Epistemologia: Estudo do Conhecimento e suas Teorias
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Epistemologia: o estudo do conhecimento
A epistemologia é a área da filosofia que estuda o conhecimento, procurando responder a questões como «o que é conhecer?», «qual é a origem do conhecimento?» e «será possível conhecer?». O conhecimento em causa é o conhecimento proposicional, ou seja, saber que algo é o caso.
A definição tradicional de conhecimento
A primeira grande resposta à pergunta «o que é conhecer?» encontra-se no diálogo Teeteto, de Platão. Nele, Sócrates mostra que saber não é apenas ter uma opinião verdadeira, já que um juiz pode ser persuadido por um orador e decidir corretamente sem saber realmente o que aconteceu. Teeteto propõe então que o saber é «opinião verdadeira acompanhada de explicação». Daqui resulta a definição tradicional ou tripartida de conhecimento: conhecer é ter uma crença verdadeira justificada. Assim, S sabe que P se e somente se S acredita que P, P é verdadeira e S tem uma justificação para acreditar em P. Cada uma destas condições é necessária, mas nenhuma é suficiente sozinha: podemos acreditar em algo falso, como os antigos que acreditavam que a Terra estava no centro do Universo; podemos ter uma crença verdadeira por mero acaso; e podemos ter boas razões para acreditar que vai chover e, afinal, não chover. Só em conjunto as três condições seriam suficientes. Convém notar que Platão apresenta e discute esta definição, mas não a defende, terminando o diálogo num impasse (aporia).
O problema de Gettier
Em 1963, Edmund Gettier refutou esta definição através de contraexemplos em que alguém tem uma crença verdadeira justificada e, mesmo assim, não tem conhecimento. Um exemplo é o do relógio de Bertrand Russell: se olharmos para um relógio sempre fiável que marca 9:55 e forem realmente 9:55, mas o relógio estiver parado há exatamente 24 horas, temos uma crença verdadeira justificada, mas acertámos por sorte. Para Gettier, a crença verdadeira justificada é condição necessária, mas não suficiente, porque a justificação não se baseia nos aspetos da realidade que tornam a crença verdadeira.
Respostas contemporâneas
Para resolver este problema, Alvin Goldman acrescentou uma quarta condição, a condição causal: a crença tem de ser obtida através de um processo fiável, que tende a produzir crenças verdadeiras, e estar causalmente ligada aos factos que a tornam verdadeira. Já Timothy Williamson propôs uma abordagem diferente, criticando a ideia de que o conhecimento possa ser decomposto em crença, verdade e justificação, como se fosse um estado híbrido, em parte mental e em parte não mental. Para ele, o conhecimento é o estado epistémico mais básico, indefinível e inanalisável, e é um estado inteiramente mental, embora determinado também pelo mundo exterior: só posso saber que o café está quente se ele estiver realmente quente.
Fontes do conhecimento: a priori e a posteriori
Outra questão importante é a das fontes do conhecimento. O conhecimento a priori é aquele que obtemos apenas pelo pensamento, independentemente da experiência, como «2 + 2 = 4» ou «os solteiros não são casados». O conhecimento a posteriori, ou empírico, só pode ser obtido pela experiência, como «a neve é branca». A diferença está no modo como justificamos a proposição e não no modo como adquirimos os conceitos. Desta distinção resulta o debate entre racionalismo e empirismo. Os racionalistas do século XVII, como Descartes, Leibniz e Espinosa, defendem que a razão é a principal fonte de conhecimento e que há crenças sobre o mundo justificadas a priori. Os empiristas, como Locke, Berkeley e Hume, defendem que todo o conhecimento provém, em última análise, da experiência e dos sentidos, e que o conhecimento a priori nada nos diz sobre o mundo.
Fundacionalismo e coerentismo
Apesar das diferenças, ambas as correntes são fundacionalistas, pois defendem que o conhecimento assenta em crenças básicas, certas e indubitáveis, que se justificam por si mesmas e das quais derivam todas as outras, como numa pirâmide. Em oposição, o coerentismo defende que uma crença se justifica pela sua coerência com as restantes crenças de um sistema.
O ceticismo
Por fim, o ceticismo desafia a própria possibilidade do conhecimento. A hipótese de estarmos a sonhar, usada por Pirro de Élis e retomada por Descartes, que imagina ainda um deus enganador, basta para pôr em dúvida aquilo que julgamos saber. Para os céticos, nenhuma fonte de justificação, nem a razão nem a experiência, é satisfatória, pelo que devemos suspender o juízo (epoché). Opõem-se assim ao dogmatismo, que confia na razão e acredita ser possível alcançar a verdade. Sexto Empírico reuniu os principais argumentos céticos, incluindo os cinco tropos de Agripa: o desacordo, a regressão infinita, a relatividade, os pressupostos e a circularidade. Destacam-se três argumentos: o da divergência de opiniões, segundo o qual, se as crenças pudessem ser justificadas, não haveria tantas discordâncias; o da ilusão, que mostra que os sentidos nos enganam, como numa vara mergulhada na água que parece torta; e o da regressão infinita, segundo o qual cada crença precisa de outra para se justificar, sem fim. Concluem que, se nenhuma crença está justificada, não há conhecimento. No entanto, os céticos não afirmam que nada sabemos, pois isso seria autorrefutante; limitam-se a questionar se podemos afirmar que conhecemos. Contrariamente a eles, Descartes e Hume acabam por defender a possibilidade do conhecimento, encontrando os seus fundamentos na razão e na experiência, respetivamente.