Educação e Filosofia: Reflexões sobre Conhecimento e Formação Humana

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Falar sobre educação é falar sobre o conhecimento, como ele se constrói e como é compartilhado entre as pessoas. É falar das bases e dos princípios sobre os quais esse conhecimento foi construído e como foi se transformando entre as gerações, chegando mesmo a se confundir com a própria história do desenvolvimento do pensamento humano. Pois foi através desses conhecimentos, articulados pelo pensamento, que o homem conseguiu especular e tentar entender sua própria natureza, sua relação com os outros e com as coisas do meio e do universo, aspectos estes essenciais para a sua sobrevivência, convivência e transcendência na Terra. Ou seja, os aspectos epistemológicos da educação são os mesmos que envolvem a filosofia. Portanto, falar sobre educação é também falar sobre filosofia.

Ao longo dos tempos, a educação foi pensada e repensada sob todas as formas possíveis: à luz de ideais políticos, de utopias, das religiões, enfim, por razões e por sentidos mais diversos procedentes do pensamento humano. É considerada de suma importância para algumas sociedades e tratada com reserva em outras. Alguns a pensaram em um sentido lato, abrangendo todo conhecimento possível, caminho único para uma formação integral do homem. Houve aqueles que viram a educação como estratégia de entendimento racional, como via de desenvolvimento da consciência crítica, pré-requisito para uma formação ético-moral, enquanto outros focaram em possibilidades mais específicas, como desenvolver competências e habilidades técnico-científicas. Na verdade, estas são apenas algumas acepções acerca deste tema.

Ainda, sobre estes olhares, podemos distinguir outros conceitos intrínsecos à educação, tais como formação e instrução. Estes dois últimos também estão intimamente relacionados ao ato e às formas de conhecimentos, pois segundo a tradição pedagógica ocidental, tornaram-se o fim da educação2, daí o uso corriqueiro do termo educação para generalizar todos os processos de transmissão e aprendizagem da cultura de uma sociedade. Mas à frente, discutiremos mais profundamente sobre estas diferenças e o quanto elas podem influenciar nossas vidas. Por hora, lancemos nossos olhares sobre a relação educação e filosofia.

2 “[...] a transmissão das técnicas já adquiridas tem sobretudo a finalidade de possibilitar o aperfeiçoamento dessas técnicas através das iniciativas dos indivíduos. Nesse aspecto, a educação é definida não do ponto de vista da sociedade, mas do ponto de vista do indivíduo: a formação do indivíduo, sua cultura, tornam-se o fim da educação” (Dicionário de Filosofia, Nicola Abbagnano, 2007, p. 358, verbete Educação).

Certamente, muita coisa existe e se tem a dizer sobre a relação existente entre educação e filosofia, concepções consideradas boas ou ruins. Por exemplo: existe a ideia de que a filosofia é a área de conhecimento responsável por dar o suporte necessário, estabelecendo meios e fins ao desenvolvimento da educação, sendo esta a concepção mais usual dessa relação, considerada pelos estudiosos como uma relação saudável. Mas também existiu (e talvez ainda exista!) quem a visse como algo nocivo e prejudicial à sociedade.

Um bom exemplo desta segunda concepção aconteceu em uma realidade muito próxima a nós, quando os governos do Brasil, durante o regime militar (1964-1985), excluíram disciplinas como Filosofia e Sociologia dos currículos escolares. Essa iniciativa, aliada a tantas outras (repressão e terrorismo político), tinha o propósito de exterminar qualquer possibilidade de formação de uma sociedade com consciência crítica, esclarecida de suas condições humana, social, política e cultural, e acima de tudo, impedir a formação de sujeitos ativos, livres, emancipados.

Felizmente, o Brasil conseguiu se livrar desse processo tirânico e (talvez, infelizmente) caminhar na direção da nova ordem econômica, política, social e cultural que vinha acometendo o mundo. Esta nova ordem trazia de volta à sociedade brasileira, não só a possibilidade de uma nação realmente democrática, como também a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; o pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; respeito à liberdade e apreço à tolerância”3. Diante destes preceitos, era de se esperar que o setor da educação fosse um terreno fértil para brotar novamente o pensamento crítico da nossa sociedade.

Sobre este aspecto, muitos pensamentos e políticas públicas na área da educação – não só no Brasil, mas de maneira geral no mundo – nos falam e apresentam propostas de uma filosofia da educação, como pressupostos norteadores de atitudes, escolhas e valores, a serem assumidos pelo Estado e pelos profissionais da educação no decorrer de suas práticas escolares cotidianas. Concordamos que uma base filosófica pode até ser encontrada nos instrumentos que normatizam e orientam a educação brasileira. Todavia, são princípios ainda sem vida, sem força e sem eco nas salas de aula. Sobre essa inércia educacional, o filósofo e educador Huberto Rohden (2007) diz que o fracasso, se não a total ausência de uma verdadeira filosofia educacional, estaria no fato de não ser possível dar à educação uma base filosófica. Seria possível sim, dar uma base filosófica ao indivíduo, ao educador. Ou seja, seria possível uma filosofia da autoeducação, como base sólida para uma pedagogia eficiente. A autoeducação é algo a ser alcançado pelo educador, antes de ser um problema para o educando.

A filosofia da autoeducação, que segundo Rohden também se faz através do autoconhecimento ou da autorrealização, é algo do âmbito privado, particular, pessoal, individual, portanto, no âmbito da verdade do ser, ainda que os agentes públicos (a moralidade social) possam influenciá-la. Ele completa:

Uma boa educação é para o governo aquela que respeita a ordem legal e social, não a destruindo nem a prejudicando. Isto é educação cívica. Alguns exigem também educação moral, incluindo na educação também o fazer o bem. É isto que se chama educação em base filosófica (ROHDEN, 2007, p. 80).

E nós complementaríamos esse pensamento dizendo: ... fazer o bem, cuidando, amando e respeitando a si mesmo e o outro.

De certo, encontramos aqui a nossa mais contundente inquietação: como fazer o bem ao outro, sem conseguir fazer antes a si mesmo? Como cuidar, amar e respeitar o outro, sem antes cuidar, amar e respeitar a si mesmo? Como participar do processo educativo de alguém, sem mesmo estar autoeducado? Como promover autoconhecimento, sem mesmo conhecer a si mesmo? Como fazer algo que não queremos fazer? Como ser e agir sobre aquilo que não faz sentido para nós?

As visões filosóficas – todas e qualquer uma – de Sócrates a Rohden, são tentativas de conciliar as verdades, os valores, as razões do ser com os objetivos da vida; é uma tentativa de atribuir significados à vida que temos. Como elemento formador, centrado na práxis educacional consciente e consequente, a filosofia é a grande oportunidade de se pensar sobre a ética e a moral (e também sobre o bem, o mau, sobre Deus, verdade, justiça, beleza, etc.) para si e para os outros, de quem se participa da formação, independente da matéria específica que o educador irá trabalhar. Aliás, a matéria específica trabalhada pela via da reflexão filosófica será um subproduto repleto de significações, transbordante de sabedoria, encharcado de vida. Em suma, não pensar a relação educação e filosofia seria privar a todos, educadores e educandos, sobre saberes, experiências e possibilidades relevantes ao engrandecimento humano e à consolidação de um projeto de vida consistente e significativo.

Não estamos falando de formar, como diz Yves de La Taille, “cidadãos ‘aristotélicos’, ‘kantianos’ ou ‘habermasianos’, mas sim, pessoas que conheçam a contribuição desses autores e de outros para a reflexão ética e moral” (LA TAILLE, 2007, p. 244). Esta é a proposta que apresentamos e que constitui o foco principal deste trabalho.

Consideramos estar na relação educação e filosofia as possíveis respostas para as nossas inquietações e para a consecução de uma proposta de reflexão ética e moral para a vida docente. Tecidas essas considerações iniciais, tentaremos aprofundar um pouco mais os olhares que temos sobre estas duas áreas do conhecimento humano e, assim, expor uma hipótese sobre como esse elo vem se construindo ao longo da vida humana.

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