A Evolução do Teatro: Da Polis à Intervenção Urbana
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Desde sua origem, é comum assistir a manifestações e apresentações cênicas individuais ou em grupos em espaços públicos, principalmente o espaço urbano. Buscando suas origens ocidentais, na história grega, vemos que o teatro está diretamente ligado a dois fatores fundamentais: a reverência aos deuses e a novas formas de participação urbana.
Há uma profunda ligação entre a vida cotidiana e os deuses; as ações humanas estavam diretamente ligadas à vontade divina, tanto a ação individual quanto a coletiva. Por outro lado, podemos perceber que o teatro nasce de um ambiente propiciado pela democracia e a formação da polis.
Dentro deste processo histórico, o teatro caminhou no sentido de afirmar sua hegemonia, desenvolvendo-se na forma do drama. Para Szondi (2001), o drama é uma configuração do fenômeno teatral historicamente dada, sendo a conformação que o teatro ocidental ganha na sociedade capitalista como configuração estética da ideologia burguesa.
A Estética Burguesa e o Textocentrismo
Esta configuração estética possuía uma forma fechada na qual o herói, o personagem principal, era o burguês; o âmbito dos acontecimentos era o privado; e as ações eram realizadas por meio do diálogo. Uma das características mais marcantes desta configuração recebeu o nome, no decorrer do século XX, de “textocentrismo”: o texto é sua base e o diálogo é sua estrutura principal.
Tal configuração também especializou seus locais de apresentação, criando o percurso do prédio-teatro. Isso gerou duas consequências fundamentais:
- A criação de um modelo racional e histórico do edifício destinado às representações cênicas, conhecido como o “palco italiano”;
- A fusão a-histórica entre as noções de teatro, enquanto fazer cênico, e teatro, enquanto local de realização corporificado por um edifício arquitetônico.
A Institucionalização e a Reação das Vanguardas
Seguindo esta história até nossos dias, os espaços especializados para as apresentações de teatro corroboram, muitas vezes, a hegemonia da estética burguesa. Da rua para os edifícios teatrais, a arte cênica se institucionaliza, ganhando corpo e forma, ocupando seu lugar determinado na cidade sob constante vigilância.
Trata-se de um movimento dialético: se por um lado a espontaneidade se perde, o fenômeno cênico nasce como manifestação artística fundamental. No século XX, a reação a esse controle deu-se, em uma de suas formas, na negação do edifício.
Artaud, no manifesto do Teatro da Crueldade, ao opor-se à tradição textocentrista e colocar em xeque a noção de representação como ilusão da realidade, contrapõe-se à ideologia burguesa. As vanguardas do século XX trouxeram renovações que questionavam tanto as formas estéticas quanto os espaços de apresentação.
Intervenção Urbana e Arte Contemporânea
As práticas de intervenção urbana que buscam extrapolar a experimentação estética numa união entre arte e vida remontam a uma tradição que tem seu início no Surrealismo e no Dadá-Berlim. Há um caminho que liga as experimentações formais, os movimentos contraculturais da década de 60 e as práticas comunicacionais subversivas de coletivos e ativismo midiático.
No projeto A Última Palavra é a Penúltima 2.0, a cidade é transformada em um espaço ficcional. A noção de interrupção, no caso teatral, significa a inviabilização das noções de discurso e representação. A arte performática apresenta essa potencialidade ao alargar os elementos do discurso até que estes se desintegrem, restando apenas fragmentos desmaterializados e interrompidos.
A Última Palavra é a Penúltima 2.0 foi escolhida como tema deste projeto, pois a proponente participou da direção e concepção cênica da intervenção, possuindo aproximação direta com a temática e envolvimento com a pesquisa teórica desenvolvida.