A Filosofia de Descartes: Deus, Cogito e Dúvida
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A Prova da Existência de Deus
Sabemos que pensamos e existimos, mas, por vezes, duvidamos e enganamo-nos. Logo, não somos perfeitos. No entanto, todos temos a ideia de perfeição; caso contrário, como poderíamos pensar que não somos perfeitos? E de onde percebemos essa ideia de perfeição?
Das duas, uma: ou a ideia de perfeição foi criada por nós próprios, ou recebemo-la do mundo exterior, ou surgiu de outro sítio qualquer. Contudo, a ideia de perfeição não pode ter sido criada por nós, porque não somos perfeitos, e o imperfeito não pode criar o perfeito. Logo, a ideia de perfeição só pode ter sido posta em nós por um ser absolutamente perfeito: Deus.
Mas podemos estar seguros de que Deus existe? Descartes afirma que sim. Um dos argumentos que prova a existência de Deus é o seguinte:
- Um ser absolutamente perfeito é um ser que possui todas as perfeições. Se não tiver todas as perfeições, então não será absolutamente perfeito.
- Ora, a sua própria existência é uma perfeição; isto é, algo que não existe dificilmente pode ser considerado perfeito.
- Logo, se Deus é um ser absolutamente perfeito, então necessariamente existe.
O Cogito: A Intuição Racional
O cogito é uma intuição racional, uma evidência. Não é possível duvidar dele. Se não é possível duvidar, então é o tipo de conhecimento que procuramos: um conhecimento resistente à dúvida. A primeira premissa do argumento cético da regressão infinita parece, pois, definitivamente falsa. Afinal, nem todas as nossas crenças são justificadas por outras crenças, pois encontrámos uma que, aparentemente, não necessita de qualquer outra que a justifique.
E a melhor parte é que é possível encontrar mais conhecimentos deste tipo: basta ver o que há no “penso, logo existo” que o torna indubitavelmente verdadeiro. Descartes conclui que “vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir”. Se isto é verdade, então o que quer que possamos conhecer muito claramente será verdadeiro. Este é o critério de verdade que permite ao pensamento distinguir as crenças verdadeiras das falsas. Descartes obteve conhecimento do cogito a priori; a sua existência como ser pensante é garantida apenas através do pensamento.
A Dúvida Metódica Cartesiana
Descartes não duvida por duvidar; duvida porque procura um conhecimento absolutamente seguro, que resista à dúvida mais obstinada. Por isso, diz-se que a dúvida cartesiana é metódica: é um método para encontrar o conhecimento seguro que Descartes procura.
Para tal, é necessário começar por duvidar de tudo o que possa parecer duvidoso e explorar todas as possibilidades de erro, mesmo as mais remotas. A maior parte das vezes acreditamos nos nossos sentidos, mas Descartes argumenta que os sentidos, por vezes, nos enganam. Ora, se os sentidos nos enganam, ainda que apenas por vezes, é prudente não confiar neles, pois não devemos confiar em quem nos engana, nem que seja uma só vez.