Exercícios de contexto linguístico e interpretação
Classificado em Língua e literatura
Escrito em em
português com um tamanho de 8,08 KB
Exercícios:
1. Identificação de vocábulos e contexto
1. No texto apresentado, há, pelo menos, duas palavras que não são comuns no português coloquial brasileiro: ratoneiro e estugar. O contexto linguístico, no entanto, permite entender o que significam. Leia o texto de Camilo e, a seguir, indique:
a) O sentido das duas palavras.
Ratoneiro = ladrão.
Estugou = apressou.
b) Os elementos do contexto linguístico que permitem entender tal sentido.
Entende-se por contexto linguístico o conjunto de palavras que ficam ao redor de outra palavra. Portanto, o contexto linguístico das palavras acima são as palavras presentes no texto que ajudaram o receptor a entender o significado de ratoneiro e estugou. Desse modo, não há resposta errada para essa questão.
A maior injustiça que eu ainda vi desenfreada e às soltas na face da Terra foi a que prendeu os senhores Almeida e Manuel Caetano, a propósito de uma tentativa de roubo ao senhor Lobo da Reboleira.
Vinham aqueles inofensivos cidadãos pelo seu caminho, mansos e quietos, e desprendidos de cobiça. Passaram à porta do capitalista no momento em que o senhor Lobo escorregava nas escadas íngremes e oleosas de sua casa, gritando que andavam ratoneiros lá dentro. O senhor Almeida, quando tal ouviu, receou que o tomassem por um dos salteadores, e estugou o passo. O senhor Manuel Caetano, menos amedrontado das suspeitas, mas temeroso de ser chamado como testemunha, fugiu também. Os vizinhos do senhor Lobo, vendo fugirem dois homens, e ouvindo os gritos da criada do milionário, correram atrás deles e, auxiliados pela guarda do Banco, apanharam-nos.
Aqui está a história contada pelos presos, que estão há oito meses esperando que os julguem. Se o júri provar a inocência desses dois homens, qual é o artigo da lei que impõe ao Ministério Público o dever de os indenizar? (BRANCO, Camilo Castelo Branco. Memórias do cárcere. Lisboa: A. M. Pereira, 1966. V. 2: 120-1)
2. Contexto e ambiguidade
2. Leia o texto que segue:
A professora passou a lição de casa: fazer uma redação com o tema "Mãe só tem uma".
No dia seguinte, cada aluno leu sua redação. Todas diziam mais ou menos as mesmas coisas: a mãe nos amamenta, é carinhosa conosco, é a rosa mais linda de nosso jardim etc., etc. Portanto, mãe só tem uma.
Aí chegou a vez de o Juquinha ler sua redação:
- Domingo veio visita lá em casa. As visitas ficaram na sala. Elas ficaram com sede e minha mãe pediu para eu ir buscar coca‑cola na cozinha. Eu abri a geladeira e só tinha uma coca‑cola. Aí eu gritei para minha mãe: "Mãe, só tem uma".
Questão: Ao lermos o texto produzido por Juquinha, notamos que há alguns problemas relativos à norma culta do idioma ("para mim ir"; ausência de vírgula após o vocativo "Mãe"). Desconsiderando tais problemas, já que a história foi escrita por uma criança de 9 anos, qual a falha da professora que tornou possível o texto produzido por Juquinha?
A professora não deixou claro o contexto linguístico. Ela simplesmente apresentou a frase como tema, sem fornecer um contexto. Conforme vimos em sala, uma frase isolada pode ter várias interpretações. Seu significado verdadeiro surge com o contexto em que ela está inserida.
3. Contexto histórico e senso jurídico
3. Leia o texto abaixo, que mostra a condenação ao réu (sublinhada), proferida pelo juiz Manoel Fernandes dos Santos, em Vila de Porto da Folha (Sergipe), em 1856.
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana, quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, saiu dela de supetão e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer à luz, e como ela se recusasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou‑a no chão, deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará. Ele não conseguiu matrimônio porque ela gritou e veio em ajuda dela Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante.
Dizem as leis que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso fazem prova.
CONSIDERO que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ela e fazer chumbregâncias, coisas que só o marido dela competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Católica Romana; que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer conxambranças com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas; que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que, se não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhã está metendo medo até nos homens.
CONDENO o cabra Manoel Duda pelo malefício que fez à mulher do Xico Bento a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Vila. Nomeio carrasco o carcereiro.
Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito
Vila de Porto da Folha, Sergipe.
Questão: A condenação atribuída ao réu (sublinhada no texto) pode parecer estranha nos dias de hoje. Entretanto, se levarmos em conta um tipo de contexto, tal condenação faz sentido. Que tipo de contexto é esse? Justifique sua resposta.
O contexto histórico: os costumes, normas jurídicas e práticas penais do século XIX eram distintos dos atuais. Levando em conta quando o texto foi escrito (1856), observamos que, naquela época, determinadas penas corporais e castigos severos eram legalmente admisíveis e socialmente tolerados. Hoje, tal condenação seria incompatível com os direitos humanos e com o sistema jurídico contemporâneo.
4. Intencionalidade e pragmática
4. Uma pessoa pergunta: "Como está o frango?" Explique o sentido desse enunciado, levando em conta a intencionalidade subjacente a ele quando produzido nos seguintes contextos.
- a) Uma dona de casa que se dirige a um comerciante que vende frango na feira.
A dona de casa quer saber se o frango está bom para consumo. - b) Um veterinário à enfermeira, depois que o remédio que receitou foi ingerido por um frango doente.
O veterinário quer saber qual é o estado de saúde do frango. - c) O técnico ao goleiro, depois de este ter deixado passar uma bola fácil de ser agarrada.
O técnico está ironizando o goleiro; trata‑se de zombaria por ter falhado na defesa.
5. Interpretação de humor
5. Leia esta piada:
O mendigo se aproxima de uma madame cheia de sacolas de compra, na calçada da Avenida Atlântida, e diz:
- Senhora, estou sem comer faz quatro dias...
- Meu Deus! Gostaria de ter sua força de vontade! (MATTOS, Amir. Brincadeiras, pegadinhas e piadas da internet. Belo Horizonte: Leitura, 2001, p. 90).
Comentário: A piada explora a ambiguidade entre "força de vontade" como disciplina para resistir a comer e a situação real de privação do mendigo. A surpresa final e a troca de papéis entre quem se supõe fraco e quem se supõe forte é o que produz o efeito humorístico.