A Filosofia de Nietzsche: Obras e Conceitos Fundamentais

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Assim Falou Zaratustra: A Obra e seus Conceitos

Publicado em quatro partes, entre 1883 e 1885, Assim Falou Zaratustra: um Livro Para Todos e Para Ninguém é o trabalho de Nietzsche que mais dificuldades apresenta à interpretação. Nele, os ensinamentos e experiências do personagem são apresentados como um drama em prosa, em cuja narrativa se combinam os mais variados elementos estéticos de gênero, forma e estilo.

Assim Falou Zaratustra condensa efetivamente todos os focos de interesse que constituem o âmago do pensamento de Nietzsche: a desconstrução da metafísica, a denúncia da hipocrisia moral, as preocupações com a educação, política, o destino da cultura e a crítica do Estado.

O personagem central da obra se faz porta-voz de doutrinas fundamentais para o futuro do homem: a vontade de poder, o eterno retorno do mesmo e o além-do-homem. A ação combinada desses três elementos deverá produzir o desmascaramento e a ruína da hipocrisia que caracteriza a cultura moderna. Para ele, Nietzsche cunha a denominação sarcástica “o último homem”.

O Último Homem e o Além-do-Homem

O último homem simboliza a modernidade, que se considera o ponto mais avançado do desenvolvimento histórico da humanidade, acreditando que a finalidade dessa história consistia precisamente na chegada do moderno. Orgulhoso de sua cultura e formação, que o elevaria acima de todo o passado, o último homem crê na onipotência de seu saber e de seu agir. Para Zaratustra, entretanto, o último homem representa o mais inquietante rebaixamento de valor do ser humano, a transformação do homem numa massa impessoal de seres uniformes.

O Além-do-Homem é um conceito que só pode ser corretamente aprendido em antagonismo com a figura do último homem, pois ele constitui um contra-ideal da tendência ao nivelamento e à uniformização que, para Nietzsche, caracteriza a moderna sociedade de massas. A travessia que conduz o animal ao além-do-homem só pode ser empreendida pelo homem moderno renunciando ao conformismo de sua mediocridade e à autosatisfação, sendo conduzida por intermédio dos dois outros ensinamentos de Zaratustra: a vontade de poder e o eterno retorno.

Pilares do Pensamento: Vontade de Poder e Eterno Retorno

A vontade de poder é “aquela que sempre tem de superar a si mesma”. Essa superação, a humanidade a realiza por meio das “tábuas de valor”, que traçam o rumo para o trabalho civilizatório dos povos. Para que o homem moderno possa ainda criar para além dele mesmo, é necessário que se aproprie dessa natureza, ou seja, de sua vontade de poder.

O eterno retorno não se trata de mera aceitação resignada dos acontecimentos do destino, mas de afirmação incondicional, que aceita e bendiz cada instante vivido. Por meio desse ensinamento, o homem deve aprender a agir como se a mais ínfima de suas ações devesse se repetir eternamente, de maneira a dar à sua própria existência a bela forma da arte. O eterno retorno é a lição que imprime ao instante o selo da eternidade.

Se para seu grande precursor, o filósofo Baruch de Spinoza (1632-1677), o conhecimento verdadeiro conduzia ao amor intelectual de Deus, para Nietzsche o ensinamento do eterno retorno leva ao amor do destino (amor fati).

Até ser completamente ensombrecido pelo colapso mental que o abateu no início de 1889, Nietzsche não conseguiu se restabelecer totalmente da amarga experiência que significou, para ele, o silêncio total que se seguiu à publicação de Assim Falou Zaratustra. A obra não teve sequer a ínfima parcela da repercussão que dela esperava o autor, e não houve uma recepção positiva por parte de amigos e conhecidos nos quais o filósofo depositava ainda alguma esperança.

Crítica da Moral e a Condição Moderna

Em Para Além de Bem e Mal, Nietzsche expõe sua hipótese de interpretação global da experiência com base na perspectiva fornecida pelo conceito de vontade de poder. Opondo-se ao mecanismo e a todo positivismo que almeja explicar os fenômenos da natureza a partir de um conjunto de leis gerais, Nietzsche contesta a legitimidade de pretender obter um conhecimento objetivo dos fenômenos da natureza. O mundo, visto de dentro, seria vontade de poder, e nada além disso.

Para a Genealogia da Moral talvez seja o livro mais conhecido de Nietzsche. Nessa obra, ele aprofunda e consolida a crítica da moral levada a efeito em escritos anteriores, especialmente em Humano, Demasiado Humano e Aurora.

Decadência e Niilismo

Em Para a Genealogia da Moral aflora um par de conceitos de imensa importância para o conjunto dos demais escritos de Nietzsche (todos de 1888): decadência e niilismo.

  • Niilismo: Expressão afetiva e intelectual da decadência; a perda de sentido dos valores superiores.
  • Decadência: Ausência de coesão orgânica e individualismo patológico que impede a integração em um projeto ético comum.

É principalmente nos trabalhos regidos por esse par que Nietzsche diagnostica a condição enferma da moderna Europa, vendo movimentos como o socialismo e o anarquismo como aprofundamentos de um processo de decadência iniciado na Reforma e na Revolução Francesa.

Em O Anticristo, Nietzsche pretende superar uma cultura nutrida pelo cristianismo. Mais do que inimigo de Cristo, ele se define como inimigo do cristianismo dogmático, identificando esta obra como a sua Tresvaloração de Todos os Valores.

A Evolução Filosófica: Do Jovem Nietzsche ao Segundo Período

A ruptura com a metafísica de artista é um distanciamento crítico em relação à filosofia de Schopenhauer e uma desilusão com o projeto wagneriano. Isso origina a nova configuração de temas característica do segundo período de sua filosofia, com predominância do estilo aforístico.

Em 1878, com Humano, Demasiado Humano, Nietzsche insere-se na tradição da filosofia das Luzes, valorizando o conhecimento científico. Se para o jovem Nietzsche a arte era a atividade metafísica essencial, aqui ela é destituída desse privilégio. O homem teórico, antes oposto ao artista, passa a ser visto como seu desenvolvimento, culminando na “irresistível necessidade de conhecimento”.

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