Espanha: Regência de Maria Cristina, Liberalismo e Confisco

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Espanha: Transição Absolutismo-Liberalismo (1833-1840)

O período pós-morte de Fernando VII marcou uma tentativa de transição do absolutismo ao liberalismo na Espanha, culminando na Constituição de 1837 e no Confisco de Mendizábal, com suas profundas consequências.

A Regência de Maria Cristina e o Estatuto Real

Quando Fernando VII morreu, deixando como herdeira sua filha Isabel II, sua esposa, Maria Cristina, exerceu a regência (1833-1840), pois sua filha era menor de idade. O governo de Cea Bermúdez, um absolutista moderado, buscou reformas administrativas. A mais importante foi a divisão da Espanha em províncias por Javier de Burgos.

Maria Cristina promulgou uma Carta Régia (Estatuto Real) que proclamava a soberania do rei e das Cortes, estabelecendo um sistema bicameral: o Senado, composto pelos maiores de Espanha e senadores de nomeação real; e o Parlamento, eleito por um voto muito restrito.

O Movimento Revolucionário e a Constituição de 1837

Em 1835, com base no censo, as falhas da Guerra Carlista e o descontentamento com Isabel como herdeira do trono, somados às demandas populares das classes média e baixa, atribuídas ao liberalismo progressista, causaram um movimento revolucionário em busca de um regime totalmente liberal.

Juntas revolucionárias locais e provinciais foram formadas e se dirigiram às autoridades provinciais, expressando sua rejeição ao Estatuto Real e exigindo:

  • A convocação das Cortes;
  • A secularização das ordens religiosas;
  • A liberdade de imprensa;
  • Uma nova lei eleitoral.

Também ocorreram queimas de conventos e assassinatos de monges. Maria Cristina cedeu à pressão e convidou Mendizábal para o governo.

Devido à forte tensão política entre moderados e progressistas, Mendizábal renunciou ao cargo de primeiro-ministro. Isso provocou um novo levante revolucionário progressista, apoiado pela milícia, que culminou no Motim dos Sargentos de La Granja.

Mendizábal, já como ministro, restaurou as eleições democráticas nos municípios e realizou eleições para a Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição de 1837. Esta Constituição proclamava a soberania nacional e reconhecia a intervenção da Coroa no sistema político, permitindo-lhe sancionar e promulgar leis, convocar e dissolver o Parlamento, suspender sessões e nomear e demitir ministros livremente.

Principais Pontos da Constituição de 1837

A Constituição de 1837 previa a liberdade de expressão sem censura prévia. As Cortes eram bicamerais (Congresso dos Deputados e Senado), e sua principal função era legislar e aprovar impostos. A eleição do Senado combinava-se com a nomeação real de seus membros, enquanto o Congresso era eleito por sufrágio censitário.

O Confisco de Mendizábal: Objetivos e Impacto

O Confisco de Mendizábal foi a medida mais revolucionária da nova equipe liberal. Esta ação visava consolidar o regime liberal e a causa isabelina, obter recursos e créditos financeiros para vencer a Guerra Carlista e aumentar a receita do Tesouro. Isso seria feito à custa da expropriação dos bens da Igreja, desmantelando seu poder econômico e influência social, e envolvendo uma nova classe de proprietários e colaboradores, cujos interesses estariam ligados ao Estado liberal.

A desamortização excluía formas de propriedade do Antigo Regime e visava atender às demandas revolucionárias. Ela desvinculava a terra de seus proprietários, permitindo que fossem compradas, vendidas, distribuídas e integradas à economia de mercado, aumentando a produção necessária devido ao crescimento populacional e valorizando a terra.

Assim, foram propostas uma série de reformas agrárias, como o reflorestamento de algumas áreas da Serra Morena, a destinação de terras arrendadas da cidade para os vizinhos mais pobres, a proibição de aumentos de rendas e a expulsão dos arrendatários.

Histórico e Tipos de Desamortização na Espanha

Em 1798, a primeira desamortização ocorreu na Espanha, sob o ministro Godoy. A desamortização foi realizada em três tipos de propriedades:

  • As da Igreja;
  • As da nobreza;
  • As dos municípios.

Em 1836, os bens das ordens religiosas foram expropriados, passando a ser propriedade do Estado e sendo vendidos para pagar a Guerra Carlista. No ano seguinte, foram desamortizados os bens do clero secular e os dízimos.

Mais tarde, aboliu-se a primogenitura; a nobreza manteve a posse de seus bens, mas em 1837 as propriedades foram abolidas, os direitos senhoriais revogados e os encargos dos tribunais senhoriais sobre os camponeses eliminados. A desamortização civil começou com a Constituição de 1812, legalizando fazendas ilegais.

Madoz realizou a desamortização dos bens dos municípios e do bem comum, a fim de cobrir os fundos necessários para a construção ferroviária.

Consequências da Desamortização

As consequências da desamortização foram que ela resultou em um compromisso entre a burguesia e os novos ricos da velha aristocracia.

Impacto Social e Econômico

Para a Igreja e seus seguidores, foi um assalto. O clero foi o mais duramente atingido: perdeu suas rendas do dízimo e ficou sem dinheiro, dependendo do Estado e tendo que se subordinar a ele. A desamortização também incluiu a secularização de muitos monges e freiras, e obras de arte foram perdidas nos conventos desertos. As práticas religiosas diminuíram.

Os socialistas consideravam a medida prejudicial para os camponeses, que perderam suas terras. Poucos agricultores foram capazes de comprar terras, e a situação piorou para muitos, pois não podiam mais usar ou arrendar terras dos municípios. A receita subiu, mas a utilização de pastagens foi proibida, aumentando o número de trabalhadores temporários. Houve um aumento na área cultivada e no latifúndio, e um desmatamento que degradou muitas terras.

Desfecho Político e Ascensão Moderada

Os liberais venceram a guerra contra os carlistas e garantiram o apoio da nova burguesia. A nobreza continuou a manter suas propriedades, mas a abolição da primogenitura e a distribuição da herança entre todos os filhos fizeram com que muitas fortunas fossem divididas.

No final, os moderados venceram as eleições e criticaram a Constituição, buscando impor restrições à liberdade de expressão, limitar o direito ao voto para frear a democratização e centralizar o poder, sujeitando os municípios ao governo central. Isso levou Espartero a fazer uma declaração e derrotar os carlistas.

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