A Ditadura de Primo de Rivera (1923-1930)
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As Causas do Golpe de Primo de Rivera
Desde 1917, a Espanha estava mergulhada em uma profunda crise econômica e social. Esse cenário, somado ao desprestígio e ao bloqueio do sistema constitucional, expôs o país ao perigo de uma revolução social. A decomposição do regime da Restauração ficou evidente com a instabilidade parlamentar crônica, a crescente oposição de nacionalistas e republicanos, e a divisão interna dos partidos dinásticos. Além disso, a crise dos sistemas parlamentares na Europa ocidental favoreceu a substituição destes por regimes autoritários ou ditatoriais como forma de conter a revolução social.
O perigo da revolução social na Espanha era visto pela oligarquia como uma ameaça real desde 1917. Isso era perceptível em Barcelona, onde o pistoleirismo prevalecia desde 1922 (região sob o comando do Capitão-General Miguel Primo de Rivera), e no campo, especialmente na Andaluzia, onde os anos de 1918 a 1920 ficaram conhecidos como o "Triênio Bolchevique".
Por fim, houve o papel provocador do Exército, inflamado desde a adoção da Lei de Jurisdições e pelo seu confronto com a sociedade civil. Esse descontentamento militar culminou com o Desastre de Annual e o subsequente inquérito parlamentar (o Relatório Picasso), cujas consequências graves alguns militares e o próprio rei Alfonso XIII tentaram evitar. O monarca adotou uma postura ambígua, acabando por consentir com a instauração da ditadura.
O Corporativismo e a Posição da UGT
A ditadura corporativa copiou algumas instituições da Itália fascista e de outros regimes autoritários, criando comissões mistas e a Organização Corporativa Nacional. No entanto, o caráter fascista do regime permaneceu superficial. O objetivo principal era resolver os conflitos sociais por meio de comissões mistas, que atuavam como órgãos de arbitragem paritária nas empresas para solucionar disputas trabalhistas. Essas comissões eram constituídas por dez membros: cinco representantes dos trabalhadores, cinco dos patrões e dois delegados do Ministério do Trabalho.
Para viabilizar o sistema, o ditador buscou a cooperação dos socialistas e dos Sindicatos Livres. Em contrapartida, os sindicatos de esquerda mais radicais, como a CNT e o PCE, foram proibidos e perseguidos. Os socialistas da UGT colaboraram por duas razões principais:
- Estratégia reformista: Uma postura moderada adotada após o fracasso da greve de 1917, visando obter melhorias imediatas para a classe trabalhadora.
- Monopólio sindical: A marginalização da CNT deixou a UGT sem concorrência no cenário sindical, embora essa colaboração tenha atraído duras críticas internas e externas.
A Política Econômica da Ditadura
A ditadura acentuou as tendências intervencionistas do capitalismo do início do século XX através de três pilares:
- Nacionalismo econômico: Fortalecido pela criação de monopólios estatais, como a CAMPSA (importação, refino e distribuição de petróleo, antes controlada por empresas estrangeiras) e a concessão do monopólio de telefonia (CTNE) e do tabaco, além da manutenção de políticas protecionistas.
- Fortalecimento da oligarquia financeira: Os grandes bancos privados continuaram a expandir sua influência e lucros.
- Desenvolvimento de infraestrutura: Investimentos maciços na construção de rodovias, expansão da rede ferroviária e planos de aproveitamento hidráulico, que impulsionaram a irrigação e a eletrificação (com destaque para a criação das Confederações Hidrográficas, idealizadas por Lorenzo Pardo).
Os anos da ditadura coincidiram com um período de crescimento econômico global (os Loucos Anos 20), impulsionado internamente pela geração de empregos nas obras públicas. Contudo, esse expansionismo agravou o déficit crônico das finanças públicas, multiplicando a dívida do Estado e desvalorizando a peseta. A chegada da Grande Depressão de 1929 revelou que a prosperidade econômica do regime era puramente conjuntural.
O Manifesto de Primo de Rivera e a Crise do Exército
O manifesto emitido por Primo de Rivera para justificar o golpe de Estado retratava a decadência nacional iniciada com o "Desastre de 1898" (perda das últimas colônias espanholas para os EUA). O documento destacava os seguintes problemas:
- Conflito social agudo: Assassinatos, roubos, indisciplina social e a propaganda comunista (com a fundação do PCE em 1921), focados principalmente em Barcelona e no campo andaluz durante o Triênio Bolchevique.
- A Questão de Marrocos: O clamor público após o Desastre de Annual e as tensões geradas pela apuração de responsabilidades no Relatório Picasso, que respingavam no Exército, no governo e na própria Coroa.
- Nacionalismos periféricos: O crescimento dos movimentos autonomistas na Catalunha e no País Basco após 1898, gerando forte atrito com os militares sob o amparo da Lei de Jurisdições.
Quem foi Miguel Primo de Rivera?
Miguel Primo de Rivera foi um militar e político espanhol que governou o país como chefe do Diretório Militar (1923-1925) e do Diretório Civil (1925-1930). Ele se autoproclamou o "cirurgião de ferro" teorizado por Joaquín Costa, governando com a total conivência do rei Alfonso XIII. A partir de 1929, iniciou-se o declínio da ditadura: o rei e o exército retiraram seu apoio ao regime diante do descontentamento geral e da reorganização das forças republicanas de oposição. Em janeiro de 1930, Primo de Rivera renunciou e exilou-se em Paris.
O Sistema Político Imposto Após o Golpe
O novo regime iniciou-se com um Diretório Militar que suspendeu a Constituição de 1876, dissolveu as Cortes, baniu os partidos políticos e sindicatos, e destituiu os representantes eleitos (deputados, prefeitos e vereadores). A repressão atingiu duramente a CNT, os nacionalistas bascos e catalães, a imprensa livre e os intelectuais.
Em 1925, o Diretório Militar foi substituído por um Diretório Civil, composto por figuras da direita conservadora, como José Calvo Sotelo. A tentativa de institucionalizar a ditadura sob um modelo corporativo e antidemocrático fracassou por dois motivos:
- A cópia superficial das instituições corporativas da Itália fascista não conseguiu criar raízes profundas.
- A União Patriótica, partido único fundado pelo ditador, nunca se tornou um partido de massas autêntico, limitando-se a atrair setores conservadores e clientelistas.
Além disso, a abolição da Mancomunidade da Catalunha e a proibição de símbolos culturais catalães (como a dança da sardana) radicalizaram o nacionalismo catalão (levando o grupo Estat Català, de Francesc Macià, a tentar uma insurreição armada) e isolaram a burguesia catalã moderada da Lliga Regionalista, que inicialmente apoiara o golpe.
O Protetorado Espanhol em Marrocos
A criação do Protetorado Espanhol na região do Rif (norte de Marrocos) foi definida na Conferência Internacional de Algeciras (1906). A conferência foi motivada pela desconfiança da Grã-Bretanha e da França em relação à expansão do Império Alemão no Norte da África. Assim, acordou-se que a França e a Espanha partilhariam a tutela sobre o território marroquino. A presença espanhola visava proteger as praças de soberania de Ceuta e Melilla, além de atender ao desejo de setores do Exército de recuperar o prestígio militar perdido em 1898.
O Impacto do Desastre de Annual
O Desastre de Annual (1921) aprofundou a crise final da Restauração. A tragédia militar unificou temporariamente as facções do Exército — antes divididas entre "abandonistas" (favoráveis a deixar Marrocos, posição inicial de Primo de Rivera) e "africanistas" (defensores da guerra) — em um sentimento de revolta contra a classe política, acusada de não fornecer os recursos necessários para a campanha militar. Esse ressentimento alimentou a rebelião militar contra o Parlamento, visto como incompetente, especialmente após a divulgação do Relatório Picasso.
O Desembarque de Alhucemas
O Desembarque de Alhucemas, realizado em 8 de setembro de 1925 na baía de Al Hoceima, foi uma operação militar conjunta do Exército e da Marinha da Espanha, com apoio de um contingente aliado francês, que decidiu o rumo da Guerra do Rif. É considerado o primeiro desembarque aeronaval com comando unificado da história militar, destacando-se pelo uso pioneiro de tanques de guerra em operações anfíbias e pelo apoio aéreo coordenado sob a liderança direta de Primo de Rivera.