A Filosofia de René Descartes: Razão, Método e Dualismo

Classificado em Filosofia e Ética

Escrito em em português com um tamanho de 6,33 KB

I. Introdução a Descartes. Sendo um filósofo racionalista, a coisa mais importante para ele é a razão. Ele não confia na fé; sua filosofia é baseada estritamente na racionalidade e na dúvida dos sentidos. Descartes acredita que existe um conhecimento a priori desenhado na própria razão. Isso ocorre porque as ideias são reflexos da realidade: ao conhecer a estrutura da razão, conhecemos a própria realidade. Segundo Descartes, Deus baseou-se na matemática para criar o mundo (referenciando a língua matemática de Galileu). Por isso, Descartes descarta a experiência sensível como base segura.

  • 1. Método: Descartes busca os fundamentos que estruturam a razão para evitar o erro. Ele acreditava que a matemática era o modelo perfeito. Assim, aplica um método matemático como base de sua filosofia.
  • 2. Mecanismo: Perde-se a noção de finalidade, priorizando as causas eficientes. Os corpos são reduzidos a pontos de massa em um espaço infinito, sem interesse em essências metafísicas tradicionais.
  • 3. Subjetivismo: Em Descartes, o sujeito tem primazia sobre o objeto. Ele afirma que é preciso provar que o mundo externo existe. Não se sabe se o mundo é como pensamos; sabemos apenas a imagem dos objetos e a percepção na mente. Como a imagem visual se forma no sujeito e não fora dele, não se pode provar a existência do objeto apenas pela percepção.


II. O Método

Descartes desenvolve o método e suas regras para evitar equívocos. As funções da razão são duas:

  • 1. Intuição: Compreensão intelectual imediata de coisas simples que não podem ser explicadas por outras. A intuição correta é chamada de análise.
  • 2. Dedução: Inferência a partir de premissas para chegar a objetos complexos. A inferência correta é chamada de síntese.

Regras para a intuição:

  • 1ª: Decompor o composto em tantas partes quanto possível (elementos simples). Estes devem ter clareza (luz intelectual) e distinção (limites definidos).
  • 2ª: Atenção apenas ao que se vê claramente, sem ir além.
  • 3ª: Evitar a pressa ou a cautela excessiva; os dados devem levar à verdade dentro de um sistema onde todas as partes se conectam.

Regras de dedução:

  • 1ª: Tudo deve derivar logicamente dos passos anteriores.
  • 2ª: Não pular etapas; realizar revisões para garantir que não houve falhas.


III. A Aplicação do Método na Filosofia

1. Dúvida Metódica: Descartes duvida de tudo o que pode ser questionado para encontrar uma verdade indubitável. Pode-se duvidar de:

  • Os sentidos: Às vezes nos enganam, logo não são bases confiáveis.
  • O mundo exterior: Como lidamos com fatos psicológicos em nossa mente, não podemos separar com certeza o sonho da vigília (argumento do sonho).
  • A matemática: Através do argumento do Gênio Maligno (ou relativismo psicológico), questiona-se até as verdades lógicas.

Contudo, não se pode duvidar da própria dúvida. Se duvido, penso; se penso, existo. Surge o "Eu penso, logo existo" (Cogito, ergo sum). Para sair do solipsismo (o eu fechado em si mesmo), Descartes analisa três tipos de ideias:

  • Inatas: Nascem com o sujeito.
  • Adventícias (Acidentais): Vêm de fora.
  • Factícias: Criadas pela imaginação.

Descartes foca no conteúdo objetivo das ideias. A ideia de uma substância infinita (Deus) é inata e perfeita. Como o efeito não pode ser maior que a causa, o ser humano (finito) não poderia criar a ideia de um Deus (infinito). Logo, Deus deve existir e ser a causa dessa ideia. Sendo Deus bom, Ele não nos enganaria sobre a existência do mundo material e da matemática. Assim, a existência de Deus garante a realidade do mundo exterior.


3. Características do Mundo Exterior

  • 3.1. Extensão e Matéria: O espaço está sempre cheio; um espaço sem matéria é inexistente.
  • 3.2. Problema dos Átomos: Para Descartes, não existem átomos (partículas indivisíveis), pois qualquer espaço, por menor que seja, é sempre divisível.
  • 3.3. Finitude do Mundo: O mundo não é infinito (atributo exclusivo de Deus), mas sim indefinido.
  • 3.4. Contingência: Deus é onipotente e criou o mundo de forma contingente.
  • 3.5. Universo: Deve ser reduzido à matemática. O universo é uma máquina; importa o "como" (causa e efeito) e não o "porquê" (finalidade).
  • 3.6. Mecanismo: Não há liberdade na natureza, apenas no "eu". Tudo se reduz ao determinismo mecanicista e à matéria, incluindo animais e vegetais (vistos como autômatos).
  • 3.7. Leis Mecânicas:
    • Princípio da Inércia: O estado de movimento só muda sob força externa.
    • Direção do Movimento: Tendência à linha reta.
    • Conservação do Movimento: O movimento não se cria nem se destrói.
  • 3.8. Verdades: Deus está acima das leis lógico-matemáticas, mas como Ele é imutável, as leis que criou são necessárias e estáveis.


IV. O Homem

  • 1. Dualismo Antropológico: O homem é composto por res cogitans (alma/eu) e res extensa (corpo). A conexão ocorre na glândula pineal. As paixões originam-se no corpo e são involuntárias.
  • 2. Moral:
    • 2.1. A razão deve subjugar as paixões.
    • 2.2. A prudência é a virtude suprema.
    • 2.3. Na ausência de clareza total, deve-se seguir o que é mais provável.
    • 2.4. Normas: Obedecer às leis e costumes do país; ser moderado; manter a firmeza nas decisões tomadas; e buscar mudar a si mesmo antes de tentar mudar o mundo.

Entradas relacionadas: