A Ética do Super-homem e a Vontade de Poder em Nietzsche

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B.II. A Ética do Super-homem

Pelo seu lado, o Super-homem é o homem novo que aparece após a "morte de Deus". Nietzsche o concebe como cada um dos fiéis aos valores da vida, o "sentido da terra". O homem a ser vencido é aquele que se submete aos valores tradicionais, a "moral de rebanho", a moralidade baseada na crença em uma realidade transcendente que promove o desprezo pela vida, pelo corpóreo e pela diferença entre as pessoas. O Super-homem é possível somente quando se dispensa absolutamente a crença em Deus, quando se age para consumar a "morte de Deus".

O Super-homem não pode ser identificado com uma classe privilegiada que venha da tradição ou que descanse em seu poder social (como a aristocracia, por exemplo) ou a um grupo biologicamente definido (uma raça), mas podemos reconhecer sua conduta moral através de sete pontos fundamentais:

  • 1. Rejeita a moral de escravos: humildade, mansidão e a prudência que esconde a covardia.
  • 2. Rejeita o comportamento de manada: devido à sua capacidade e determinação para criar valores e não os pedir emprestado à sociedade; assim, seu comportamento será diferente dos outros.
  • 3. Cria valores: apesar de os valores morais serem invenções humanas, nem todos os homens são criadores; muitos mais seguem os valores já estabelecidos por outros. Este primeiro recurso do Super-homem é justamente este: inventar regras morais às quais ele mesmo se sujeita. Os valores que ele cria são fiéis ao mundo da vida e permitem-lhe expressar adequadamente sua singularidade, sua própria personalidade e riqueza.
  • 4. Vive no finito: não acredita em qualquer realidade transcendente, nem em Deus, nem em um destino privilegiado para os seres humanos, uma raça, nação ou grupo. Não acredita que a vida tenha um significado que não seja aquele que ele mesmo deu; aceita a vida como uma limitação, não oculta as dimensões terríveis da existência (sofrimento, doença, morte) e é dionisíaco.
  • 5. É contrário ao igualitarismo: não tem medo de ser diferente.
  • 6. Ama a intensidade da vida: a felicidade, a emoção, a saúde, o amor sexual...
  • 7. Conclusão: o Super-homem é a forte afirmação da vida, o criador e senhor de si mesmo e de sua vida; é um espírito livre.

Em Assim Falou Zaratustra, Nietzsche conta as três transformações do espírito: como o espírito torna-se um camelo, o camelo em leão e, finalmente, o leão em criança. O camelo representa o momento da humanidade que vem com o Platonismo e vai até o fim da modernidade; sua característica básica é a submissão, a humildade e o saber suportar as cargas pesadas e pacientes, o peso moral do ressentimento em relação à vida. O leão representa o homem como crítico do niilismo ativo, que destrói os valores definidos, toda a cultura ocidental e o estilo de vida. E a criança é o homem que conhece a inocência do devir, que inventa os valores, que leva a vida como um jogo e como uma afirmação; é o mundo radicalmente dionisíaco. É a metáfora do futuro do homem: o Super-homem.

B.IV. Vida: Categoria Metafísica Fundamental

IV.1. A teoria do eterno retorno como sinal de vitalidade

Deve-se entender a teoria do eterno retorno como a maior expressão da reivindicação da vida e como pressuposto necessário para as exigências radicais da existência. A vida é passageira — nascimento, vida e morte — e nada há de permanente nela; mas recuperamos a noção de permanência se fizermos o momento durar para sempre, não porque ele nunca acaba, mas porque se repete infinitamente.

IV.2. A Vontade de Poder como "essência" da vida

É o princípio básico da realidade a partir do qual todos os seres são desenvolvidos; a principal força que procura manter-se no ser e ser ainda mais. Nietzsche acreditava que todas as coisas são um desejo de existência, desde o mundo inorgânico ao mundo humano, através de todos os diferentes níveis de vida. Todas as coisas são expressões de um fundo primário que se esforça para existir e expandir-se.

Seus escritos antes de 1890 (data em que caiu em um estado de loucura) foram essencialmente críticos à mentalidade que dominou a nossa cultura desde o início do Platonismo. No entanto, em sua última obra escrita sobre a sabedoria (A Vontade de Poder), Nietzsche tentou descrever sua visão positiva da realidade, que concorda com aquela apresentada em seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia, com a noção do dionisíaco. As características da vontade de poder são:

  • A irracionalidade: a razão é apenas uma dimensão da realidade, mas não a mais verdadeira ou profunda, pois o mundo não é racional, mas sim caos, multiplicidade, diferença, mudança e morte. O homem não tem na razão a última palavra, pois ela sempre serve a instintos ou emoções inconscientes.
  • Inconsciente: a força principal que determina o curso das coisas não é consciente, embora apareça desta forma esporadicamente nos seres humanos. Mesmo neste caso, a consciência não atinge o fundo da realidade, que cria o novo de forma independente.
  • Falta de finalidade: as diversas manifestações das forças da vida não têm um objetivo ou propósito; não buscam nada específico. Não há nada interno que marque um destino; Nietzsche declara, assim, a natureza livre da existência.
  • A impessoalidade: essa força não pode ser identificada com uma perspectiva pessoal; é, na verdade, uma acumulação de forças. É um conjunto de forças que buscam a existência e o crescimento, um desejo de competir e superar o outro.

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