A Evolução do Telejornalismo Brasileiro: Marcos e Impactos

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Controvérsias e Transformações no Telejornalismo

O Jornal Nacional e Seus Desafios

Durante os anos 70, o Jornal Nacional se firmou como a grande fonte de notícias da televisão, mas sua reputação ficaria abalada para sempre depois de dois casos marcantes: o primeiro, o caso Proconsult, uma empresa encarregada da elaboração de um software para a eleição de 1982, que, propositalmente ou não, tirava votos do candidato favorito e desafeto da Globo, Leonel Brizola, e adicionava a outros candidatos. Como o JN se baseava nos dados de O Globo, que comprava informações de pesquisa desta empresa (que empregava muitos ex-funcionários do SNI - Serviço Nacional de Informações), houve quem quisesse ligar os dois casos à manipulação eleitoral da Globo através do JN em favor da direita reacionária. O segundo aconteceu em 1984, quando os primeiros comícios da campanha das Diretas Já foram organizados, e que o JN (na verdade, o SP TV) não noticiou de forma extraordinária, sem muito destaque. Segundo a declaração do próprio Roberto Marinho, a equipe não acreditou, de início, na força do movimento civil. Nesta ocasião, surgiu o jargão "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!".

Já quanto à emissora como um todo, seu prestígio foi abalado com a edição da reprise do último debate presidencial entre Lula e Collor, em 1989, quando foram justapostos os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Armando Nogueira, chefe do jornalismo na época, classificou aquela edição do debate como "burra". Na ocasião, duas edições foram feitas: uma para o Jornal Hoje e outra para o JN. Segundo a versão oficial, a edição feita do debate foi considerada muito pró-Lula no JH, e em razão disto, feita propositalmente pró-Collor no JN.

No final dos anos 80, o JN tinha uma média de 90% de audiência nacional, o que acabou caindo nas décadas seguintes para cerca de 65 a 70%, isso como fruto da reorientação do público de televisão aberta a partir do crescimento da TV a cabo.

Inovações e Estilos em Outras Emissoras

A TV Cultura e o Jornalismo Opinativo

A TV Cultura foi fundada em 15 de junho de 1969. Apesar de ser uma empresa estatal, o governo tomou cuidado para colocá-la sob fiscalização de uma fundação, a Padre Anchieta, o que, curiosamente, fez com que a TV passasse anos sem interferência do governo, o que só foi ocorrer, indiretamente, na gestão Quércia. Ela atraiu para seus quadros alguns importantes jornalistas ligados à Excelsior, principalmente Wladimir Herzog e Fernando Barbosa Lima. A Cultura inovou por fazer um telejornalismo opinativo e questionador, com programas como Abertura, apresentado por Glauber Rocha.

A TV Gazeta e a Videorreportagem

A TV Gazeta, por mais que se esforçasse, nunca deixou de frequentar o grupo de emissoras locais. Seu jornalismo carecia de equipamentos para uma cobertura ideal da cidade de São Paulo, assim como uma estética independente dos telejornais de emissoras maiores. Seu carro-chefe sempre foram os programas femininos exibidos à tarde. Entretanto, em 1988, foi criado nesta emissora o programa TV Mix, apresentado por Astrid Fontenelle e Sergio Groismann, que trazia uma novidade no segmento de jornalismo em televisão: o Repórter Abelha.

Estes repórteres faziam as funções de jornalista, produtor, cameraman e motorista de viatura. Todos eles passaram a não aparecer no vídeo, em que eram focados apenas os entrevistados e as vozes do entrevistador. Sem condições de montar grandes equipes de reportagem, a Gazeta optou por fazer inúmeras micro equipes de um homem só, estes portando os já obsoletos equipamentos VHS, para fazer um jornalismo fragmentado e singular. O sucesso foi tão instantâneo quanto os processos que começou a sofrer por parte do Sindicato dos Jornalistas, uma vez que os repórteres abelhas não eram jornalistas formados. O programa desapareceu rápido, mas introduziu a estética da Videorreportagem no telejornalismo brasileiro. Na própria Gazeta, Marcelo Tas, tendo como câmera o jovem Fernando Meireles, foi o precursor de tal estilo em 1984, com a criação do repórter/personagem Ernesto Varela.

A Rede Manchete: Qualidade e Investigação

A Rede Manchete estreou no dia 5 de junho de 1983, e seu fundador, Adolfo Bloch, quis aplicar na TV o mesmo esquema que havia funcionado com a revista: investir em qualidade para competir com os dominantes da área, ou seja, a Globo. No início, funcionou. O Jornal da Manchete, que ao contrário de seu concorrente, permanecia no ar durante duas horas, apresentando conteúdos inéditos para o horário, como cultura e variedades, e ainda com vários quadros diferentes (como Panorama e Manchete Esportiva), e os apresentadores se revezando na mesa principal. Nomes de peso foram trazidos do mercado, como Alice Maria, Leila Cordeiro, Carlos Bianchini, Leila Richers, Eliakim Araújo, Vilas-Boas Corrêa, Zevi Ghivelder, Luiz Carlos Azenha, Carlos Chagas, Jacira Lucas, Íris Lettieri, Paulo Stein, Salomão Schvartzman, Sandra Passarinho, Carlos Amorim e Alberto Léo. Foi criado também o Programa de Domingo, este para concorrer com o Fantástico.

Outra revolução aconteceu em 1989, através da veiculação de um programa independente chamado Documento Especial, que durou até 1991. Ele era apresentado por Roberto May, com André Rohde e Guilherme Fiúza, e se caracterizava por um programa investigativo que concorria com o Globo Repórter, mas, ao contrário deste último, exibia cenas fortes e temas underground. Ele foi o precursor dos telejornais policiais.

O SBT: Âncora e Aqui Agora

O SBT surgiu da nova concessão da antiga TV Tupi, que seu proprietário, Sílvio Santos, conseguiu graças à sua grande amizade com o presidente Figueiredo, e à promessa, nunca cumprida de fato, de pagar a enorme dívida da Tupi para com seus funcionários. A programação do SBT sempre seguiu os instintos e os humores de seu proprietário, que, em termos de jornalismo, pouco contribuiu.

Há, no entanto, duas inovações introduzidas pela emissora: a primeira delas foi a figura do âncora de telejornal, um jornalista que apresentava e comentava as notícias, diferente do padrão robotizado de apresentação consagrado pelo Repórter Esso, JN e tantos outros. O primeiro deles foi Boris Casoy, ex-chefe de redação da Folha de S. Paulo.

Já o outro foi o revolucionário telejornal Aqui Agora. Este, surgido das ideias maturadas através de muitos anos do jornalista Paulo Patarra, o mesmo que criou a revista Realidade, era um telejornal que incorporaria o drama como condutor do ritmo das reportagens. Ele consagraria também o uso do plano-sequência, ou câmera nervosa, no jargão de redação, oriundo da estética revolucionária do Cinema Novo, e o ideal de "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", além de, de forma contínua, apresentar os rostos de pessoas pobres (leia-se esteticamente "ruins") no vídeo.

Seu sucesso também dependeu de uma grande sorte. Horas antes da estreia, durante a programação da tarde, uma equipe conseguiu perseguir um carro de polícia em ação contra bandidos. Sem tempo para editar, Sílvio Santos deu o aval para se transmitir as cenas sem corte. Foi um sucesso instantâneo.

Entretanto, deve-se salientar que a pretensa estética popular, baseada em figuras oriundas do rádio, como Gil Gomes, na verdade, maquiava o fato de o telejornal ter sido um dos programas mais reacionários que já existiram, e foi o pai de muitos outros que se seguiram. Ele foi o único que, por vezes, venceu o JN em picos do Ibope, com uma média alta de 20% da audiência nacional. O Aqui Agora encerrou suas atividades por falta de patrocinador; o único que persistia era um remédio contra enxaqueca, pois ele não criou credibilidade para emprestar aos anunciantes mais sérios e constantes.

Modernos Impérios de Comunicação: Ascensão e Apogeu da Globo

As Origens do Grupo Globo

Roberto Marinho herdou, em 1925, tanto o vespertino A Noite quanto o recém-inaugurado O Globo, o jornal que daria nome a um dos primeiros conglomerados modernos de comunicação.

Apesar de ter destaque no Rio de Janeiro, o jornal, durante décadas, não conseguia suplantar seus concorrentes: O Jornal do Brasil, O Correio da Manhã, Diário Carioca e os jornais dos Diários Associados, principalmente O Jornal. Mas foi a partir dos anos 1950, com o surgimento do Última Hora, com uma nova fórmula que lhe garantiu o sucesso rápido, que O Globo deu sua grande virada. Roberto Marinho, que havia diversificado suas publicações com gibis de sucesso, como Flash Gordon, passou a utilizar as mesmas estratégias gráficas e editoriais do UH. Com paciência, esperou o declínio do jornal e contratou todos os jornalistas que pôde. No final dos anos 50 e início dos 60, O Globo, de "quinta", passou a ser a segunda força do Rio, só atrás do JB.

A Fundação da Rádio e TV Globo

Anos antes, em 2 de dezembro de 1944, foi fundada a Rádio Globo. Seu radiojornal, O Globo no Ar, iniciou-se quase que instantaneamente e até hoje se encontra na grade de programação.

Mas foi somente após o golpe de 1964 que surgiu a oportunidade de se montar uma rede como a do então cadeirante Chateaubriand. Enquanto o antigo rival e seu império definhavam, Roberto Marinho obteve êxito onde o primeiro falhara: na capacidade administrativa.

Ao mesmo tempo em que sua rádio tomava a liderança, em 26 de abril de 1965, entrava em operação a TV Globo, montada a partir de uma concessão dada por Juscelino Kubitschek em 1957. A inovação é que a nova emissora fora montada partindo do modelo internacional de Broadcasting, de produção unificada, ao contrário da Tupi, que investia em produção local. Sua montagem foi garantida por uma linha de financiamento tida por muitos como ilegal por parte do grupo Time-Life, de US$ 6 milhões, 20 vezes mais do que o gasto com a inauguração da Tupi. Descoberto pelo governador Carlos Lacerda, quase que por acidente, tal acordo foi motivo de CPI em 1967, já que a empresa americana levaria 30% dos lucros, o que até hoje é ilegal.

Consolidação e o Surgimento do Jornal Nacional

Mas o capital não garantiu o sucesso inicial. Houve problemas. Marinho contratou os executivos da, na época, moribunda TV Rio, Walter Clark e José Bonifácio Sobrinho, o Boni. Sua programação não fazia frente à Tupi, Record e Excelsior, mas contou com a sorte. Com pouco a transmitir, Clark pediu para que se fizessem boletins de uma chuva que começava a se intensificar na capital, que logo se tornou a enchente de 1966, que gerou grande audiência e credibilidade à jovem emissora.

O primeiro telejornal se chamava Tele Globo, com Hilton Gomes e Aluízio Pimentel. O Ultranotícias, um informativo menor exibido às tardes, tinha Paulo Gil, Irene Ravache e Hilton Gomes como apresentadores. Mas o que fez a emissora alcançar pela primeira vez a liderança foram as transmissões via satélite das missões da Apollo e o consequente pouso na Lua. Esta liderança só passou a ser consolidada após o fim da inovadora TV Excelsior, em 1970, quando, a exemplo do que aconteceu com o Última Hora, seus profissionais reforçaram os estúdios globais.

Armando Nogueira foi trazido da TV Rio para fundar um jornal que já existia na extinta emissora, mas que desta vez faria jus ao nome em termos de cobertura: Jornal Nacional.

Em 1º de setembro de 1969, surgia o primeiro telejornal de cobertura nacional. A editora de assuntos nacionais, Alice Maria, que viria a fundar o canal GloboNews décadas mais tarde, estava na primeira edição apresentada por Cid Moreira, que também apresentou o jornal homônimo na TV Rio, e Hilton Gomes.

O maior concorrente, o Repórter Esso, da Tupi, era muito diferente. Na ocasião, o material a ser veiculado era produzido pela UPI, instalada dentro da redação do JB. O locutor do Rio, Contijo Teodoro, apenas as lia em formato radiofônico. Já o JN apresentava matérias externas gravadas com som direto colhido de entrevistas com as pessoas, durante seus 15 minutos no ar. A sorte também acompanhou o telejornal, que, em sua estreia, deu uma notícia-bomba: o derrame do presidente Costa e Silva. Três dias depois, aconteceu o sequestro do embaixador americano pelo MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).

O Manual de Redação e as Críticas ao JN

Em 1975, Armando Nogueira e Alice Maria elaboraram o primeiro manual de redação para TV. Dentre as recomendações estava a indicação de textos curtos e objetivos com o uso de vocabulário mais elevado, o que diferia do rádio, por exemplo. Padrão este que sobrevive até hoje.

Mas mesmo na época, houve quem visse o JN de maneira crítica. Elizabeth Carvalho, no livro Anos 70 - Televisão, afirma que, "cobrindo um fantástico volume de assuntos, o JN marcou também pela fragmentação da informação. Um depoimento de quase 40 segundos no ar, por exemplo, era considerado extremamente longo. Os jornalistas da Globo padecem sempre da angústia de ter nas mãos uma entrevista importante, de boa qualidade e difícil de ser editada porque o entrevistado levava muito tempo para fazer uma pontuação onde o corte pudesse ser efetuado. O otimismo, a ideia do Brasil Grande e definitivamente unificado, riscado da lista dos países subdesenvolvidos e agora encabeçando, graças ao milagre brasileiro, o bloco dos intermediários, quase roçando o desenvolvimento - esta era a imagem que o principal telejornal do país deveria alimentar."

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