão e evidenciando algumas possíveis soluções para as questões relacionadas ao tema. O tema escolhido surgiu por meio da observação vivenciada nas escolas públicas durante o estágio supervisionado, permitindo traçar um paralelo a respeito da realidade educacional e dos desafios que contornam o processo de ensino-aprendizagem.
Uma das principais denúncias dos profissionais da educação foi a desobediência, o que cooperou na escolha do tema abordado e na necessidade de investigar e analisar o problema em questão, tendo como finalidade buscar possíveis soluções interventivas, promovendo uma melhoria no setor educacional e auxiliando para uma melhor aprendizagem.
Para a produção do trabalho, foi utilizada a metodologia qualitativa, que envolve a obtenção de dados descritivos da condição estudada; a pesquisa bibliográfica é indispensável para a análise do tema.
Bogdan e Biklen (1994) mencionam que os dados são interpretados e não simplesmente enumerados. Analisam os dados em toda a sua riqueza, respeitando-se, tanto quanto possível, os dados quantitativos por meio de reflexões sobre relações, sequências e explicações.
A desobediência é um dos problemas que mais afetam a escola, prejudicando o rendimento escolar, a formação do cidadão e a sociedade em geral, pois a desobediência de hoje afetará a sociedade de amanhã de uma maneira extremamente negativa.
É necessário um maior engajamento em busca de alternativas e intervenções contra a desobediência na sala de aula, auxiliando transformações no interior da escola, pois o desobediente de hoje será o adulto de amanhã. Aprender a respeitar e saber onde o seu direito acaba e começa o do outro é fundamental para um bom convívio em sociedade.


2. COMPREENSÃO DA DESOBEDIÊNCIA


A desobediência é um desafio para os educadores, pois prejudica o andamento das aulas, o ensino-aprendizagem e influencia no comportamento dos alunos.
Encontramos no dicionário de Língua Portuguesa Aurélio os seguintes significados atribuídos à palavra desobediência: "Procedimento, ato ou dito contrário à disciplina" (2001, p. 414), sendo que o conceito de disciplina é definido como: "1. Regime de ordem imposta ou mesmo consentida. 2. Ordem que convém ao bom funcionamento de uma organização. 3. Relações de subordinação do aluno ao mestre. 4. Submissão a um regulamento. 5. Qualquer ramo do conhecimento. 6. Matéria de ensino" (2001, p. 258).
Aquino (1996) esclarece que a compreensão de desobediência, como toda criação cultural, não é estática, uniforme, nem tampouco universal. Ela se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história, entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade.
Quanto a Antunes (2002), ele estatui que existem três características marcantes relevantes para definir uma classe indisciplinada: uma sala desobediente não tem condições para que um professor desenvolva o processo de auxílio na construção do conhecimento do aluno; esta mesma sala não permite ao professor despertar no aluno suas potencialidades para cidadania e trabalho; e, por último, não permite o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa, com vivências geradoras de atitudes aceitas socialmente.
Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008, p. 275), a desobediência está relacionada ao não cumprimento das regras postas pela escola como necessárias ao seu bom funcionamento. Os autores também evidenciam que um clima de participação e interesse em sala de aula não pode ser confundido com desobediência.
As experiências de estágio permitiram conhecer e adentrar no universo escolar; as observações confirmaram a função social que a escola desempenha e a nítida preocupação com os aspectos de instrução formal. Também foi observado que ainda existem muitos profissionais da área da educação utilizando práticas pedagógicas tradicionais.
Cabendo à escola selecionar o conteúdo a ser ministrado e transferido aos alunos, ela tem grande importância no processo de desenvolvimento e evolução da sociedade, pois forma cidadãos; nesse sentido, podemos mencionar que ela vai ao encontro das necessidades sociais.


3. CAUSAS DA DESOBEDIÊNCIA


Há inúmeros motivos que podem ser relacionados à desobediência na sala de aula, tais como: problemas familiares, excessiva proteção dos pais, carências sociais, influência de ídolos violentos, imaturidade, distúrbios fisiológicos ou emocionais, etc.
Tiba (1996) atribui que é o distúrbio de autoestima que depende, inicialmente, do amor dos pais e leva à perda de limites, autodesvalorização, excesso de autoestima, ego murcho, enfim, problemas que refletem na falta de respeito e na desobediência na sala de aula.
A desobediência constitui uma grande barreira à aprendizagem, prejudicando muito a qualidade do ensino e o andamento pedagógico.
A pesquisa utilizada como referência nesse trabalho foi elaborada por Caeiro e Delgado (2005) em escolas localizadas na península de Setúbal, Portugal, no ano letivo de 2002-2003, e contou com a participação de alunos e professores.


QUADRO 01: Opiniões sobre as causas da desobediência

Categoria (Professores)Opinião dos ProfessoresCategoria (Alunos)Opinião dos Alunos
Ambiente FamiliarDesajuste familiar; indiferença dos pais.Relação com a FamíliaMau ambiente em casa; falta de diálogo sobre problemas.
Relação PedagógicaRepreensões constantes; falta de diálogo; aulas monótonas; falta de regras.Relação com ProfessoresNão gostar do professor/matéria; injustiça; aula mal preparada.
Fatores SociaisDescrença em valores morais; programas de TV.Relação com ParesColegas inventarem coisas; brincadeiras excessivas.
Fatores EscolaresDesinteresse pela escola; influência de líderes; furos no horário.Relação Consigo PróprioEstar mal disposto ou aborrecido; desajuste familiar.


Percebe-se, a partir da pesquisa, que os alunos têm noção do que vem a ser um comportamento desobediente e como isso afeta o ensino. Nota-se também uma crítica dos alunos com relação ao trabalho pedagógico: uma aula mal planejada contribui para comportamentos indisciplinados.
Caeiro e Delgado (2005) clarificam que, entre os professores, destaca-se a necessidade de preservar os valores morais, em alusão ao trabalho a ser desempenhado pela família.
Para Aquino (1996), os problemas possuem ligação com a adolescência, as diferenças de valores da sociedade neoliberal, a falta de entendimento de que a demanda escolar mudou e a influência dos meios de comunicação, que trazem uma perda do sentido das regras.
Vasconcellos (1995) salienta que o professor é um dos principais agentes de mudanças da disciplina por estar em contato direto com os alunos e ser o profissional interessado em resolver o desgaste que sofre.
Como observado, as causas são inúmeras, e os professores enfrentam dificuldades, ficando estressados e doentes, sem saber se ensinam ou se mantêm a disciplina. Vasconcelos (2001) preconiza que o estresse e o sentimento de ineficiência gerados pelo ambiente indisciplinado têm provocado frustração e desejo de abandonar a profissão.
Durante o estágio, observou-se que a escola identifica o problema, mas muitas vezes não está preparada para lidar com ele, tornando o aluno o único responsável. É necessário que professores e família trabalhem em conjunto em prol da qualidade da educação.


3.1. DESOBEDIÊNCIA E A PRÁTICA PEDAGÓGICA


A desobediência escolar não é um fenômeno estático. De acordo com Garcia (1999), ela se diferencia das observadas em décadas anteriores. É importante mencionar que a Constituição Federal (Art. 227) estabelece como dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente o direito à educação.
As normas disciplinares do Regimento Escolar devem ter coerência com o projeto pedagógico e com a LDB nº 9.394/96, que prevê o pleno desenvolvimento do educando para o exercício da cidadania.
Martins (1997) evidencia que o reforço positivo é um modo sistemático que auxilia na aprendizagem e interação. Antunes (2002) destaca o elogio como estratégia importante para descobrir qualidades em alunos considerados difíceis.
Desta maneira, percebe-se que o reforço auxilia na modelagem do comportamento, constituindo uma poderosa ferramenta para a aprendizagem, proporcionando ao aluno maior confiança.


4. POSSÍVEIS INTERFERÊNCIAS PARA SOLUCIONAR OS PROBLEMAS


Uma das possíveis interferências pontua para a necessidade de a instituição adotar uma diretriz disciplinar ampla e preventiva, com regras claras. A escola deve ter um papel educativo ativo, integrando todos os agentes em discussões pedagógicas e de gestão.
É importante propiciar modificações no clima escolar através de atividades extracurriculares que valorizem o aluno. O ambiente deve ser humano, democrático, com diálogo e afetividade.
Procedimentos como manter os alunos ativos, usar apoios audiovisuais, reforços positivos e metodologias diferenciadas podem conter a desobediência. Outra interferência preventiva seria a adoção da modalidade de tutoria (Gotzens, 2003), zelando pela harmonia entre alunos, professores e pais.


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS


Este artigo possibilitou compreender melhor o problema da desobediência, que é um obstáculo à aprendizagem eficiente e um desafio aos professores. A raiz do problema relaciona-se a causas diversas, desde familiares até sociais e emocionais.
Alguns professores utilizam metodologias tradicionalistas, o que causa desinteresse. Trabalhar com mecanismos tecnológicos ou metodologias atuais pode resolver parte do problema. Verificou-se também a importância do reforço positivo na melhoria do comportamento e da confiança do aluno.
É necessário que o professor seja ativo e utilize instrumentos metodológicos que atraiam a atenção. A organização do ambiente e o planejamento que respeite o aluno refletem diretamente na aprendizagem. O objetivo da educação é formar cidadãos autônomos e críticos. Por fim, a família possui papel crucial, pois sua postura colabora para a transformação das atitudes dos alunos.


6. REFERÊNCIAS


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  • ANTUNES, C. Professor Bonzinho = Aluno Difícil: a questão da desobediência em sala de aula. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
  • BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. T. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2008.
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  • VASCONCELOS, Maria Lucia M. Carvalho. (In)disciplina, escola e contemporaneidade. São Paulo: Mackenzie, 2001.

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