Freud: O Método e a Distorção na Interpretação dos Sonhos
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Capítulo II - O MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS: ANÁLISE DE UM SONHO MODELO
O título que escolhi para minha obra deixa claro quais das abordagens tradicionais do problema dos sonhos estou inclinado a seguir.
E quaisquer contribuições que eu possa fazer para a solução dos problemas tratados no último capítulo só surgirão como subprodutos no decorrer da execução de minha tarefa propriamente dita.
Meu pressuposto de que os sonhos podem ser interpretados coloca-me, de imediato, em oposição à teoria dominante sobre os sonhos e, de fato, a todas as teorias dos sonhos, com a única exceção da de Scherner [em [1]];
pois “interpretar” um sonho implica atribuir a ele um “sentido” — isto é, substituí-lo por algo que se ajuste à cadeia de nossos atos mentais como um elo dotado de validade e importância iguais ao restante.
Como vimos, as teorias científicas dos sonhos não dão margem a nenhum problema com a interpretação dos mesmos, visto que, segundo o ponto de vista dessas teorias, o sonho não é absolutamente um ato mental, mas um processo somático que assinala sua ocorrência por indicações registradas no aparelho mental.
Levada por algum sentimento obscuro, parece assumir que, a despeito de tudo, todo sonho tem um significado, embora oculto, que os sonhos se destinam a ocupar o lugar de algum outro processo de pensamento, e que para chegar a esse sentido oculto temos apenas de desfazer corretamente a substituição.
As sete vacas gordas seguidas pelas sete vacas magras que devoraram as gordas — tudo isso era o substituto simbólico para uma profecia de sete anos de fome nas terras do Egito, que deveriam consumir tudo o que fosse produzido nos sete anos de abundância.
A ideia de os sonhos se relacionarem principalmente com o futuro e poderem predizê-lo — um vestígio da antiga importância profética dos sonhos — fornece uma razão para se transpor o sentido do sonho, quando se chega a tal sentido por meio da interpretação simbólica, para o tempo futuro.
O êxito deve ser uma questão de se esbarrar numa ideia inteligente, uma questão de intuição direta, e por esse motivo foi possível à interpretação dos sonhos por meio do simbolismo ser exaltada numa atividade artística que depende da posse de dons peculiares.
Uma modificação interessante do processo de decifração, que até certo ponto corrige o caráter puramente mecânico de seu método de transposição, encontra-se no livro escrito sobre a interpretação dos sonhos [Oneirocritica] de Artemidoro de Daldis.
Esse método leva em conta não apenas o conteúdo do sonho, mas também o caráter e situação do sonhador, de modo que um mesmo elemento onírico terá, para um homem rico, um homem casado ou, digamos, um orador, um sentido diferente do que tem para um homem pobre, um homem solteiro ou um negociante.
A essência do método de decifração reside, contudo, no fato de o trabalho de interpretação não ser aplicado ao sonho como um todo, mas a cada parcela independente do conteúdo do sonho, como se o sonho fosse um conglomerado geológico em que cada fragmento de rocha exigisse uma análise isolada.
Fui levado a compreender que temos aqui, mais uma vez, um daqueles casos nada incomuns em que uma antiga crença popular, ciosamente guardada, parece estar mais próxima da verdade que o julgamento da ciência vigente em nossos dias.
Breuer e Freud, 1895.) Quando esse tipo de representação patológica pode ser rastreado até os elementos da vida mental do paciente dos quais se originou, a representação ao mesmo tempo se desarticula, e o paciente fica livre dela.
Considerando a impotência de nossos outros esforços terapêuticos e a natureza enigmática desses distúrbios, senti-me tentado a seguir a trilha apontada por Breuer, apesar de todas as dificuldades, até que se chegasse a uma explicação completa.
Entre outras coisas, narravam-me seus sonhos, e assim me ensinaram que o sonho pode ser inserido na cadeia psíquica a ser retrospectivamente rastreada na memória a partir de uma ideia patológica.
Devemos ter em mira a promoção de duas mudanças nele: um aumento da atenção que ele dispensa a suas próprias percepções psíquicas e a eliminação da crítica pela qual ele normalmente filtra os pensamentos que lhe ocorrem.
Dizemos-lhe, portanto, que o êxito da psicanálise depende de ele notar e relatar o que quer que lhe venha à cabeça, e de não cair no erro, por exemplo, de suprimir uma ideia por parecer-lhe sem importância ou irrelevante, ou por lhe parecer destituída de sentido.
Ele deve adotar uma atitude inteiramente imparcial perante o que lhe ocorrer, pois é precisamente sua atitude crítica que é responsável por ele não conseguir, no curso habitual das coisas, chegar ao desejado deslindamento de seu sonho, ou de sua ideia obsessiva, ou seja lá o que for.
Na reflexão, há em funcionamento uma atividade psíquica a mais do que na mais atenta auto-observação, e isso é demonstrado, entre outras coisas, pelos olhares tensos e o cenho franzido da pessoa que esteja acompanhando suas reflexões, em contraste com a expressão repousada de um auto-observador.
Isso o leva a rejeitar algumas das ideias que lhe ocorrem após percebê-las, a interromper outras abruptamente, sem seguir os fluxos de pensamento que elas lhe desvendariam, e a se comportar de tal forma em relação a mais outras que elas nunca chegam a se tornar conscientes e, por conseguinte, são suprimidas antes de serem percebidas.
O que está em questão, evidentemente, é o estabelecimento de um estado psíquico que, em sua distribuição da energia psíquica (isto é, da atenção móvel), tem alguma analogia com o estado que precede o adormecimento — e, sem dúvida, também com a hipnose.
Ao adormecermos, surgem “representações involuntárias”, graças ao relaxamento de certa atividade deliberada (e, sem dúvida também crítica) a que permitimos influenciar o curso de nossas representações enquanto estamos acordados.
As observações de Schleiermacher e outros, citados em [1] [e [2]].) No estado utilizado para a análise dos sonhos e das ideias patológicas, o paciente, de forma intencional e deliberada, abandona essa atividade e emprega a energia psíquica assim poupada (ou parte dela) para acompanhar com atenção os pensamentos involuntários que então emergem, e que — e nisso a situação difere da situação do adormecimento — retêm o caráter de representações.
A adoção da atitude de espírito necessária perante ideias que parecem surgir “por livre e espontânea vontade”, bem como o abandono da função crítica que normalmente atua contra elas parecem ser difíceis de conseguir para algumas pessoas.
Num trecho de sua correspondência com Körner — temos que agradecer a Otto Rank por tê-la descoberto — Schiller (escrevendo em 1º de dezembro de 1788) responde à queixa que lhe faz o amigo a respeito da produtividade insuficiente: “O fundamento de sua queixa parece-me residir na restrição imposta por sua razão a sua imaginação.
Encarado isoladamente, um pensamento pode parecer muito trivial ou muito absurdo, mas pode tornar-se importante em função de outro pensamento que suceda a ele, e, em conjunto com outros pensamentos que talvez pareçam igualmente absurdos, poderá vir a formar um elo muito eficaz.
Vocês se queixam de sua improdutividade porque rejeitam cedo demais e discriminam com excessivo rigor.” Não obstante, o que Schiller descreve como o relaxamento da vigilância nos portais da Razão, a adoção de uma atitude de auto-observação acrítica, de modo algum é difícil.
O volume de energia psíquica em que é possível reduzir a atividade crítica e aumentar a intensidade de auto-observação varia de modo considerável, conforme o assunto em que se esteja tentando fixar a atenção.
No entanto, se colocar diante dele o sonho fracionado, ele me dará uma série de associações para cada fração, que poderiam ser descritas como os “pensamentos de fundo” dessa parte específica do sonho.
Assim, o método de interpretação dos sonhos que pratico já difere, nesse primeiro aspecto importante, do popular, histórico e lendário método de interpretação por meio do simbolismo, aproximando-se do segundo método, ou método de “decifração”.
Além do fato de que essa alternativa estaria sujeita à objeção de que esses são sonhos de neuropatas, dos quais não se poderia extrair nenhuma inferência válida quanto aos sonhos das pessoas normais, há um outro motivo bem diferente que me impõe essa decisão.
Tudo o que resta são tais sonhos que me foram relatados de tempos em tempos por pessoas normais de minhas relações, e outros como os que foram citados como exemplos na literatura que trata da vida onírica.
Assim, dá-se que sou levado aos meus próprios sonhos, que oferecem um material abundante e conveniente, oriundo de uma pessoa mais ou menos normal e relacionado com múltiplas circunstâncias da vida cotidiana.
“Tout psychologiste”, escreve Delboeuf [1885], “est obligé de faire l’aveu même de ses faiblesses s’il croit par là jeter du jour sur quelque problème obscur.” E é correto presumir que também meus leitores logo verão seu interesse inicial nas indiscrições que estou fadado a cometer transformado num interessante mergulho nos problemas psicológicos sobre os quais elas lançam luz.
— E agora devo pedir ao leitor que faça dos meus interesses os seus próprios por um período bastante longo, e que mergulhe comigo nos menores detalhes de minha vida, pois esse tipo de transferência é obrigatoriamente exigido por nosso interesse no sentido oculto dos sonhos.
Nessa ocasião, eu ainda não discernia com muita clareza quais eram os critérios indicativos de que um caso clínico de histeria estava afinal encerrado, e havia proposto à paciente uma solução que ela não parecia disposta a aceitar.
E, com ou sem razão, atribui o suposto fato de Otto estar tomando partido contra mim à influência dos parentes de minha paciente, que, como me parecia, nunca haviam olhado o tratamento com bons olhos.
Estava muito pálido, claudicava e tinha o queixo escanhoado… Meu amigo Otto estava também agora de pé ao lado dela, e meu amigo Leopold a auscultava através do corpete e dizia: “Ela tem uma área surda bem embaixo, à esquerda.” Indicou também que parte da pele do ombro esquerdo estava infiltrada.
Não muito antes, quando ela não estava se sentindo bem, meu amigo Otto lhe aplicara uma injeção de um preparado de propil, propilos… ácido propiônico… trimetilamina (e eu via diante de mim a fórmula desse preparado, impressa em grossos caracteres)… Injeções como essas não deveriam ser aplicadas de forma tão impensada… E, provavelmente, a seringa não estava limpa.
A notícia que Otto me dera sobre o estado de Irma e o caso clínico que eu me empenhara em redigir até altas horas da noite haviam continuado a ocupar minha atividade mental mesmo depois de eu adormecer.
Era minha opinião, na época (embora desde então a tenha reconhecido como errada), que minha tarefa estava cumprida no momento em que eu informava ao paciente o sentido oculto de seus sintomas: não me considerava responsável por ele aceitar ou não a solução — embora fosse disso que dependia o sucesso.
Devo a esse erro, que agora felizmente corrigi, o fato de minha vida ter-se tornado mais fácil numa ocasião em que, apesar de toda a minha inevitável ignorância, esperava-se que eu produzisse sucessos terapêuticos.
Isso, como bem se pode acreditar, constitui uma fonte perene de angústia para um especialista cuja clínica é quase que limitada a pacientes neuróticos e que tem o hábito de atribuir à histeria um grande número de sintomas que outros médicos tratam como orgânicos.
O que ocorreu no sonho fez-me lembrar um exame que eu efetuara algum tempo antes numa governanta: à primeira vista, ela parecera a imagem da beleza juvenil, mas, quando chegou o momento de abrir a boca, ela tomou providências para ocultar suas chapas.
(Quando se procede atentamente a uma análise, tem-se a sensação de haver ou não esgotado todos os pensamentos antecedentes esperáveis.) A forma pela qual Irma postou-se à janela me fez de repente recordar outra experiência.
Talvez fosse porque eu teria gostado de trocá-la: talvez sentisse mais simpatia por sua amiga, ou tivesse uma opinião mais elevada sobre a inteligência dela, pois Irma me parecera tola por não haver aceito minha solução.
Nessa época, eu vinha fazendo uso frequente da cocaína para reduzir algumas incômodas inchações nasais, e ficara sabendo alguns dias antes que uma de minhas pacientes, que seguira meu exemplo, desenvolvera uma extensa necrose da membrana mucosa nasal.
Certa feita, eu havia provocado um grave estado tóxico numa paciente, receitando repetidamente o que, na época, era considerado um remédio inofensivo (sulfonal), e recorrera às pressas à assistência e ao apoio de meu colega mais experiente.
Por meio do prognóstico consolador: “Sobreviverá uma disenteria etc.”, pois voltou a me ocorrer que, anos antes, ele próprio me contara uma história divertida de natureza semelhante sobre outro médico.
Fora convocado por ele para dar um parecer sobre um paciente gravemente enfermo, e se sentira obrigado a salientar, em virtude da visão muito otimista assumida por seu colega, que encontrara albumina na urina do paciente.
O outro, porém, não se dera absolutamente por achado: “Não tem importância”, dissera, “a albumina logo será eliminada!” — Não pude mais sentir nenhuma dúvida, portanto, de que essa parte do sonho expressava desprezo pelos médicos que não conhecem a histeria.
Assim, nesse sonho eu já me havia vingado de duas pessoas: de Irma, com as palavras “Se você ainda sente dores, a culpa é toda sua”, e do Dr. M., com o enunciado do consolo absurdo que pus em sua boca.
Na noite anterior, antes de eu redigir o caso clínico e ter o sonho, minha mulher abrira uma garrafa de licor na qual aparecia a palavra “Ananas” e que fora um presente de nosso amigo Otto, pois ele tem o hábito de dar presentes em todas as ocasiões possíveis.
Minha mulher sugeriu que déssemos a garrafa aos criados, mas eu — com prudência ainda maior — vetei a sugestão, acrescentando, com espírito filantrópico, que não havia necessidade de eles serem envenenados tampouco.
O cheiro do álcool amílico (amil…) evidentemente avivou em minha mente a lembrança de toda a sequência — propil, metil, e assim por diante — e isso explicava o preparado propílico no sonho.
Na época, ele me havia confiado algumas ideias sobre a questão da química dos processos sexuais e mencionara, entre outras coisas, acreditar que um dos produtos do metabolismo sexual era a trimetilamina.
Assim, essa substância me levava à sexualidade, fator ao qual eu atribuía máxima importância na origem dos distúrbios nervosos cuja cura era o meu objetivo.
A trimetilamina era uma alusão não só ao fator imensamente poderoso da sexualidade, como também a uma pessoa cuja concordância eu recordava com prazer sempre que me sentia isolado em minhas opiniões.
Sim, pois ele tinha um conhecimento especial das consequências das afecções do nariz e de suas cavidades acessórias, e chamara a atenção do mundo científico para algumas notáveis relações entre os ossos tribunais e os órgãos sexuais femininos.
Notei também que, ao acusar Otto de irreflexão no manuseio de substâncias químicas, eu estava mais uma vez aludindo à história da infeliz Mathilde, que dera margem à mesma acusação contra mim.
A flebite remeteu-me mais uma vez a minha mulher, que sofrera de trombose durante uma das vezes em que estava grávida, e então me vieram à lembrança três situações semelhantes, envolvendo minha esposa, Irma e a falecida Mathilde.
O sonho realizou certos desejos provocados em mim pelos fatos da noite anterior (a notícia que me foi dada por Otto e minha redação do caso clínico). Em outras palavras, a conclusão do sonho foi que eu não era responsável pela persistência das dores de Irma, mas sim Otto.
Toda a apelação — pois o sonho não passara disso — lembrava com nitidez a defesa apresentada pelo homem acusado por um de seus vizinhos de lhe haver devolvido danificada uma chaleira tomada de empréstimo.
Alguns outros temas, que não estavam ligados de forma tão evidente a minha absolvição pela doença de Irma, desempenharam seu papel no sonho: a doença de minha filha e a da minha paciente do mesmo nome, o efeito prejudicial da cocaína, o distúrbio de meu paciente que se encontrava em viagem pelo Egito, minha preocupação com a saúde de minha mulher e de meu irmão e do Dr. M., meus próprios males físicos, e minha aflição por meu amigo ausente que sofria de rinite supurativa.
Mas, ao considerar todas essas coisas, vi que podiam ser todas enfeixadas num único grupo de ideias e rotuladas, por assim dizer, como “interesse por minha própria saúde e pela saúde de outras pessoas — conscienciosidade profissional.” Veio-me à mente a obscura impressão desagradável que experimentara quando Otto me trouxe a notícia do estado de Irma.
Não cumpre o que se comprometeu a fazer.” A partir daí, foi como se esse grupo de ideias se tivesse colocado a minha disposição, para que eu pudesse apresentar provas de como eu era extremamente consciencioso, da profundidade com que me interessava pela saúde de meus parentes, amigos e pacientes.
Mas, não obstante, havia uma ligação inconfundível entre esse grupo mais amplo de pensamentos subjacentes ao sonho e o tema mais restrito do sonho, que me deu margem ao desejo de ser inocentado da doença de Irma.
Capítulo III - O SONHO É A REALIZAÇÃO DE UM DESEJO
Quando, após passarmos por um estreito desfiladeiro, de repente emergimos num trecho de terreno elevado, onde o caminho se divide e as mais belas vistas se desdobram por todos os lados, podemos parar por um momento e considerar em que direção deveremos começar a orientar nossos passos.
Não se devem assemelhar os sonhos aos sons desregulados que saem de um instrumento musical atingido pelo golpe de alguma força externa, e não tocado pela mão de um instrumentista (ver em [1] [2]);
Nossa primeira preocupação deve ser indagar se esta é uma característica universal dos sonhos, ou se, por acaso, terá sido meramente o conteúdo do sonho específico (o sonho da injeção de Irma) que foi o primeiro a ser por nós analisado.
É fácil provar que os sonhos muitas vezes se revelam, sem qualquer disfarce, como realizações de desejos, de modo que talvez pareça surpreendente que a linguagem dos sonhos não tenha sido compreendida há muito tempo.
São horas de ir para o hospital!” Em resposta a isso, ele sonhou que estava deitado numa cama num quarto de hospital, e que havia um cartão acima do leito onde estava escrito: “Pepi H., estudante de medicina, idade: 22 anos.” Enquanto sonhava, ele dizia a si mesmo: “Como já estou no hospital, não há necessidade de ir até lá” — e, virando-se para o outro lado, continuou a dormir.
Uma das minhas pacientes, que fora obrigada a se submeter a uma operação no maxilar, operação essa que tomara um rumo desfavorável, recebeu ordens dos médicos para usar um aparelho de resfriamento no lado do rosto, dia e noite.
E joguei-o fora.” O sonho dessa pobre sofredora parece quase uma representação concreta de uma frase que às vezes se impõe às pessoas nas situações desagradáveis: “Devo dizer que eu poderia pensar em algo mais agradável do que isso.” O sonho dá uma imagem dessa coisa mais agradável.
Assim, parece possível fornecer uma tradução completa do sonho: “Já é hora de fazer alguma coisa mais divertida do que essa perpétua assistência a doentes.” Esses exemplos talvez bastem para mostrar que os sonhos que só podem ser compreendidos como realizações de desejos e que trazem seu sentido estampado no rosto, sem nenhum disfarce, encontram-se sob as mais frequentes e variadas condições.
A psicologia infantil, em minha opinião, está destinada a prestar à psicologia do adulto serviços tão úteis quanto os que a investigação da estrutura ou do desenvolvimento dos animais inferiores para a pesquisa da estrutura das classes superiores de animais.
Tenho que agradecer a uma excursão que fizemos de Ausee à encantadora aldeia de Hallstatt, no verão de 1896, por dois sonhos: um deles foi de minha filha, que contava então oito anos e meio, e o outro, de seu irmão, de cinco anos e três meses.
Toda vez que divisávamos uma nova montanha, ele perguntava se era o Dachstein, e eu tinha de dizer “Não, é apenas um dos contrafortes.” Depois de ter formulado a pergunta várias vezes, ele caiu em completo silêncio, recusando-se categoricamente a subir conosco a encosta íngreme que leva à cascata.
Aí, mamãe entrou e jogou um punhado de barras grandes de chocolate, embrulhadas em papel azul e verde, embaixo de nossas camas.” Os irmãos dela, que evidentemente não haviam herdado a faculdade de entender os sonhos, seguiram a orientação das autoridades e declararam que o sonho era absurdo.
No caminho da estação para casa, as crianças haviam parado em frente a uma máquina automática, da qual estavam habituadas a obter justamente aquele tipo de barras de chocolate, embrulhadas em brilhante papel metálico.
Na manhã seguinte, a menina de oito anos dirigiu-se ao pai e disse, com expressão satisfeita: “Papai, ontem à noite sonhei que o senhor foi com a gente à Cabana Rohrer e ao Hameau.” Em sua impaciência, ela previra a realização das promessas do pai.
Caso me seja facultado incluir na categoria dos sonhos as palavras ditas pelas crianças durante o sono, posso citar, a esta altura, um dos sonhos mais infantis de toda a minha coleção.
Na madrugada seguinte a esse dia de fome, nós a ouvimos exclamar excitadamente enquanto dormia: “Anna Freud, molangos, molangos silvestres, omelete pudim!” Naquela época, Anna tinha o hábito de usar seu próprio nome para expressar a ideia de se apossar de algo.
Embora tenhamos em alta conta a felicidade da infância, por ser ela ainda inocente de desejos sexuais, não nos devemos esquecer da fonte fértil de decepção e renúncia, e consequentemente de estímulo ao sonho, que pode ser proporcionada pelas duas outras grandes pulsões vitais.
Estava habituado, todas as manhãs, a contar à mãe que tinha tido um sonho com o “soldado branco” — um oficial da guarda envergando sua túnica branca, que ele um dia ficara na rua a contemplar com admiração.
No dia seguinte ao sacrifício do aniversário, ele acordou com uma notícia animadora, que só poderia ter-se originado num sonho: “Hermann comeu todas as cerejas!” Eu mesmo não sei com que sonham os animais.
(A frase “Träume sind Schäume” [Os sonhos são espuma] parece destinada a apoiar a apreciação científica dos sonhos.) Grosso modo, porém, o uso comum trata os sonhos, acima de tudo, como abençoados realizadores de desejos.
Sempre que vemos nossas expectativas ultrapassadas por um acontecimento, exclamamos em nossa alegria: “Eu nunca teria imaginado tal coisa, nem mesmo em meus sonhos mais fantásticos!”
Capítulo IV - A DISTORÇÃO NOS SONHOS
Se eu passar a afirmar que o sentido de todos os sonhos é a realização de um desejo, isto é, que não pode haver nenhum sonho senão os sonhos desejantes, desde já estou certo de que depararei com a mais categórica refutação a tal afirmativa.
Radestock (1879, 137 e seg.), Volkelt (1875, 110 e seg.), Purkinje (1846, 456), Tissié (1898, 70), Simon (1888, 42, a propósito dos sonhos de fome do Barão Trenck quando prisioneiro), e um trecho em Griesinger (1845, 89).
A única coisa que não encontramos é aquilo que pode, até certo ponto, reconciliar um homem culto com a vida — o prazer científico e artístico…’ Mas até mesmo observadores menos descontentes têm insistido em que a dor e o desprazer são mais comuns nos sonhos do que o prazer: por exemplo, Scholz (1893, 57), Volkelt (1875, 80) e outros.
Com efeito, duas senhoras, Florence Hallam e Sarah Weed (1896, 499), chegaram realmente a dar expressão estatística, baseada num estudo de seus próprios sonhos, à preponderância do desprazer no sonho.
E, afora esses sonhos, que levam para o sono as várias emoções penosas da vida, existem sonhos de angústia, em que o mais terrível de todos os sentimentos desprazerosos nos retém em suas garras até despertarmos.
E as vítimas mais comuns desses sonhos de angústia são precisamente as crianças, cujos sonhos o senhor descreveu como indisfarçáveis realizações de desejos.” De fato, parece que os sonhos de angústia tornam possível asseverar como proposição geral (baseada nos exemplos citados em meu último capítulo) que os sonhos são realizações de desejos;
É necessário apenas observar o fato de que minha teoria não se baseia numa consideração do conteúdo manifesto dos sonhos, mas se refere aos pensamentos que o trabalho de interpretação mostra estarem por trás dos sonhos.
Quando, no decorrer de um trabalho científico, deparamos com um problema de difícil solução, muitas vezes constitui uma boa medida tomar um segundo problema juntamente com o original — da mesma forma que é mais fácil quebrar duas nozes juntas do que cada uma em separado.
Assim, não só nos defrontamos com a pergunta “Como podem os sonhos aflitivos e os sonhos de angústia ser realizações de desejos?”, como também nossas reflexões permitem-nos acrescentar uma segunda pergunta: “Por que é que os sonhos de conteúdo irrelevante, que mostram ser realizações de desejos, não expressam seu sentido sem disfarces?” Tomemos, por exemplo, o sonho da injeção de Irma, que abordei exaustivamente.
É possível que nos ocorram de imediato diversas soluções possíveis para o problema, como por exemplo, que existe alguma incapacidade, durante o sono, para darmos expressão direta a nossos pensamentos oníricos.
Nos últimos anos, o Ministério desconsiderara esse tipo de recomendações, e vários de meus colegas, que eram mais velhos do que e pelo menos se igualavam a mim em termos de mérito, em vão vinham esperando por uma nomeação.
Quando, no decorrer da manhã, o sonho me veio à cabeça, ri alto e disse: “O sonho é absurdo!” Mas ele se recusava a ir embora e me seguiu o dia inteiro, até que finalmente, à noite, comecei a me repreender: “Se um de seus pacientes que estivesse interpretando um sonho não encontrasse nada melhor para dizer do que afirmar que ela era um absurdo, você o questionaria sobre isso e suspeitaria de que o sonho tinha por trás alguma história desagradável, da qual o paciente queria evitar conscientizar-se.
Certa vez — há mais de trinta anos —, em sua ansiedade de ganhar dinheiro, ele se deixou envolver num tipo de transação que é severamente punido pela lei, e foi efetivamente castigado por isso.
E o estimara durante muitos anos, mas, se me dirigisse a ele e expressasse meus sentimentos em termos que se aproximassem do grau de afeto que sentira no sonho, não há nenhuma dúvida de que ele teria ficado perplexo.
Minha afeição por ele pareceu-me artificial e exagerada — tal como o julgamento de suas qualidades intelectuais, que eu expressara ao fundir sua personalidade com a de meu tio, embora, nesse caso, o exagero tivesse corrido no sentido oposto.
Se meu sonho estava distorcido nesse aspecto em relação a seu conteúdo latente — e distorcido pareceu oposto —, então a afeição manifesta no sonho atendera ao propósito dessa distorção.
Se as apresentar sem disfarces, as autoridades reprimirão suas palavras depois de proferidas, no caso de um pronunciamento oral, mas de antemão, caso ele pretenda fazê-lo num texto impresso.
Conforme o rigor e a sensibilidade da censura, ele se vê compelido a simplesmente abster-se de certas formas de ataque ou a falar por meio de alusões em vez de referências diretas, ou tem que ocultar seu pronunciamento objetável sob algum disfarce aparentemente inocente: por exemplo, pode descrever uma contenda entre dois mandarins do Império do Meio [na China], quando as pessoas que de fato tem em mente são autoridades de seu próprio país.
Podemos, portanto, supor que os sonhos recebem sua forma em cada ser humano mediante a ação de duas forças psíquicas (ou podemos descrevê-las como correntes ou sistemas) e que uma dessas forças constrói o desejo que é expresso pelo sonho, enquanto a outra exerce uma censura sobre esse desejo onírico e, pelo emprego dessa censura, acarreta forçosamente uma distorção na expressão do desejo.
Quando temos em mente que os pensamentos oníricos latentes não são conscientes antes de se proceder a uma análise, ao passo que o conteúdo manifesto do sonho é conscientemente lembrado, parece plausível supor que o privilégio fruído pela segunda instância seja o de permitir que os pensamentos penetrem na consciência.
E a segunda instância não permite que passe coisa alguma sem exercer seus direitos e fazer as modificações que julgue adequadas no pensamento que busca acesso à consciência.
A propósito, isso nos permite formar um quadro bem definido da “natureza essencial” da consciência: vemos o processo de conscientização de algo como um ato psíquico específico, distinto e independente do processo de formação de uma representação ou ideia;
[Ver Capítulo VII, particularmente a Seção F, em [1]] Aceitando-se esse quadro das duas instâncias psíquicas e de sua relação com a consciência, há uma completa analogia, na vida política, com a extraordinária afeição que senti em meu sonho por meu amigo R., que foi tratado com tanto desprezo durante a interpretação do sonho.
Mas o autocrata, para mostrar que não precisa levar em conta o desejo popular, escolhe esse momento para conferir uma alta honraria à citada autoridade, embora não haja nenhuma outra razão para fazê-lo.
Com uma exibição de afeição excessiva, simplesmente porque os impulsos de desejo pertencentes ao primeiro sistema, por suas próprias razões particulares, para as quais estavam voltados naquele momento, resolveram condená-lo como um tolo.
Essas considerações talvez nos levem a achar que a interpretação dos sonhos poderá permitir-nos tirar, em relação à estrutura de nosso aparelho psíquico, as conclusões que em vão temos esperado da filosofia.
Vemos agora que isso é possível, se a distorção do sonho tiver ocorrido e se o conteúdo penoso servir apenas para disfarçar algo que se deseja. Tendo em mente nosso pressuposto da existência de duas instâncias psíquicas, podemos ainda dizer que os sonhos aflitivos de fato encerram alguma coisa que é penosa para a segunda instância, mas que, ao mesmo tempo, realiza um desejo por parte da primeira instância.
“O senhor sempre me diz”, começou uma inteligente paciente minha, “que o sonho é um desejo realizado.” Pois bem, vou lhe contar um sonho cujo tema foi exatamente o oposto — um sonho em que um de meus desejos não foi realizado.
Assim, tive de abandonar meu desejo de oferecer uma ceia.” Respondi, naturalmente, que a análise era a única forma de decidir quanto ao sentido do sonho, embora admitisse que, à primeira vista, ele se afigurava sensato e coerente e parecia ser o inverso da realização de um desejo.
— Ela acrescentou, rindo, que o marido, no lugar onde almoçava regularmente, tratava conhecimento com um pintor que o pressionara a lhe permitir que pintasse seu retrato, pois nunca vira feições tão expressivas.
Quando um deles executa uma sugestão pós-hipnótica e lhe perguntam por que está agindo daquela maneira, em vez de dizer que não tem a menor ideia, ele se sente compelido a inventar alguma razão obviamente insatisfatória.
Após uma pausa curta, como a que corresponderia à superação de uma resistência, ela prosseguiu dizendo que, na véspera, visitara uma amiga de quem confessava ter ciúmes porque seu marido (de minha paciente) estava constantemente a elogiá-la.
O fato de que o que as pessoas comem nas festas as engorda lhe fora lembrado pela decisão de seu marido de não mais aceitar convites para jantar, em benefício de seu plano de emagrecer.” Só faltava agora alguma coincidência que confirmasse a solução.
“Como foi”, perguntei, “que a senhora chegou ao salmão que apareceu em seu sonho?” “Oh”, exclamou ela, “salmão defumado é o prato predileto de minha amiga!” Acontece que eu mesmo conheço a senhora em questão e posso afirmar o fato de que ela se ressente tanto de não comer salmão quanto minha paciente de não comer caviar.
Constituem um bom exemplo do fato de que os sonhos, como todas as outras estruturas psicopatológicas, têm regularmente mais de um sentido.) Minha paciente, como se pode lembrar, ao mesmo tempo que estava ocupada com seu sonho de renúncia a um desejo, também tentava efetivar um desejo renunciado (pelo sanduíche de caviar) na vida real.
Sua amiga também dera expressão a um desejo — de engordar —, e não seria de surpreender que minha paciente tivesse sonhado que o desejo de sua amiga não fora realizado, pois o próprio desejo de minha paciente era que o de sua amiga (engordar) não se realizasse.
Portanto, o sonho adquirirá nova interpretação se supusermos que a pessoa nele indicada não era ela mesma, e sim a amiga: que ela se colocara no lugar da amiga, ou, como poderíamos dizer, que se “identificara” com a amiga.
Ela permite aos pacientes expressarem em seus sintomas não apenas suas próprias experiências, como também as de um grande número de outras pessoas: permite-lhes, por assim dizer, sofrer em nome de toda uma multidão de pessoas e desempenhar sozinhas todos os papéis de uma peça.
Dirão que isso não passa da conhecida imitação histérica, da capacidade dos histéricos de imitarem quaisquer sintomas de outras pessoas que possam ter despertado sua atenção solidariedade, por assim dizer, intensificada até o ponto da reprodução.
Sua solidariedade é despertada e eles fazem a seguinte inferência, embora ela não consiga penetrar na consciência: “Se uma causa como esta pode produzir um ataque assim, posso ter o mesmo tipo de ataque, já que tenho as mesmas razões para isso.” Se essa inferência fosse capaz de penetrar na consciência, é possível que desse margem a um medo de ter a mesma espécie de ataque.
Uma mulher histérica se identifica mais rapidamente — embora não exclusivamente — em seus sintomas com as pessoas com quem tenha tido relações sexuais, ou com as pessoas que tenham tido relações sexuais com as mesmas pessoas que ela.
Assim, a paciente cujo sonho venho discutindo estava simplesmente seguindo as normas dos processos histéricos de pensamento ao expressar ciúme da amiga (que, aliás, ela própria sabia ser injustificado), ocupar seu lugar no sonho e identificar-se como ela por meio da criação de um sintoma — o desejo renunciado.
O processo poderia expressar-se verbalmente da seguinte maneira: minha paciente colocou-se no lugar da amiga, no sonho, porque esta estava ocupando o lugar de minha paciente junto ao marido e porque ela (minha paciente) queria tomar o lugar da amiga no alto conceito em que o marido a tinha.
Uma contradição a minha teoria dos sonhos, produzida por outra de minhas pacientes (a mais sagaz de todas as que relatam seus sonhos), resolveu-se de maneira mais simples, porém com base no mesmo padrão, a saber, que a não-realização de um desejo significava a realização de outro.
Ora, eu sabia que ela se rebelara violentamente contra a ideia de passar o verão perto da sogra e que, poucos dias antes, conseguira evitar a temida proximidade reservando aposentos numa estação de veraneio muito distante.
Assim, seu desejo de que eu estivesse errado, que se transformou em seu sonho de passar as férias com a sogra, correspondia a um desejo bastante justificado de que os fatos de que ela não vinha conscientizando pela primeira vez nunca tivessem ocorrido.
Mas pensei comigo mesmo: “Considerando que, por oito anos a fio, sentei-me no banco da frente como primeiro da classe, enquanto ele ficava ali pelo meio, ele dificilmente pode deixar de alimentar um desejo, remanescente de seus tempos de escola, de que mais dia menos dia, eu venha a me tornar um completo fracasso.” Um sonho de natureza mais sombria foi também apresentado contra mim por uma paciente como objeção à teoria dos sonhos de desejo.
Por algum tempo, pareceu que suas relações mal admitidas com ele levariam ao casamento, mas esse desenlace feliz foi reduzido a cinzas pela irmã, cujos motivos jamais foram plenamente explicados.
Depois do rompimento, esse homem deixou de frequentar a casa e, pouco depois da morte do pequeno Otto, para quem ela voltara sua afeição neste ínterim, minha paciente fixou residência própria sozinha.
O Professor veio visitar-nos de novo depois de uma longa ausência e eu o vi mais uma vez ao lado do caixão do pequeno Otto.” Isso era exatamente o que eu esperava, e interpretei o sonho desta forma: “Se o outro menino morresse agora, aconteceria a mesma coisa.
Seu sonho foi um sonho de impaciência: antecipou em algumas horas a visão que você vai ter dele hoje.” A fim de ocultar seu desejo, ela evidentemente escolhera uma situação em que tais desejos costumam ser suprimidos, na situação em que se está tão repleto de tristeza que não se tem nenhum pensamento amoroso.
Contudo, é bem possível que, mesmo na situação real da qual o sonho foi uma réplica exata, junto ao caixão do menino mais velho a quem ela amara ainda mais, talvez ela não tenha podido suprimir seus ternos sentimentos pelo visitante que estivera ausente por tanto tempo.
Estava parcialmente inclinada a utilizar essa cena como uma objeção à teoria da realização dos desejos, embora ela própria suspeitasse de que o detalhe da “caixa” devia estar apontando para outra visão do sonho.
No decorrer da análise, ela lembrou que, numa reunião na noite anterior, falara-se um pouco sobre a palavra inglesa “box” e as várias formas pelas quais se poderia traduzi-la em alemão — tais como “Schachtel” [“caixa”] “Loge” [“camarote de teatro”], Kasten [arca], “Ohrfeige” [“murro no ouvido”], e assim por diante.
Outras partes do mesmo sonho nos permitiram descobrir ainda que ela havia pensado que “box”, em inglês, se relacionava mesmo com o “Büchse” [“receptáculo”] em alemão, e que depois fora atormentada pela lembrança de que “Büchse” é empregado como termo vulgar para designar os órgãos genitais femininos.
Fazendo uma certa concessão aos limites de seus conhecimentos de anatomia topográfica, poder-se-ia presumir, portanto, que a criança que jazia na caixa significava um embrião no útero.
[1] Terei de voltar ao grupo de sonhos a que pertencem os dois últimos exemplos (sonhos que tratam da morte de parentes a quem o sonhador é afeiçoado) quando vier a considerar os sonhos “típicos” [em [1]].
—“Tomo a precaução de retirar antes da ejaculação.” — Acho que posso presumir que o senhor usou esse expediente várias vezes durante a noite, e que depois de repeti-lo pela manhã sentiu-se um pouco inseguro sobre tê-lo executado com êxito.
O senhor deve estar lembrado de que, alguns dias atrás, falávamos das dificuldades do casamento, e de como é incoerente que não haja nenhuma objeção a que se pratique o coito de modo a não permitir que ocorra a fertilização, ao passo que qualquer interferência depois que o óvulo e o sêmen se unem e um feto é formado é punida como crime.
Talvez o senhor tenha ficado sabendo, por meu artigo sobre a etiologia da neurose de angústia [Freud, 1895b], que considero o coitus interruptus como um dos fatores etiológicos no desenvolvimento da angústia neurótica, não é?
[1] Um jovem médico que me ouviu descrever esse sonho durante um ciclo de palestras deve ter ficado muito impressionado com ele, pois imediatamente o reproduziu, aplicando o mesmo padrão de pensamento a outro tema.
Então, sonhou que um conhecido seu foi procurá-lo após sair de uma reunião de membros da comissão de impostos e informou-o de que, embora não se tivesse levantado qualquer objeção a nenhuma das outras declarações, a dele provocara suspeitas generalizadas e uma pesada multa lhe fora imposta.
Os sonhos muito frequentes, que parecem contradizer minha teoria, por terem como tema a frustração de um desejo ou a ocorrência de algo claramente indesejado, podem ser reunidos sob o título de “sonhos com o oposto do desejo”.
Um sonho que parece à primeira vista trazer dificuldades especiais para a teoria da realização de desejos foi sonhado e interpretado por um médico, e relatado por August Stärcke (1911): “Vi em meu dedo indicador esquerdo o primeiro indício [Primäraffekt] de sífilis na falange terminal.” A consideração de que, independentemente do conteúdo indesejado do sonho, ele parece claro e coerente, poderia dissuadir-nos de analisá-lo.
No entanto, se estivermos dispostos a enfrentar o trabalho envolvido, descobriremos que “Primäraffekt” era equivalente a uma “prima affectio” (um primeiro amor), e que a úlcera repelente veio a representar, para citar as palavras de Stärcke, “realizações de desejos com uma alta carga emocional”.
Não obstante, tratava-se de um sonho masoquista de desejo e poderia ser traduzido assim: “Seria bem feito para mim se meu irmão me confrontasse com essa venda, como punição por todos os tormentos que ele teve de aturar de mim.” Espero que os exemplos anteriores sejam suficientes (até que se levante a próxima objeção) para fazer com que pareça plausível que mesmo os sonhos de conteúdo aflitivo devem ser interpretados como realizações de desejos.
Os sentimento aflitivo provocado por esses sonhos é idêntico à repugnância que tende (em geral com êxito) a nos impedir de discutir ou mencionar tais tópicos, e que cada um de nós tem de superar quando, apesar disso, sente-se compelido a penetrar neles.
E é justificável concluirmos que esses sonhos são distorcidos, e que a realização de desejo neles contida é disfarçada a ponto de se tornar irreconhecível, precisamente em vista da repugnância que se sente pelo tema do sonho ou pelo desejo dele derivado, bem como da intenção de recalcá-los.
Estaremos levando em conta tudo o que foi trazido à luz por nossa análise dos sonhos desprazerosos se fizermos a seguinte modificação na fórmula com que procuramos expressar a natureza dos sonhos: o sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado). Resta examinar os sonhos de angústia como uma subespécie particular dos sonhos de conteúdo aflitivo.
Se submetermos o conteúdo do sonho à análise, verificaremos que a angústia do sonho não se justifica melhor pelo conteúdo do sonho do que, digamos, a angústia de uma fobia se justifica pela representação com que se relaciona a fobia.
Assim, constatamos que a mesma coisa pode ser validamente afirmada em relação à fobia e aos sonhos de angústia: em ambos os casos, a angústia está apenas superficialmente ligada à representação que a acompanha;
Num trabalho sucinto sobre a neurose de angústia (Freud, 1895b), argumentei há algum tempo que a angústia neurótica se origina da vida sexual e corresponde à libido que se desviou de sua finalidade e não encontrou aplicação.
Desde então, essa fórmula tem resistido à prova do tempo, permitindo-nos agora inferir dela que os sonhos de angústia são sonhos de conteúdo sexual cuja respectiva libido se transformou em angústia.
Também no decurso de mais uma tentativa de chegar a uma teoria dos sonhos, terei oportunidades de examinar mais uma vez os determinantes dos sonhos de angústia e sua compatibilidade com a teoria de realização de desejos.
Capítulo V - O MATERIAL E AS FONTES DOS SONHOS
Quando a análise do sonho da injeção de Irma nos mostrou que um sonho poderia ser a realização de um desejo, nosso interesse foi a princípio inteiramente absorvido pela questão de saber se teríamos chegado a uma característica universal dos sonhos e sufocamos temporariamente nossa curiosidade sobre quaisquer outros problemas científicos que pudessem surgir durante o trabalho de interpretação.
Tendo seguido um caminho até o fim, podemos agora voltar sobre nossos passos e escolher outro ponto de partida para nossas incursões através dos problemas da vida onírica: por ora, podemos deixar de lado o tópico da realização de desejos, embora ainda estejamos longe de tê-lo esgotado.
Agora que a aplicação de nosso método para a interpretação dos sonhos nos permite descobrir neles um conteúdo latente, que é muito mais significativo do que seu conteúdo manifesto, surge de imediato a tarefa premente de reexaminar um por um os vários problemas levantados pelos sonhos, para ver se não estaremos agora em condições que pareciam inabordáveis enquanto só tínhamos conhecimento do conteúdo manifesto.
No primeiro capítulo, apresentei um relato pormenorizado dos pontos de vista das autoridades sobre a relação dos sonhos com a vida de vigília [Seção A] sobre a origem do material dos sonhos [Seção C].
Sem dúvida, meus leitores se recordarão também das três características da memória nos sonhos [Seção B], tão frequentemente comentadas, porém nunca explicadas:
- Os sonhos mostram uma clara preferência pelas impressões dos dias imediatamente anteriores [em [1] e seg.].
- Têm à sua disposição as impressões mais primitivas da nossa infância e até fazem surgir detalhes desse período de nossa vida que, mais uma vez, parecem-nos triviais e que, em nosso estado de vigília, acreditamos terem caído no esquecimento há muito tempo.
[Ver em [1]]
(A) MATERIAL RECENTE E IRRELEVANTE NOS SONHOS
Se examinar minha própria experiência com a questão da origem dos elementos incluídos no conteúdo dos sonhos, deverei começar pela afirmação de que, em todo sonho, é possível encontrar um ponto de contato com as experiências do dia anterior.
Nos dois sonhos que analisei pormenorizadamente em meus últimos capítulos (o sonho da injeção de Irma e o de meu tio de barba amarela), a relação com o dia anterior é tão evidente que não exige nenhum outro comentário.
Pode-se levantar a questão de determinar se o ponto de contato com o sonho são invariavelmente os acontecimentos do dia imediatamente anterior, ou se ele pode remontar a impressões oriundas de um período bem mais extenso do passado mais recente.
Não obstante, estou inclinado a decidir em prol da exclusividade das solicitações do dia imediatamente anterior ao sonho — ao qual me referirei como o “dia do sonho”.
Sempre que se afigura, a princípio, que a fonte de um sonho foi uma impressão de dois ou três dias antes, a pesquisa mais detida tem-me convencido de que a impressão foi lembrada na véspera, e assim tem sido possível demonstrar que uma reprodução da impressão, ocorrida no dia precedente, poderia ser inserida entre o dia do acontecimento original e o momento do sonho;
Por outro lado, não me sinto convencido de que haja qualquer intervalo regular de importância biológica entre a impressão diurna instigadora e seu ressurgimento no sonho (Swoboda, 1904, mencionou um intervalo inicial de dezoito horas a esse respeito.) Havelock Ellis [1911, 224], que também dispensou certa atenção a esse ponto, declara ter sido incapaz de encontrar qualquer periodicidade dessa ordem em seus sonhos, apesar de tê-la procurado.
Assim, as relações entre o conteúdo de um sonho e as impressões do passado mais recente (com a única exceção do dia imediatamente anterior à noite do sonho) não diferem sob nenhum aspecto de suas relações com as impressões que datam de qualquer período mais remoto.
Os sonhos podem selecionar seu material de qualquer parte da vida do sonhador, contanto que haja uma linha de pensamento ligando a experiência do dia do sonho (as impressões “recentes”) com as mais antigas.
— A questão de “levar flores” lembrou-me um episódio que eu repetira recentemente para um círculo de amigos e que havia usado como prova em favor de minha teoria de que o esquecimento é, com muita frequência, determinado por um objetivo inconsciente, e que sempre permite que se deduzam as intenções secretas da pessoa que esquece.
Certa feita, recordei-me, eu realmente havia escrito algo da natureza de uma monografia sobre uma planta, a saber, uma dissertação sobre a planta da coca [Freud, 1884e], que atraíra atenção de Karl Koller para as propriedades anestésicas da cocaína.
Isso me fez lembrar que, na manhã do dia após o sonho — não tivera tempo de interpretá-lo senão à noite — eu havia pensado na cocaína, numa espécie de devaneio.
O cirurgião que me operasse, que não teria nenhuma ideia de minha identidade, vangloriar-se-ia mais uma vez das facilidades com que essas operações podiam ser realizadas desde a introdução da cocaína, e eu não daria a menor indicação de que eu próprio tivera participação na descoberta.
Um amigo meu, o Dr. Konigstein, cirurgião oftalmologista, o havia operado, enquanto o Dr. Koller se encarregara da anestesia de cocaína e comentara o fato de que esse caso reunira todos os três homens que haviam participado da introdução da cocaína.
Nessa época, eu tinha cinco anos de idade e minha irmã ainda não fizera três, e a imagem de nós dois, jubilosamente reduzindo o livro a frangalhos (folha por folha, como uma alcachofra, percebi-me dizendo), foi quase a única lembrança plástica que guardei desse período de minha vida.
A recordação dessa experiência dos anos posteriores de minha juventude me fez lembrar imediatamente a conversa com meu amigo, o Dr. Königstein, pois no decurso dela havíamos discutido a mesma questão de eu ser criticado por ficar absorto demais em meus passatempos favoritos.
Todos os fluxos de pensamento que partem do sonho — as ideias sobre as flores favoritas de minha esposa e minhas, sobre a cocaína, sobre a dificuldade do tratamento médico entre colegas, sobre minha preferência por estudar monografias e sobre minha negligência para com certos ramos da ciência, como a botânica —, todos esses fluxos de pensamento, quando levados adiante, acabavam por conduzir a uma ou outra das numerosas ramificações de minha conversa com o Dr. Königstein.
O que ela quis dizer foi: “Afinal de contas, sou o homem que escreveu o valioso e memorável trabalho (sobre a cocaína)”, tal como eu dissera a meu favor no primeiro sonho: “Sou um estudioso esforçado e consciencioso.” Em ambos os casos, aquilo em que eu insistia era: “Posso permitir-me fazer isto.” Não há necessidade, porém, de eu levar a interpretação do sonho mais adiante, já que meu único objetivo ao relatá-lo foi ilustrar, por meio de um exemplo, a relação entre o conteúdo de um sonho e a experiência da véspera que o provocou.
A primeira dessas duas impressões com que o sonho se ligou era irrelevante, um fato secundário: eu vira um livro numa vitrina cujo título atraíra por um momento minha atenção, mas cujo assunto dificilmente me interessaria.
A segunda experiência tivera um alto grau de importância psíquica: eu mantivera uma boa hora de conversa animada com meu amigo oftalmologista, no decorrer da qual lhe dera algumas informações que estavam fadadas a afetar de perto a nós dois, e tinham-se avivado em mim algumas lembranças que me haviam despertado a atenção para uma grande variedade de tensões internas em minha própria mente.
No conteúdo manifesto do sonho, só se fez alusão à impressão irrelevante, o que parece confirmar a ideia de que os sonhos têm uma preferência por captar detalhes sem importância da vida de vigília.
Se o sentido do sonho for julgado, como certamente só pode ser, por seu conteúdo latente, tal como revelado pela análise, um fato novo e significativo é inesperadamente trazido à luz.
O inverso é verdadeiro: nossos pensamentos oníricos são dominados pelo mesmo material que nos ocupou durante o dia e só nos damos o trabalho de sonhar com as coisas que nos deram motivo para reflexão durante o dia.
Minha lembrança da monografia sobre o gênero Clicâmen serviria, assim, à finalidade de constituir uma alusão à conversa com meu amigo, tal como o “salmão defumado” do sonho com a ceia abandonada [em [1]] servira de alusão à ideia da sonhadora sobre sua amiga.
A única questão prende-se aos elos intermediários que permitiram à impressão da monografia servir de alusão à conversa com o oftalmologista, considerando que, à primeira vista, não há nenhuma ligação óbvia entre elas.
No exemplo da ceia que não se concretizou, a ligação foi dada imediatamente: sendo o prato predileto da amiga, o “salmão defumado” constituiu um integrante imediato do grupo de representações que tinham probabilidade de ser despertadas na mente da sonhadora pela personalidade de sua amiga.
Neste último exemplo, houve duas impressões soltas que, à primeira vista, só tinham em comum o fato de terem ocorrido no mesmo dia: eu vira a monografia pela manhã e tivera a conversa na mesma noite.
Se não tivesse havido quaisquer influências de outro setor, a representação da monografia sobre a Ciclâmen teria apenas conduzido, imagino eu, à ideia de ele ser a flor favorita de minha mulher e, possivelmente, também ao buquê ausente da Sra.
Como nos diz o texto de Hamlet: “Senhor, para dizer-nos isso era supérfluo Que algum fantasma deixasse a sepultura.” Mas, vejam bem, foi-me lembrado na análise que o homem que interrompeu nossa conversa se chamava Gärtner [Jardineiro] e que eu havia pensado que sua mulher tinha uma aparência florescente.
Outra impressão irrelevante do mesmo dia — pois torrentes dessas impressões penetram em nossa mente e são depois esquecidas — teria tomado o lugar da “monografia” no sonho, estabelecido um elo com o assunto da conversa e servido para representá-lo no conteúdo do sonho.
Não é necessário seguirmos o exemplo de Hänschen Schlau, de Lessing, e nos surpreendermos ante o fato de que “somente os ricos são os que têm mais dinheiro.” Um processo biológico pelo qual, segundo nossa exposição, as experiências irrelevantes tomam o lugar das psiquicamente significativas, não pode deixar de despertar suspeita e espanto.
Nesse momento, estamos apenas interessados nos efeitos de um processo cuja realidade vi-me compelido a presumir mediante observações inumeráveis e regularmente recorrentes feitas na análise dos sonhos.
Desse modo, representações que originalmente só tinham uma carga fraca de intensidade recebem a carga de representações que eram originalmente mais intensamente “catexizadas”, e acabam por adquirir força suficiente para lhes permitir forçar entrada na consciência.
Quando uma solteirona solitária transfere sua afeição para os animais, ou um solteirão se torna um entusiástico colecionador, quando um soldado defende um pedaço de pano colorido — uma bandeira — com o sangue de suas veias, quando alguns segundos de pressão extra num aperto de mão significam a bem-aventurança para o enamorado, ou quando, em Otelo, um lenço perdido desencadeia uma explosão de cólera — todos esses são exemplos de deslocamento psíquicos aos quais não fazemos nenhuma objeção.
Mas, quando ouvimos dizer que uma decisão quanto ao que alcançará nossa consciência e ao que será mantido fora dela — o que pensaremos, em suma — foi tomada da mesma forma e com base nos mesmo princípios, ficamos com a impressão de um evento patológico;
Anteciparei as conclusões a que seremos posteriormente conduzidos para sugerir que o processo psíquico que vimos em ação no deslocamento onírico, muito embora não possa ser classificado de perturbação patológica, difere do normal e deve ser considerado um processo de natureza mais primária.
É de se esperar que a análise de um sonho revele regularmente sua fonte de verdadeira e psiquicamente significativa na vida de vigília, embora a ênfase se tenha deslocado da lembrança dessa fonte para a de uma fonte irrelevante.
Se fosse realmente da alçada dos sonhos aliviar nossa memória das “sobras” das lembranças diurnas através de uma atividade psíquica especial, nosso sono seria mais atormentado e mais trabalhoso do que nossa vida mental quando estamos acordados.
E isso porque o número de impressões irrelevantes contra as quais nossa memória precisaria ser protegida é, sem sombra de dúvida, imensamente grande: a noite não seria longa o bastante para lidar com tal massa.
[Ver em [1]] Ainda não explicamos o fato de uma das impressões irrelevantes da vida de vigília, uma impressão que data, além disso, do dia precedente ao sonho, contribuir invariavelmente para o conteúdo do sonho.
Portanto, deve haver alguma força imperativa no sentido de se estabelecerem ligações precisamente com uma impressão recente, embora irrelevante, e esta deve possuir algum atributo que a torne especialmente adequada para esse fim.
O médico respondeu que estava convencido da capacidade do rapaz, mas que sua aparência provinciana lhe dificultaria o acesso às famílias da classe alta, ao qual retruquei que essa era exatamente a razão pela qual ele necessitava de uma ajuda influente.
Na noite seguinte, sonhei que o jovem em cujo benefício eu intercedera estava sentado numa elegante sala de estar, em meio a um grupo seleto, composto de todas as pessoas ilustres e ricas que eu conhecia, e que, com a desenvoltura de um homem de sociedade, proferia uma oração fúnebre pela velha senhora (que, no meu sonho, já havia falecido), tia de meu segundo companheiro de viagem.
Muitas experiências como essas levam-me a afirmar que o trabalho do sonho está sujeito a uma espécie de exigência de combinar todas as fontes que agiram como estímulos ao sonho numa única unidade no próprio sonho.
Passarei agora à questão de investigar se a fonte investigadora de um sonho, revelada pela análise, tem de ser, invariavelmente, um fato recente (e significativo), ou se uma experiência interna, isto é, a lembrança de um fato psiquicamente importante — um fluxo de pensamentos —, pode assumir o papel de instigadora do sonho.
A fonte de um sonho pode ser:
- (a) uma experiência recente e psiquicamente significativa, que é diretamente representada no sonho;
- (b) várias experiências recentes e significativas, combinadas numa única unidade pelo sonho;
- (c) uma ou mais experiências recentes e significativas, representadas no conteúdo do sonho pela menção a uma experiência contemporânea, mas irrelevante;
- (d) uma experiência significativa interna (por exemplo, um lembrança ou um fluxo de ideias), que é, nesse caso, invariavelmente representada no sonho por uma menção a uma impressão recente, irrelevante.
Essa impressão a ser representada no sonho pode pertencer, ela própria, ao círculo de representações que cercam o verdadeiro instigador do sonho — quer como parte essencial ou insignificante dele ou pode provir do campo de uma impressão irrelevante vinculada às ideias que cercam o instigador do sonho por elos mais ou menos numerosos.
E vale a pena ressaltar que nos é facultado, por essas alternativas, explicar a gama contrastes entre os diferentes sonhos, com a mesma facilidade com que a teoria médica encontra uma possibilidade de fazê-lo através de sua hipótese de células cerebrais que vão do estado parcial ao estado total de vigília (Ver em [1]). Convém ainda observar, se considerarmos esses quatro casos possíveis, que um elemento psíquico que seja significativo, mas não recente (por exemplo, uma sequência de ideias ou uma lembrança), pode ser substituído, para fins de formação de um sonho, por um elemento que seja recente mas irrelevante, bastando para isso que duas condições sejam satisfeitas: (1) o conteúdo do sonho deve estar ligado a uma experiência recente, e (2) o instigador do sonho deve permanecer como um processo psiquicamente significativo.
Disso devemos concluir que o caráter recente de uma impressão lhe confere uma espécie de valor psíquico para fins de construção do sonho, que equivale, de certo modo, ao valor das lembranças ou sequências de ideias emocionalmente carregadas.
A base do valor assim conferido às impressões recentes no tocante à construção dos sonhos só se tornará clara no decurso de nossas discussões psicológicas subsequentes.
Se as impressões irrelevantes só podem penetrar num sonho desde que sejam recentes, como é o que o conteúdo dos sonhos abrange também elementos de um período mais antigo da vida, os quais, na época em que eram recentes, não possuíam, para empregar as palavras de Strümpell [1877, 40 e seg.], nenhum valor psíquico, e portanto deveriam ter sido esquecidos há muito tempo — em outras palavras, elementos que não são nem novos nem psiquicamente significativos?
A explicação é que o deslocamento que substitui o material psiquicamente importante por material irrelevante (tanto nos sonhos como no pensamento) já ocorreu, nesses casos, no período primitivo de vida em questão, e desde então se fixou na memória.
São essas, no sentido mais estrito e mais absoluto, minhas opiniões — se deixar de lado os sonhos das crianças e, talvez, breves reações, nos sonhos, a sensações experimentadas durante a noite.
Dado que esse é outro ponto em que posso esperar que me contradigam, e já que me apraz contar com uma oportunidade de mostrar a distorção onírica em ação, selecionarei alguns sonhos “inocentes” de meu registros e os submeterei à análise.
I Uma jovem inteligente e culta, reservada e retraída em seu comportamento, relatou o seguinte: Sonhei que chegava tarde demais ao mercado e não conseguia nada nem do açougueiro, nem da mulher que vende legumes.
A situação pareceu amoldar-se à frase “Die Fleischbank war schon geschlossen” [“o açougue estava fechado”.] Fiquei alerta: não era essa, ou antes, seu oposto, uma descrição vulgar de certa espécie de descuido nos trajes de um homem?
Quando alguma coisa num sonho tem o caráter de discurso direto, isto é, quando é dita ou ouvida e não simplesmente pensada (e é fácil, em geral, estabelecer a distinção com segurança), então isso provém de algo realmente falado na vida de vigília — embora, por certo, esse algo seja meramente alterado e, mais especialmente, desligado de seu contexto.
Mas somente a frase suprimida, “Comporte-se direito!”, é que se enquadrava no restante do conteúdo do sonho: essas teriam sido as palavras adequadas para se usar se alguém se aventurasse a fazer sugestões impróprias e se esquecesse de “fechar seu açougue”.
Um legume vendido em molho (atado no sentido do comprimento, como a paciente acrescentou depois), e também negro, só poderia ser uma combinação onírica de aspargo e rabanetes (espanhóis) negros.
Haviam-lhe sugerido que tirasse o casaco, mas ela recusara com as seguintes palavras: “Muito obrigada, mas não vale a pena; só posso ficar por alguns minutos.” Enquanto ela me dizia isso, lembrei-me de que, durante a análise do dia anterior, ela de repente segurara o casaco, do qual um dos botões se desabotoara.
Dificilmente podemos duvidar de que tenha reconduzido a tempos ainda mais remotos, se levarmos em conta o termo “repulsivo” e o “barulho horroroso”, e se nos lembrarmos de quantas vezes — tanto nos double entendres como nos sonhos — os hemisférios menores do corpo da mulher são usados, quer como contrastes, quer como substitutos, em lugar dos maiores.
Se examinarmos mais de perto, porém, observaremos que as duas pequenas partes que compõem o sonho não estão em completa harmonia, pois o que poderia haver de “terrível” em vestir um sobretudo pesado ou grosso no frio?
Estavam muito animados e cantavam, ou antes, gritavam, uma canção: Wenn die Königin von Schweden, Bei geschlossenen Fensterläden Mit Apollokerzen… Ou ela não conseguiu ouvir ou não entendeu a última palavra, e teve de pedir ao marido que lhe desse a explicação necessária.
O verso foi substituído no conteúdo do sonho por uma recordação inocente de alguma tarefa que ela executara desajeitadamente quando estava na escola, e a substituição foi possibilitada graças ao elemento comum postigos fechados.
V Para que não fiquemos tentados, com demasiada facilidade, a tirar dos sonhos conclusões sobre a vida real do sonhador, acrescentarei mais um sonho da mesma paciente, que de novo tem uma aparência inocente.
“Sonhei,” disse ela, “com o que realmente fiz ontem: enchi tanto uma maleta de livros que tive dificuldade em fechá-la, e sonhei exatamente com o que aconteceu mesmo.” Nesse exemplo, a própria narradora colocou a ênfase principal na consonância entre o sonho e a realidade.
[Ver em [1] e [2]-[3].] Todas essas opiniões e comentários sobre um sonho, embora consigam um lugar no pensamento de vigília, são invariavelmente, na verdade, parte do conteúdo latente do sonho, como veremos confirmado por outros exemplos mais adiante [em [1]] O que nos foi dito, portanto, é que aquilo que o sonho descrevia tinha realmente acontecido na véspera.
(B) O MATERIAL INFANTIL COMO FONTE DOS SONHOS
Como todos os outros autores nesse assunto, com exceção de Robert, assinalei como terceira peculiaridade do conteúdo dos sonhos poder ele incluir impressões que remontam à primeira infância e que não parecem ser acessíveis à memória de vigília.
Um exemplo particularmente convincente é o apresentado por Maury [1878, 143 e seg., citado em [1]], sobre o homem que um dia tomou a decisão de revisitar sua terra natal após uma ausência de mais de vinte anos.
Ao chegar a casa, verificou que o lugar desconhecido era real e ficava bem nas imediações de sua cidade natal, e que o homem desconhecido do sonho vinha a ser um amigo de seu pai, já falecido, que ainda morava lá.
Esse sonho também deve ser interpretado como um sonho de impaciência, tal como da moça que tinha uma entrada de teatro na bolsa (em [1]), o da criança cujo pai lhe prometera levá-la a uma excursão até o Hameau (em [1]) e sonhos semelhantes.
Alguém que frequentou um de meus ciclos de palestras e que se gabava de que seus sonhos muito raramente sofriam distorção relatou-me que, não fazia muito tempo, sonhara ver seu antigo tutor na cama com a babá que estivera com sua família até os seus onze anos de idade.
É quando o sonho é do tipo que se chama “recorrente”, isto é, quando se teve o sonho pela primeira vez na infância e depois ele reaparece constantemente, de tempos em tempos, durante o sono adulto.
Se passarmos agora do conteúdo manifesto dos sonhos para os pensamentos oníricos que só a análise revela, constataremos, para nosso espanto, que as experiências da infância também desempenham seu papel em sonhos cujo conteúdo jamais levaria alguém a supô-lo.
Após ler a narrativa de Nansen sobre sua expedição polar, ele sonhou que estava num campo de gelo e aplicava ao bravo explorador tratamento galvânico contra um ataque de ciática do qual ele estava sofrendo.
Houve um exemplo semelhante disso quando, no transcurso de minha análise do sonho da monografia sobre o gênero Ciclâmen [ver em [1]], tropecei na lembrança infantil de meu pai, quando eu era um garoto de cinco anos, dando-me um livro ilustrado com pranchas coloridas para que eu o destruísse.
Talvez se possa pôr em dúvida se essa lembrança realmente desempenhou algum papel na determinação da forma assumida pelo conteúdo do sonho, ou se, antes, não terá sido o processo de análise que estruturou subsequentemente a ligação.
Desmantelar como a uma alcachofra, folha por folha (expressão que ecoa constantemente em nossos ouvidos em relação ao desmembramento paulatino do Império Chinês) — herbário — traças de livros, cujo alimento favorito são os livros.
[Ver em [1]] Acompanhamos sua interpretação até o ponto de reconhecer nitidamente, como uma de suas motivações, meu desejo de ser nomeado para o cargo de professor, e explicamos a afeição que senti no sonho por meu amigo R.
E a força de meu desejo de não partilhar do destino deles na questão da indicação evidenciava-se-me como insuficiente para explicar a contradição entre minhas avaliações deles no estado de vigília e no sonho.
Essas profecias devem ser muito comuns: existem inúmeras mães cheias de expectativas felizes e inúmeras velhas camponesas e outras do gênero que compensam a perda de seu poder de controle sobre as coisas do mundo atual concentrando-o no futuro.
Uma noite, quando lá estávamos sentados num restaurante, nossa atenção fora atraída por um homem que ia de mesa em mesa e, mediante uma pequena esmola, improvisava uma composição poética sobre qualquer tópico que lhe fosse apresentado.
Comecei a compreender que meu sonho me conduzira do melancólico presente às animadoras esperanças dos dias do Ministério “Bürger”, que o desejo que ele fizera o máximo por realizar remontava àqueles tempos.
Em outro exemplo tornou-se evidente que, embora o desejo que instigou o sonho fosse um desejo atual, ele recebera um poderoso reforço de lembranças que se estendia a épocas muito distantes da infância.
Ainda por muito tempo, sem dúvida, terei de continuar a satisfazer esse anseio em meus sonhos, pois, na estação do ano em que me é possível viajar, a permanência em Roma deve ser evitada por motivos de saúde.
O material de que se tecia o sonho incluía, nesse ponto, duas daquelas jocosas anedotas judaicas que contêm tão profunda e por vezes amarga sabedoria mundana, e que tanto apreciamos citar em nossas conversas e cartas.
Assim, o sonho expressou, ao mesmo tempo, o desejo de encontrá-lo em Roma, em vez de uma cidade boêmia, e um desejo, que provavelmente remontava aos meus dias de estudante, de que a língua alemã fosse mais tolerada em Praga.
Uma canção de ninar tcheca, que ouvi quando tinha dezessete anos, fixou-se em minha memória com tal facilidade que até hoje posso repeti-la, embora não tenha nenhuma ideia do que significa.
Foi em minha última viagem à Itália, que, entre outros lugares, me fez passar pelo Lago Trasimene, que finalmente — depois de ter visto o Tibre e de ter retornado com tristeza quando me encontrava apenas cinquenta milhas de Roma — descobri de que maneira meu anseio pela cidade eterna fora reforçado por impressões de minha mocidade.
Eu estava no processo de elaborar um plano para contornar Roma no ano seguinte e ir até Nápoles, quando me ocorreu uma frase que devo ter lido em um de nossos autores clássicos: “Qual dos dois, pode-se argumentar, andou de um lado para outro em seu gabinete com maior impaciência, depois de ter elaborado seu plano de ir a Roma — Winckelmann, o Vice-Comandante, ou Aníbal, o Comandante-em-Chefe?” Na realidade, eu vinha seguindo as pegadas de Aníbal.
E quando nas séries mais avançadas comecei a compreender pela primeira vez o que significava pertencer a uma raça estrangeira, e os sentimentos antissemitas entre os outros rapazes me advertiram de que eu precisava assumir uma posição definida, a figura do general semita elevou-se ainda mais em meu conceito.
Sua realização seria perseguida com toda a perseverança e unidade de propósitos do cartaginês, embora se afigurasse, no momento, tão pouco favorecida pelo destino quanto fora o desejo de Aníbal, durante toda a sua vida, de entrar em Roma.
Eu devia ter dez ou doze anos quando meu pai começou a me levar com ele em suas caminhadas e a me revelar, em suas conversas, seus pontos de vista sobre as coisas do mundo em que vivemos.
Contrastei essa situação com outra que se ajustava melhor aos meus sentimentos: a cena em que o pai de Aníbal, Amílcar Barca, fez seu filho jurar perante o altar da casa que se vingaria dos romanos.
(Sem dúvida, essa preferência era também parcialmente explicável pelo fato de o meu aniversário cair no mesmo dia que o dele, exatamente cem anos depois.) O próprio Napoleão se assemelha a Aníbal, por terem ambos atravessado os Alpes.
É possível até que o desenvolvimento desse ideal marcial possa ser remetido a uma época ainda mais remota de minha infância: a época em que, com a idade de três anos, eu tinha uma estreita relação, às vezes amistosa, mas às vezes hostil, com um menino um ano mais velho que eu, e aos desejos que essa relação deve ter suscitado no mais fraco de nós dois.
Quanto mais alguém se aprofunda na análise de um sonho, com mais frequência chega ao rastro das experiências infantis que desempenharam seu papel entre as fontes do conteúdo latente desse sonho.
Sua recordação do evento, de fato, nunca se perdera por completo na vida de vigília, embora tivesse sido muito obscurecida, e sua revivescência foi consequência do trabalho previamente executado na análise.
[Ver em [1].] É verdade que, de modo geral, a cena da infância só é representada no conteúdo manifesto do sonho por uma alusão, e ela se tem de chegar por uma interpretação do sonho.
Tais exemplos, quando registrados não trazem grande convicção, visto que, via de regra, não existe nenhuma outra prova da ocorrência dessas experiências da infância: quando remontam a uma idade muito prematura, elas já não são reconhecidas como lembranças.
A justificação geral para que se infira a ocorrência dessas experiências infantis a partir dos sonhos é proporcionada por toda uma série de fatores do trabalho suficientemente fidedignos.
Se eu registrar algumas dessas experiências infantis arrancadas de seu contexto para fins de interpretação dos sonhos, talvez, elas causem uma fraca impressão, especialmente por eu não poder citar todo o material em que se basearam as interpretações.
— O material que surgiu na análise levou a lembranças de correr de um lado para outro e de fazer travessuras na infância (o leitor sabe o que os vienenses chamam de “eine Hetz” [“uma investida”, “uma corrida furiosa”]).
Um sonho específico relembrou o jogo infantil predileto de dizer uma frase, “Die Kuh rannte, bis sie fiel” [“A vaca correu até cair”] tão depressa que ela soa como se fosse uma única palavra [disparatada] — outra corridinha, na verdade.
Foi então possível inferir que, no conteúdo latente do sonho, ocorrera-lhe a ideia de saber se ela teria que me pagar o dobro caso eu lhe dispensasse o dobro do tempo — ideia que ela considerou avara ou suja.
O elo entre as duas é a palavra “sujo”.) Se todo o trecho sobre esperar que eu dissesse etc., pretendia ser, no sonho, um circunlóquio relativo ao termo “sujo”, então o fato de ela “ficar de pé no canto” e “não se deitar na cama” combinava com o termo, na qualidade de componentes de uma cena de infância: uma cena em que ela sujara a cama e fora punida tendo de ficar de pé num canto, com a ameaça de que o pai não a amaria mais e de que os irmãos e irmãs se ririam dela, e assim por diante.
— Os quadradinhos relacionavam-se com sua sobrinha, que lhe mostrara o truque aritmético de dispor algarismos em nove quadrados (creio que isso está certo), de tal modo que eles somam quinze em todas as direções.
IV Por trás do seguinte sonho (produzido por uma senhora idosa) havia toda uma gama de lembranças da infância, combinadas da melhor forma possível numa única fantasia.
O cair relacionava-se com uma lembrança da primeira infância, ligada ao filho de dezessete anos do porteiro da casa, que caíra na rua com um ataque epilético e fora levado para casa numa carruagem.
Ela, naturalmente, apenas ouvira falar sobre isso, mas a ideia dos ataques epiléticos (da “doença das quedas”) dominara sua imaginação e, mais tarde, influenciara a forma assumida por seus próprios ataques histéricos.
Isso a fez lembrar-se de despachar bagagens a serem enviadas por trem, do costume rural de os namorados subirem e entrarem pela janela de suas namoradas, e de outros pequenos episódios de sua vida no campo: de como um cavalheiro lançara algumas ameixas azuis e uma senhora pela janela de seu quarto, e de como sua própria irmã mais nova se assustara com o idiota da aldeia olhando por sua janela.
Uma lembrança obscura de seus dez anos de idade começou então a emergir, de uma babá do interior que se entregara a cenas amorosas (das quais a menina poderia ter visto algo) com um dos criados da casa, e que, juntamente com seu amante, tinha sido mandada embora, posta para fora (o oposto da imagem onírica “atirada para dentro”) uma história de que já nos havíamos aproximado partindo de várias outras direções.
A bagagem ou mala de um criado é desdenhosamente designada, em Viena, como “sete ameixas”: “arrume suas sete ameixas e dê o fora!” Meus registros naturalmente abrangem uma grande coletânea de sonhos de pacientes cuja análise levou a impressões infantis obscuras ou inteiramente esquecidas, muitas vezes remontando aos três primeiros anos de vida.
Não obstante, ao analisar meus próprios sonhos — e, afinal, não o estou fazendo por causa de nenhum sintoma patológico gritante —, ocorre com frequência não inferior que, no conteúdo latente de um sonho, deparo inesperadamente com uma cena de infância, e imediatamente toda uma série de meus sonhos se vincula com associações que se ramificam de alguma experiência de minha infância.
Em relação às três mulheres, pensei nas três Parcas que fiam o destino do homem, e soube que uma das três mulheres — a estalajadeira do sonho — era a mãe que dá a vida, e além disso (como no meu próprio caso), dá à criatura viva seu primeiro alimento.
Um rapaz que era grande admirador da beleza feminina falava, certa vez — assim diz a história —, da bonita ama-de-leite que o amamentara quando ele era bebê: “Lamento”, observou ele, “não ter aproveitado melhor aquela oportunidade.” Eu tinha o hábito de citar essa anedota para explicar o fator da “ação retardada” no mecanismo das psiconeuroses.
Ao que então minha mãe esfregou as palmas das mãos — exatamente como fazia ao preparar bolinhos de massa, só que não havia massa entre elas — e me mostrou as escamas enegrecidas de epiderme produzidas pela fricção como prova de que éramos feitos de barro.
Meu assombro ante essa demonstração visual não teve limites, e aceitarei a crença que posteriormente iria ouvir expressa nas palavras: “Du bist der natur einen Tod schuldig.” Assim, foram realmente as Parcas que encontrei na cozinha ao entrar nela — como tantas vezes fizera na infância quando sentia fome, enquanto minha mãe, de pé junto ao fogo, me advertia de que eu devia esperar até que o jantar ficasse pronto.
Pelo menos um dos meus professores na Universidade — e precisamente aquele a quem devo meus conhecimentos histológicos (por exemplo, da epiderme) — se lembraria infalivelmente, de uma pessoa de nome Knödl, contra quem fora obrigado a mover um processo por plagiar seus escritos.
A ideia de plágio — de apropriar-se do que quer que se possa, muito na qual eu era tratado como se fosse o ladrão que há algum tempo praticava suas atividades de furtar sobretudos nas salas de conferências.
Uma cadeia de associações (Pélagie — plagiar — plagióstomos ou tubarões [Haifische] — a bexiga natatória de um peixe [Fischblase]) ligou o antigo romance com o caso de Knödl e com os sobretudos, que se referiam claramente a dispositivos empregados na técnica sexual [ver em [1]].
Os sonhos aliterativos de Maury [em [1]].) Sem dúvida, era uma cadeia de ideias muito artificial e sem sentido, mas eu nunca poderia tê-la construído na vida de vigília, a menos que já tivesse sido construída pelo trabalho do sonho.
A ponte verbal acima) lembrou-me o Instituto em que passei as horas mais felizes de minha vida estudantil, livre de todos os outros desejos So wird’s Euch an der Weisheit Brüsten Mit jedem Tage mais gelüsten — em completo contraste com os desejos que agora me atormentavam em meu sonhos.
Finalmente, veio-me à lembrança outro professor muito respeitado — seu nome, Fleischl [“Fleisch”= “carne”], tal como Knödl, soava como algo para comer — e uma cena lastimável em que as escamas de epiderme desempenhavam certo papel (minha mãe e a estalajadeira), bem como a loucura (o romance) e uma droga do dispensário que elimina a fome: a cocaína.
Chamava-se Popovi, nome equívoco sobre o qual um escritor humorístico, Stettenheim, já fez um comentário sugestivo: “Ele me disse o nome e, enrubescendo, pressionou minha mão.” Mais uma vez, apanhei-me fazendo mau uso de um nome, como já fizera com Pélagie, Knödl, Brücke e Fleischl.
Nunca se deve desprezar uma oportunidade, já que a vida é curta, e a morte, inevitável.” Uma vez que essa lição de “carpe diem” tinha, entre outros sentidos, uma conotação sexual, e uma vez que o desejo que ela expressava não se detinha a ideia de agir mal, ele tinha motivos para temer a censura e foi obrigado a se ocultar atrás de um sonho.
Toda sorte de pensamentos de sentido contrário encontraram então expressão: lembranças de uma época em que o sonhador se contentava com um alimento espiritual, ideias restritivas de todo tipo, e até ameaças dos mais revoltantes castigos sexuais.
II O sonho seguinte exige um preâmbulo bastante longo: Eu me dirigia à Estação Oeste [em Viena] a fim de tomar o trem para passar minhas férias de verão em Aussee, mas havia chegado à plataforma enquanto um trem anterior, que ia para Ischl, ainda se encontrava na estação.
O fiscal de bilhetes no portão não o havia reconhecido e tentara pedir-lhe o bilhete, mas o conde o afastara com um breve e abrupto movimento da mão, sem lhe dar qualquer explicação.
Entrementes, estivera cantarolando uma melodia que reconheci como sendo a ária de Fígaro em La Nozze di Figaro: Se vuol ballare, signor contino, Se vuol ballare, signor contino, Il chitarino le suonerò (É um pouco duvidoso que alguma outra pessoa pudesse reconhecer a melodia.) A noite inteira eu me sentira animado e com espírito combativo.
E agora, toda sorte de ideias insolentes e revolucionárias me passavam pela cabeça, combinando com as palavras de Fígaro e com minhas lembranças da comédia de Beaumarchais que eu vira encenada pela Comédie française.
Nesse momento, chegou à plataforma um cavalheiro que reconheci como sendo um inspetor de exames médicos do governo, o qual, por suas atividades nessa função, ganhara o lisonjeiro apelido de “parceiro de soneca do Governo”. Pediu que lhe arranjassem um meio-compartimento de primeira classe em virtude de seu cargo oficial, e ouvi um ferroviário dizer a outro: “Onde devemos pôr o cavalheiro com o meio-bilhete de primeira classe?” Esse, pensei com meus botões, era um belo exemplo de privilégio;
Queixei-me com um funcionário sem conseguir nenhum êxito, mas espicacei-o sugerindo que, de qualquer modo, ele devia mandar fazer um buraco no chão do compartimento para atender às possíveis necessidades dos passageiros.
Foi desafiado a dizer algo sobre os alemães, e declarou, com um gesto desdenhoso, que a flor predileta deles era a unha-de-cavalo, e pôs uma espécie de folha deteriorada — ou melhor, o esqueleto amassado de uma folha — em sua lapela.
(Foi nesse ponto que acordei, sentido necessidade de urinar.) O sonho como um todo dá a impressão de ser da ordem de uma fantasia em que o sonhador foi reconduzido ao ano da Revolução de 1848.
Algumas lembranças desse ano me tinham sido recordadas pelo Jubileu [do Imperador Francisco José] em 1898, bem como uma curta viagem que eu fizera ao Wachau, no decorrer da qual visitara Emmersdorf, o local de retiro do líder estudantil Fischhof, a quem certos elementos do conteúdo manifesto do sonho talvez aludissem.
Essa fantasia revolucionária, contudo, que derivara de ideias despertadas em mim ao ver o Conde Thum, era como a fachada de uma igreja italiana, no sentido de não ter nenhuma relação orgânica com a estrutura por trás dela.
Havíamos tramado uma conspiração contra um professor impopular e ignorante, cuja mola mestre fora um de meus colegas de escola, que desde aquela época parecia ter adotado Henrique VII da Inglaterra como seu modelo.
Um de nossos colegas de conspiração era o único aristocrata da turma, que, em vista do notável comprimento de seus membros, era chamado “a Girafa”. Ele estava de pé, como o conde em meu sonho, depois de ser repreendido pelo tirano da escola, o professor de língua alemã. A flor predileta e o colocar em sua lapela algo da natureza de uma flor (que por último me fez pensar numas orquídeas que eu levara no mesmo dia para uma amiga, e também numa rosa-de-Jericó) eram um esplêndido lembrete da cena de uma das peças históricas de Shakespeare [3 Henrique VI, I, 1] que representava o início das Guerras das Rosas Vermelhas e Brancas.
A isto, alguém que era mais velho que eu e meu superior, alguém que desde então tem demonstrado sua habilidade para liderar homens e organizar grandes grupos (e que também, aliás, tem um nome derivado do Reino Animal), levantou-se e nos passou uma boa descomputura: também ele, disse-nos, havia alimentado porcos em sua juventude e voltara arrependido à casa de seu pai.
Enfureci-me (como no sonho) e repliquei rudemente [“saugrob”, literalmente “grosso como um suíno”], dizendo que, como agora sabia que ele tinha alimentado porcos na juventude, já não ficava surpreso com o tom de seus discursos.
Breve, pensei, eu teria coligido exemplos de imprioridades nos três estados da matéria — sólido, líquido e gasoso —, pois esse mesmo livro, Germinal, que muito tinha a ver com a revolução iminente, continha um relato de uma espécie muito peculiar de competição — para a produção de uma excreção gasosa conhecida pelo nome de flatus.
Vi então que o caminho que levava a flatus fora preparado com grande antecedência: de flores, passando pelo dístico espanhol, Isabelita, Isabel e Fernão, Henrique VIII, história inglesa, até a Armada que navegou contra a Inglaterra e após cuja derrota cunhou-se uma medalha com a inscrição “Flavit et dissipati sunt”, pois a tempestade dispersara a esquadra espanhola.
Eu havia pensado, meio seriamente, em usar essas palavras como epígrafe do capítulo sobre “Terapia”, se algum dia chegasse a ponto de produzir um relato pormenorizado de minha teoria e tratamento da histeria.
Pensei comigo mesmo que não havia justificativa para eu passar pela censura nesse ponto, muito embora a maior parte da história me tivesse sido narrada por um Hofrat (um consiliarius aulicus [conselheiro da corte] — cf.
— A alusão ao candeeiro remontava a Grillparzer, que introduziu um encantador episódio de natureza semelhante, pelo qual ele passara na realidade, em sua tragédia sobre Hero e Leandro, Des Meeres und der Liebe Wellen [“As Ondas do Mar e do Amor”] — a Armada e a tempestade. [1] Devo também abster-me de qualquer análise pormenorizada dos dois episódios restantes do sonho.
Por isso, devo explicar que a análise desses três [últimos] episódios do sonho mostrou que eles eram gabolices impertinentes, produtos de uma megalomania absurda que há muito havia sido suprimida de minha vida de vigília, e algumas de suas ramificações haviam até mesmo acedido ao conteúdo manifesto do sonho (por exemplo, “achei que estava sendo muito astuto”), e a qual, aliás, explicava meu exuberante bom humor na noite que antecedeu o sonho.
Esta cor aparece mais de uma vez no sonho: as violetas de tom castanho-violeta feitas de material rígido e, ao lado delas, uma coisa conhecida por “Mädchenfänger” [“pega-moças”] — e os móveis dos aposentos ministeriais.
As crianças geralmente acreditam que as pessoas ficam impressionadas com qualquer coisa nova. A seguinte cena de minha infância que me foi descrita, e minha lembrança da descrição tomou o lugar da recordação da própria cena: parece que, quando tinha dois anos, eu ainda molhava a cama ocasionalmente, e quando era repreendido por isso, consolava meu pai prometendo comprar-lhe uma bela cama nova e vermelha em N., a mais próxima cidade com alguma importância.
Essa fora a origem da oração entre parênteses do sonho, no sentido de que tínhamos comprado ou tivemos de comprar o urinol na cidade: um sujeito deve cumprir suas promessas. (Note-se, também, a justaposição simbólica do urinol masculino e da mala ou caixa feminina.
No decorrer de sua reprimenda, meu pai deixou escapar as seguintes palavras: “Esse menino não vai dar para nada.” Isso deve ter sido um golpe terrível para minha ambição, pois ainda há referências a essa cena recorrendo constantemente em meus sonhos, e estão sempre ligadas a uma enumeração de minhas realizações e sucessos, como se eu quisesse dizer: “Estão vendo, eu dei para alguma coisa.” Essa cena, portanto, forneceu o material para o episódio final do sonho, no qual — por vingança, é claro — os papéis foram invertidos.
Tinha de entregar-lhe o urinol porque ele era cego e me deleitava com as alusões a minhas descobertas ligadas à teoria da histeria, das quais me sentia muito orgulhoso. [1] As duas cenas de micção de minha infância estavam de qualquer modo, estreitamente ligadas ao tema da megalomania;
Poder-se-ia, penso eu, ficar inclinado a supor que essas sensações tinham sido o verdadeiro agente provocador do sonho, mas prefiro adotar outro ponto de vista, a saber, o de que o desejo de urinar só foi despertado pelos pensamentos do sonho.
[1] Minhas experiências ao analisar sonhos chamaram ainda atenção para o fato de que as sequências de ideias que remontam à mais remota infância partem até mesmo de sonhos que parecem, à primeira vista, ter sido inteiramente interpretados, visto que suas fontes e seu desejo instigador são descobertos sem dificuldade.
E de fato pude mostrar, em minha análise da histeria, que essas experiências antigas permanecem recentes no sentido próprio do termo, até o presente imediato.
Ainda é extremamente difícil demonstrar a verdade dessa suspeita, e terei de voltar, com respeito a outra questão (Capítulo VII [em [1]]), a um exame do provável papel desempenhado pelas experiências primitivas da infância na formação dos sonhos.
Das três características da memória nos sonhos, enumeradas no início deste capítulo, uma — preferência pelo material não-essencial no conteúdo dos sonhos — foi satisfatoriamente esclarecida ao se remontar sua origem à distorção dos sonhos.
Pudemos confirmar a existência das outras duas — a ênfase no material recente e no material infantil — mas não pudemos explicá-las com base nos motivos que levam a sonhar.
Seu lugar apropriado deve ser buscado alhures — quer na psicologia do estado de sono, quer no exame da estrutura do aparelho mental, em que nos envolveremos posteriormente, depois que tivermos compreendido que a interpretação dos sonhos é como uma janela pela qual podemos vislumbrar o interior desse aparelho.
Não só, como mostraram nossos exemplos, podem abranger várias realizações de desejos, uma ao lado da outra, como também pode haver uma sucessão de sentidos ou realizações de desejos superpostos uns aos outros, achando-se na base a realização de um desejo que data da primeira infância.
(C) AS FONTES SOMÁTICAS DOS SONHOS
Se tentarmos interessar um leigo culto nos problemas dos sonhos e, com esse propósito em vista, lhe perguntarmos quais são, em sua opinião, as fontes das quais eles surgem, veremos, de modo geral, que ele se sente seguro de possuir a resposta para essa parte da pergunta.
Ele pensa imediatamente nos efeitos produzidos na construção dos sonhos pelos distúrbios ou dificuldades digestivas — “os sonhos decorrem da indigestão” [ver em [1]] —, pelas posturas acidentalmente assumidas pelo corpo e por outros pequenos incidentes durante o sono.
Já examinei longamente, no capítulo de abertura (Seção C), o papel atribuído pelos autores científicos às fontes somáticas de estimulação na formação dos sonhos;
Verificamos que se distinguiam três espécies diferentes de fontes somáticas de estimulação: os estímulos sensoriais objetivos provenientes de objetos externos, os estados internos de excitação dos órgãos sensoriais com base apenas subjetiva, e os estímulos somáticos provenientes do interior do corpo.
Percebemos, além disso, que as autoridades se inclinavam a colocar em segundo plano, ou a excluir inteiramente, quaisquer possíveis fontes psíquicas dos sonhos, comparadas a esses estímulos somáticos (ver em [1]).
A importância das excitações objetivas dos órgãos sensoriais (consistindo, em parte, de estímulos fortuitos durante o sono e, em parte, de excitações que não podem deixar de influenciar nem mesmo uma mente adormecida) é estabelecida a partir de numerosas observações e foi confirmada experimentalmente (ver em [1]).
E por fim, parece que, embora seja impossível provar que as imagens e representações que ocorrem em nossos sonhos são atribuíveis aos estímulos somáticos internos no grau em que se afirmou que isso se dá, essa origem, ainda assim, encontra apoio na influência universalmente reconhecida que exercem em nossos sonhos os estados de excitação de nossos órgãos digestivos, urinários e sexuais [ver em [1]] Assim, ao que parece, a “estimulação nervosa” e a “estimulação somática” seriam as fontes somáticas dos sonhos — isto é, segundo muitos autores, sua única fonte.
Por outro lado, já encontramos diversas manifestações de dúvida que pareciam implicar uma crítica não à correção, é verdade, mas à suficiência da teoria da estimulação somática.
Por mais seguros de sua base concreta que se sentissem os defensores dessa teoria especialmente no que concerne aos estímulos acidentais e externos, já que estes podem ser detectados no conteúdo dos sonhos without qualquer dificuldade — nenhum deles pôde deixar de perceber que é impossível atribuir a profusão de material de representações dos sonhos apenas aos estímulos nervosos externos.
Assim, além da primeira objeção — a frequência insuficiente das fontes externas de estimulação —, havia uma segunda — a explicação insuficiente dos sonhos proporcionada por essas fontes.
A título de resposta a essas questões, Strümpell (1877, 108 e seg.) nos diz que, como a mente se retrai do mundo externo durante o sono, ela é incapaz de dar uma interpretação correta aos estímulos sensoriais objetivos e é obrigada a construir ilusões com base no que é, em muitos aspectos, uma impressão indeterminada.
Para citar suas próprias palavras: “Tão logo uma sensação ou um complexo de sensações, ou um sentimento, ou um processo psíquico de qualquer espécie surge na mente durante o sono, como resultado de um estímulo nervoso externo ou interno, e isso é percebido pela mente, esse processo convoca imagens sensoriais do círculo de experiências deixadas na mente pelo estado de vigília — ou seja, percepções anteriores — que são puras ou se fazem acompanhar de seus valores psíquicos apropriados.
O resultado dessa interpretação é o que chamamos de um ‘sonho devido à estimulação nervosa’, isto é, um sonho cujos componentes são determinados por um estímulo nervoso que produz seus efeitos psíquicos na mente segundo as leis da reprodução.” [Ver em [1], [2] e [3].] Wundt [1874, 656 e seg.] está dizendo algo essencialmente idêntico a essa teoria ao afirmar que as representações que ocorrem nos sonhos derivam, pelo menos em sua maior parte, de estímulos sensoriais, incluindo especialmente as sensações cenestésicas, e são, por esse motivo, principalmente ilusões imaginativas e, provavelmente apenas em pequeno grau, representações mnêmicas puras intensificadas até assumirem a forma de alucinações.
[Ver em [1]] Strümpell (1877, 84) descobriu um símile adequado para a relação que subsiste nessa teoria entre os conteúdos de um sonho e seus estímulos, ao escrever que “é como se os dez dedos de um homem que nada sabe de música vagassem sobre o teclado de um piano” [Ver em [1] e [2]].
Assim, um sonho não é, segundo essa visão, um fenômeno mental baseado em motivos psíquicos, e sim o resultado de um estímulo psicológico que se expressa em sintomas físicos, pois o aparato sobre o qual o estímulo incide não é capaz de outra forma de expressão.
Uma pressuposição similar também está subjacente, por exemplo, à famosa analogia por meio da qual Meynert tentou explicar as ideias obsessivas: a analogia de um mostrador de relógio no qual certos algarismos sobressaem por estarem estampados de maneira mais proeminentemente do que os demais.
Todo estímulo somático onírico que exija que o aparelho mental adormecido o interprete por meio da construção de uma ilusão pode dar origem a um número ilimitado de tais tentativas de interpretação — isto é, pode ser representado no conteúdo do sonho por uma imensa variedade de representações.
Mas a teoria proposta por Strümpell e Wundt é incapaz de produzir qualquer motivo que reja a relação entre um estímulo externo e a representação onírica escolhida para sua interpretação — isto é, é incapaz de explicar o que Lipps (1883, 170) chama de a “notável escolha frequentemente feita” por esses estímulos “no curso de sua atividade produtiva”.
Outras objeções foram ainda levantadas contra a pressuposição em que se baseia toda a teoria da ilusão — a pressuposição de que a mente adormecida é incapaz de reconhecer a verdadeira natureza dos estímulos sensoriais objetivos.
Burdach, o fisiologista, mostrou-nos há muito tempo que, mesmo no sono, a mente é perfeitamente capaz de interpretar de maneira correta as impressões sensoriais que a alcançaram e de reagir segundo essa interpretação correta;
Lembrou ele o fato de que determinadas impressões sensoriais que parecem importantes para aquele que dorme podem ser excetuadas da negligência geral a que tais impressões ficam sujeitas durante o sono (como no caso da mãe que está amamentando ou da ama-de-leite em relação à criança sob sua responsabilidade), e que é mais certo uma pessoa adormecida ser acordada pelo som de seu próprio nome do que por alguma impressão auditiva indiferente — tudo isso implicando que a mente diferencia as sensações durante o sono (Ver em [1]).
Ou então, posso ficar ciente da sensação em meu sono — posso ficar ciente dela, como se diz, “através” de meu sono (que é o que acontece, via de regra, no caso dos estímulos dolorosos), mas sem que se transforme a dor num sonho.
Alguns outros autores — Scherner [1861] e o filósofo Volkelt [1875], que adotou os pontos de vista de Scherner — fizeram uma estimativa justa das lacunas que aqui indiquei na explicação dos sonhos como devidas à estimulação somática.
Em sua opinião, o trabalho do sonho, quando a imaginação é libertada dos grilhões diurnos, procura dar uma representação simbólica da natureza do órgão do qual provém o estímulo e da natureza do próprio estímulo.
Assim, ele fornece uma espécie de “livro do sonho” para servir como guia para a interpretação dos sonhos, que possibilita deduzir das imagens oníricas inferências sobre as sensações somáticas, o estado dos órgãos e o caráter dos estímulos em questão.
“Assim, a imagem de um gato expressa um estado irritadiço, mau humor e a imagem de um pão macio e de coloração clara representa a nudez física.” [Volkelt, 1875, 32.] O corpo humano como um todo é retratado pela imaginação onírica como uma casa, e os diferentes órgãos do corpo, como partes de uma casa.
Nos “sonhos com um estímulo dental”, um saguão de entrada com teto alto e abobadado corresponde à cavidade oral, e uma escadaria, à descida da garganta até o esôfago.
“Nos sonhos devido às dores de cabeça, o alto da cabeça é representado pelo teto de um quarto coberto de aranhas repulsivas, semelhantes a sapos.” [Ibid., em [1]] Uma multiplicidade desses símbolos é empregada pelos sonhos para representar o mesmo órgão.
O coração será representado por caixas ou cestas vazias, e a bexiga, por objetos redondos em forma de sacos, ou, mais geralmente, por objetos ocos.” [Ibid., 34] “É de suma importância o fato de que, ao final de um sonho, o órgão em causa ou sua função, com frequência, é abertamente revelado, e via de regra, em relação ao próprio corpo sonhador.
Assim, um sonho com um estímulo dental normalmente termina com o sonhador visualizando a si mesmo ao arrancar um dente da boca.” [Ibid., 35.] Não se pode dizer que essa teoria da interpretação dos sonhos tenha sido recebida de maneira muito favorável por outros autores do ramo.
Como se terá percebido, ela envolve uma revivescência da interpretação dos sonhos por meio do simbolismo — o mesmo método que era empregado na Antiguidade, com a exceção de que o campo de onde se extraem as interpretações fica restrito aos limites do corpo humano.
Pode-se fazer uma tentativa de evitar essa crítica, acrescentando-se a condição adicional de que, para suscitar a atividade onírica, é necessário que excitações especiais provenham dos olhos, ouvidos, dentes, intestinos etc.
Se os sonhos de voar são uma simbolização da subida e descida dos lobos dos pulmões [ver em [1]], então, como Strümpell [1877, 119] já assinalou, esses sonhos teriam de ser muito mais frequentes do que são, ou seria necessário provar um aumento da atividade respiratória no decorrer deles.
Há uma terceira possibilidade, que é a mais provável de todas, qual seja, a de que talvez haja motivos especiais temporariamente atuantes dirigindo a atenção para sensações viscerais que estão presentes de maneira uniforme em todos os momentos.
O valor dos pontos de vista expostos por Scherner e Volkelt está no fato de eles chamarem atenção para diversas características do conteúdo dos sonhos que exigem explicação e parecem prometer novas descobertas.
É perfeitamente verdadeiro que os sonhos contêm simbolizações de órgãos e funções do corpo, e que a presença de água num sonho com frequência assinala um estímulo urinário, e que os órgãos genitais masculinos podem ser representados por um bastão erguido ou uma coluna, e assim por diante.
No caso dos sonhos em que o campo visual fica repleto de movimento e cores vivas, em contraste com a insipidez de outros sonhos, dificilmente se poderá deixar de interpretá-los como “sonhos com um estímulo visual”;
Scherner [1861, 167] relata um sonho com duas fileiras de meninos bonitos e louros, postados um de frente ao outro ao longo de uma ponte, que se atacam entre si e então retornam à posição original, até que finalmente o sonhador se viu sentado numa ponte, arrancando um dente enorme de sua boca.
Se ele puder ser confirmado, através de um procedimento não empregado por outros autores em seu material onírico, que os sonhos possuem um valor próprio como atos psíquicos, o de que os desejos são o motivo de sua concentração e que as experiências do dia anterior fornecem o material imediato para seu conteúdo, qualquer outra teoria dos sonhos que despreze um procedimento de pesquisa tão importante e que, por conseguinte, represente os sonhos como uma reação psíquica inútil e enigmática a estímulos somáticos estará condenada, sem necessidade maior de críticas específicas.
De outra forma — e isso parece bastante improvável — teria de haver duas espécies bem diferentes de sonhos, um das quais só eu pude observar, e outra que só pôde ser percebida pelos autores mais antigos.
Já demos o primeiro passo nessa direção ao propor a tese (ver em [1]) de que o trabalho do sonho está sujeito à exigência de combinar em uma unidade os estímulos ao sonhar que estiverem simultaneamente em ação.
Verificamos que, quando duas ou mais experiências capazes de criar uma impressão são deixadas pelo dia anterior, os desejos delas derivados se combinam num único sonho, e, de modo similar, que a impressão psiquicamente significativa e as experiências irrelevantes da véspera são reunidas no material onírico, sempre desde que seja possível estabelecer entre elas representações comunicantes.
Até onde analisamos o material dos sonhos, vimo-lo como uma coletânea de resíduos psíquicos e traços mnêmicos, à qual (em virtude da preferência mostrada por material recente e infantil) fomos levados a atribuir uma qualidade até aqui indefinível de ser “correntemente ativo”.
Quando ela efetivamente ocorre, isso significa que foi possível encontrar, para servir de conteúdo do sonho, um material de representações de tal ordem que é capaz de representar ambos os tipos de fontes do sonho: a somática e a psíquica.
A natureza essencial do sonho não é alterada pelo fato de se acrescentar material somático a suas fontes psíquicas: o sonho continua a ser a realização de um desejo, não importa de que maneira a expressão dessa realização de desejo seja determinada pelo material correntemente ativo.
A meu ver, é uma combinação de fatores individuais fisiológicos e fortuitos, produzidos pelas circunstâncias do momento, que determina como uma pessoa se comportará nos casos específicos de uma estimulação objetiva relativamente intensa durante o sono.
A profundidade habitual ou acidental de seu sono, tomada em conjunto com a intensidade do estímulo, possibilitará, num caso, que ela suprima o estímulo, para que seu sono não seja interrompido e, noutro caso, obrigá-la-á a acordar ou estimulará uma tentativa de superar o estímulo incorporando-o num sonho.
De fato, só anotei um único sonho em que uma fonte objetiva e dolorosa de estímulo é reconhecível, e será muito instrutivo examinar o efeito externo produzido neste sonho em particular.
Mas o sonho não se contentou em “eliminar por sugestão” meu furúnculo pela insistência obstinada numa representação que era incompatível com ele, e em proceder com o delírio alucinatório da mãe que perdera o filho ou do comerciante cujos prejuízos tinham acabado com sua fortuna.
Os detalhes da sensação que estava sendo repudiada e da imagem empregada para reprimir essa sensação também serviram ao sonho como meio de ligar à situação onírica outro material que estava correntemente ativo em minha mente e dar representação a esse material.
A causa de meus furúnculos fora atribuída à ingestão de alimentos muito condimentados — uma etiologia que era ao menos preferível ao açúcar [diabetes] que também poderia ocorrer no contexto dos furúnculos.
(No sonho, eu começava cavalgando tangencialmente — como o feito de um cavaleiro habilidoso.) Mas, na realidade, tal como o cavalo na anedota do cavaleiro de domingo, essa paciente me levara para onde se sentia inclinada.
Não muito antes, um de meus poucos protetores entre os principais médicos desta cidade me observara, com relação a essa mesma casa: “Você me dá a impressão de estar firme na sela lá.” Era um feito notável, também, poder prosseguir em meu trabalho psicoterápico durante oito ou dez horas por dia enquanto estava sentindo tanta dor.
(O bilhete que os neurastênicos trazem com eles para mostrar ao médico: sem dinheiro, sem trabalho.) Mais adiante na interpretação, vi que o trabalho do sonho conseguira descobrir um caminho da situação desejante de cavalgar para algumas cenas de rixas de minha tenra infância que devem ter ocorrido entre mim e um sobrinho meu, um ano mais velho, que agora vivia na Inglaterra.
Uma interpretação ainda mais profunda levou a pensamentos oníricos sexuais, e lembrei-me do sentido que as referências à Itália pareciam ter nos sonhos de uma paciente que nunca visitara aquele adorável país: “gen Italien” [para a Itália] — “Genitalien” [genitais];
Não consegui interpretar esse sonho — um sonho não-visual — e só me lembrei, como parte de sua base, de ter lido um jornal, pouco tempo antes, que Sua Santidade estava sofrendo de uma ligeira indisposição.
O sonho da paciente que afastou do rosto o aparelho resfriador durante a noite [em [1]] apresenta um método incomum de reagir a um estímulo doloroso com uma realização de desejo: foi como se a paciente conseguisse ficar temporariamente em analgesia, ao tempo em que atribuía suas dores a outrem.
Meu sonho sobre o Conde Thun [em [1]] mostrou como uma necessidade física acidental pode ser vinculada aos mais intensos impulsos mentais (mas, ao mesmo tempo, os mais intensamente suprimidos). E um caso como o relatado por Garnier (1872, 1, 476), de como o Primeiro Cônsul incorporou o barulho da explosão de uma bomba num sonho de batalha antes de despertar dele [em [1]] revela com clareza bastante especial a natureza do único motivo que leva a atividade mental a se ocupar de sensações durante o sono.
O nome “Husyatin” continuou a se impor a sua atenção até que ele acordou e viu que sua mulher (que sofria de um catarro brônquico) estava tendo um violento acesso de tosse [em alemão, “husten”].
Comparemos esse sonho de Napoleão I (que, aliás, era dono de um sono extremamente profundo) com o do estudante sonolento que foi acordado por sua senhoria e informado de que era hora de ir para o hospital, e que passou a sonhar que estava numa cama do hospital e continuou a dormir, sob o pretexto de que, já que estava no hospital, não havia necessidade de se levantar e ir até lá [em [1]].
Teremos oportunidade, mais adiante, de justificar essa visão deles em relação aos fatores despertadores de ordem psíquica [ver em [1]], mas já estamos em condições de mostrar que ela é aplicável ao papel desempenhado pelos estímulos externos objetivos.
Ou a mente não presta a mínima atenção às oportunidades de sensações durante o sono — caso possa fazê-lo a despeito da intensidade dos estímulos e da importância que sabe possuírem;
Ou, em terceiro lugar, se for obrigada a reconhecê-los, busca uma interpretação deles que transforme a sensação correntemente ativa em parte integrante de uma situação que seja desejada e compatível com o dormir.
Assim, o desejo de dormir (no qual o ego consciente se concentra e que, justamente com a censura do sonho e a “elaboração secundária” que mencionarei adiante [em [1]], representa a contribuição do ego consciente para o sonhar), deve, na totalidade dos casos, ser reconhecido como um dos motivos da formação dos sonhos, e todo sonho bem-sucedido é uma realização desse desejo.
Examinaremos num outro ponto [em [1]] as relações existentes entre esse desejo universal, invariavelmente presente e imutável de dormir e os demais desejos, dos quais ora um ora outro é realizado pelo conteúdo do sonho.
Mas encontramos no desejo de dormir o fator capaz de preencher a lacuna na teoria de Strümpell e Wundt [em [1]] e de explicar a maneira perversa e caprichosa como são interpretados os estímulos externos.
Quando os estímulos nervosos externos e os estímulos somáticos internos são suficientemente intensos para forçar a atenção psíquica para eles, então — desde que seu resultado seja sonhar e não acordar — eles servem como um ponto fixo para a formação de um sonho, um núcleo em seu material;
A teoria do recalcamento, que é essencial ao estudo das psiconeuroses, afirma que esses desejos recalcados ainda existem — embora haja uma inibição simultânea que os contém.
Na eventualidade, contudo, de um desejo recalcado desse tipo ser levado a efeito, e de sua inibição pelo segundo sistema (o sistema que é admissível à consciência) ser derrotada, essa derrota encontra expressão como desprazerosa.
Concluindo: são sensações de natureza desprazerosa provenientes de fontes somáticas, o trabalho do sonho utiliza essa ocorrência para representar — sujeita à continuidade da censura em maior ou menor grau — a realização de algum desejo que é normalmente suprimido.
Quando isso ocorre, a angústia, como a totalidade do sonho de angústia, tem a significação de um sintoma neurótico, e nos aproximamos do limite em que a finalidade de realização de desejo dos sonhos cai por terra.
[Ver em [1] e [2]] Mas há alguns sonhos de angústias [- os do primeiro grupo -] em que o sentimento de angústia é somaticamente determinado — quando, por exemplo, dá-se uma dificuldade de respiração devida a doenças pulmonares ou cardíacas;
— E, em tais casos, a angústia é explorada a fim de contribuir para a realização, sob a forma de sonhos, de desejos energicamente suprimidos, que se fossem sonhados por motivos psíquicos, levariam a uma libertação semelhante de angústia.
Num dos casos, a angústia somaticamente determinada evoca o conteúdo de representações suprimindo, e no outro o conteúdo de representações, com sua concomitante excitação sexual, livre de repressão, evoca uma liberação de angústia.
As dificuldades que tudo isso oferece à nossa compreensão pouco têm a ver com os sonhos: surgem do fato de estarmos aqui tocando no problema da produção da angústia e no problema do recalcamento.
Ela pode fazer isso, não no sentido de poder proporcionar o conteúdo do sonho, mas no sentido de ser capaz de impor aos pensamentos oníricos uma escolha do material a ser representado no conteúdo, ao destacar parte do material como sendo adequado à sua própria natureza e reter uma outra parte.
Portanto, em minha opinião, as fontes somáticas de estimulação durante o sono (isto é, as sensações durante o sono), a menos que sejam de intensidade incomum, desempenham na formação dos sonhos papel semelhante ao desempenhado pelas impressões recentes, mas irrelevantes, deixadas pelo dia anterior.
Ou seja, creio que elas são introduzidas para ajudar na formação de um sonho caso se ajustem apropriadamente ao conteúdo de representações derivado das fontes psíquicas do sonho, mas não de outra forma.
Quando, para adotar um símile, um patrono das artes leva a um artista uma pedra rara, como um pedaço de ônix, e lhe pede que crie uma obra de arte com ela, o tamanho da pedra, sua cor e suas marcas ajudam a decidir que cabeça ou que cena será nela representada.
É só dessa maneira, ao que me parece, que podemos explicar o fato de o conteúdo onírico proporcionado por estímulos somáticos de intensidade não incomum deixar de aparecer em todos os sonhos ou todas as noites.
Um dia, eu vinha tentando descobrir qual poderia ser o significado das sensações de estar inibido, de estar grudado no lugar, de não poder fazer alguma coisa, e assim por diante, que ocorrem com tanta frequência nos sonhos e se relacionam tão de perto com os sentimentos de angústia.
A única resposta que me ocorreu para o problema foi esta: quando fazia minhas visitas matutinas a essa casa, eu costumava, em geral, ser tomado por um desejo de tossir ao subir a escadaria, e o produto de minha expectoração caía na escada, pois em nenhum dos pavimentos havia uma escarradeira;
Como sempre, eu havia concluído minha rápida visita à paciente, quando a criada me interceptou no saguão e observou: “O senhor podia ter limpado os sapatos, doutor, antes de entrar na sala hoje.
A causa dessa parte do conteúdo do sonho não pode ter sido a ocorrência de alguma modificação especial em meus poderes de movimentação durante o sono, já que apenas um momento antes eu me vira (quase como que para confirmar esse fato) subindo agilmente os degraus.
Além disso, há um interesse especial ligado a esses sonhos típicos porque, presumivelmente, eles decorrem das mesmas fontes em todos os casos e, assim, parecem particularmente aptos a esclarecer as fontes dos sonhos.
Ao tentarmos interpretar um sonho típico, o sonhador, em geral, deixa de produzir as associações que em outros casos nos levariam a compreendê-lo, ou então suas associações tornam-se obscuras e insuficientes, de modo que não conseguimos resolver nosso problema com sua ajuda.
Meus leitores também descobrirão o motivo por que, neste ponto, só posso abordar alguns membros do grupo de sonhos típicos e preciso adiar meu exame dos demais até esse ponto ulterior de minha análise.
[Ver em [1]][2]]
(D1) SONHOS EMBARAÇOSOS DE ESTAR DESPIDO
Os sonhos de estar nu ou insuficientemente vestido na presença de estranhos ocorre, por vezes, com a característica adicional de haver completa ausência de um sentimento como o de vergonha por parte do sonhador.
Interessam-nos aqui, entretanto, apenas os sonhos de estar nu em que de fato se sente vergonha e embaraço e se faz uma tentativa de fugir ou esconder-se, sendo-se então dominado por uma estranha inibição que impede os movimentos e faz o sujeito sentir-se incapaz de alterar sua constrangedora situação. Somente com este acompanhamento é que o sonho é típico;
Sua essência [em sua forma típica] está num sentimento aflitivo da ordem da vergonha e no fato de que se deseja ocultar a nudez, em geral pela locomoção, mas se constata estar impossibilitado de fazê-lo.
O tipo de desalinho costuma ser tão vago que a descrição se expressa como uma alternativa: “Eu estava de camisola ou de anágua.” Em geral, a falha na toalete do sonhador não é tão grave que pareça justificar a vergonha a que dá origem.
No caso de um homem que tenha usado o uniforme do Imperador, a nudez é frequentemente substituída por alguma quebra do regulamento sobre os uniformes: “eu caminhava pela rua sem meu sabre e vi alguns oficiais vindo em minha direção”, ou “Eu estava sem a gravata”, ou ainda, “Eu estava usando calças civis” e assim por diante.
Mas essa característica objetável da situação foi, a meu ver, descartada pela realização do desejo, enquanto alguma força conduziu à retenção das demais características;
O Imperador sai com essa vestimenta invisível e todos os espectadores, intimados pelo poder do tecido de atuar como uma pedra de toque, fingem não notar a nudez do Imperador.
Não chega a ser precipitado presumir que a ininteligibilidade do conteúdo do sonho, tal como ele existe na lembrança, o tenha levado a ser remodelado sob uma forma destinada a dar sentido à situação.
Mas, como veremos adiante, é comum ao pensamento consciente de um segundo sistema psíquico compreender mal o conteúdo de um sonho dessa maneira, e esse mal-entendido deve ser considerado um dos fatores na determinação da forma final assumida pelos sonhos.
O propósito moralizador do sonho revela um conhecimento obscuro do fato de que o conteúdo onírico latente diz respeito a desejos proibidos que foram vítimas do recalcamento.
Um de meus pacientes guarda uma lembrança consciente de uma cena de seus oito anos quando, na hora de dormir, quis ir dançar no quarto ao lado — onde dormia sua irmãzinha —, vestindo seu camisão, mas foi impedido por sua babá.
Na paranoia, os delírios de estar sendo observado ao vestir-se e despir-se encontram sua origem nesse tipo de experiências, ao passo que, entre as pessoas que permanecerem no estágio da perversão, há uma categoria na qual esse impulso infantil alcança o nível de um sintoma — a categoria dos “exibicionistas”.
Já expressei [em [1]] a suspeita de que as impressões da primeira infância (isto é, desde a época pré-histórica até aproximadamente o final do terceiro ano de vida) lutam por alcançar sua reprodução, por sua própria natureza independente, talvez, de seu conteúdo real, e que sua repetição constitui a realização de um desejo.
O núcleo de um sonho de exibição situa-se na figura do próprio sonhador (não como era em criança, mas tal como aparece no presente) e em seu traje inadequado (que emerge indistintamente, seja em virtude de camadas superpostas de inúmeras lembranças posteriores de estar desalinhado, seja como decorrência da censura).
O que toma o lugar deles nos sonhos — “uma porção de estranhos” que não prestam a menor atenção ao espetáculo oferecido não é nada mais, nada menos, do que o contrário imaginário do único indivíduo conhecido diante de quem o sonhador se expunha.
Além disso, o recalcamento desempenha um papel nos sonhos de exibição, pois a aflição experimentada nesses sonhos é uma reação, por parte do segundo sistema, ao fato de o conteúdo da cena de exibição ter encontrado expressão a despeito do veto imposto a ele.
Um de meus amigos chamou-me a atenção para a seguinte passagem de Der grüne Heinrich, de Gottfried Keller [Parte III, Capítulo 2]: “Espero, meu caro Lee, que você jamais aprenda por experiência própria a verdade peculiar e maliciosa dos apuros de Ulisses quando apareceu, nu e coberto de lama, diante dos sonhos de Nausícaa e suas servas!
Se você estiver vagando por terras estranhas, longe de sua pátria e de tudo que lhe é caro, se tiver visto e ouvido muitas coisas, conhecido a tristeza e a inquietação, e se sentir desolado e desesperançado, então infalivelmente sonhará, uma noite, que está se aproximando de casa;
E Homero evocou a imagem de seus apuros da mais profunda e eterna natureza do homem.” A mais profunda e eterna natureza do homem, em cuja evocação nos seus ouvintes o poeta está acostumado a confiar, reside nos impulsos da mente que têm suas raízes numa infância que desde então se tornou pré-histórica.
Deve ser possível, portanto, buscar sua origem em experiências ocorridas durante minha infância, e se estas puderam ser descobertas, elas nos possibilitarão julgar até que ponto o comportamento da criada em relação a mim — sua acusação de eu ter sujado o tapete — contribuiu para dar-lhe seu lugar em meu sonho.
[Ver em [1].] Duas ideias que ocorrem em sequência imediata e sem qualquer conexão aparente são, de fato, parte de uma só unidade que tem de ser descoberta, exatamente do mesmo modo que, seu eu escrever sequencialmente um “a” e um “b”, eles terão de ser pronunciados como uma única sílaba, “ab”.
E assim, a criada, uma vez que tomara a si a tarefa de dar prosseguimento a esse trabalho educacional, adquiriu o direito de ser tratada, em meu sonho, como uma reencarnação da velha babá pré-histórica.
(D2) SONHOS COM A MORTE DE PESSOAS QUERIDAS
Duas classes desses sonhos devem ser distinguidas de imediato: aqueles em que o sonhador não é afetado pela tristeza e, ao acordar, fica atônito ante sua falta de sentimentos, e aqueles em que o sonhador fica profundamente abalado com essa morte e pode até chorar amargamente durante o sono.
Convém notar que o afeto vivenciado no sonho pertence a seu conteúdo latente, e não ao conteúdo manifesto, e que o conteúdo afetivo do sonho permaneceu intocado pela distorção que se apoderou de seu conteúdo de representações.
E, como devo esperar que os sentimentos de todos os meus leitores e os de quaisquer outras pessoas que tenham tido sonhos similares se rebelem contra minha afirmativa, devo tentar fundamentar minhas provas disso na mais ampla base possível.
Quando era pequenina — a data exata não pôde ser fixada com certeza —, ela ouviu dizer que sua mãe caíra em profunda depressão durante a gravidez da qual ela foi o fruto, e que havia desejado ardentemente que a criança que trazia no ventre pudesse morrer.
Quando alguém sonha, com todos os sinais de dor, que seu pai, mãe, irmãos ou irmã morreu, eu jamais usaria esse sonho como prova de que ele deseja a morte dessa pessoa no presente.
Não sei por que pressupomos que essa relação deva ser amorosa, pois os exemplos de hostilidade entre irmãos e irmãs adultos impõe-se à experiência de todos, e é frequente podermos estabelecer o ato de que essa desunião se originou na infância ou sempre existiu.
O filho mais velho maltrata o mais novo, fala mal dele e rouba-lhe os brinquedos, ao passo que o mais novo se consome num ódio impotente contra o mais velho, a quem inveja e teme, ou enfrenta seu opressor com os primeiros sinais do amor à liberdade e com um senso de justiça.
E é certo que seja assim, pois podemos esperar que, antes do fim do período que consideramos como infância, os impulsos altruístas e a moralidade despertem no pequenino egoísta e (para usar os termos de Meynert [por exemplo, 1892, em [1]]) um ego secundário se superponha ao primário e o iniba.
Ela examina o recém-chegado de alto a baixo e declara decisivamente: “A cegonha pode levar ele embora de novo!” Sou seriamente de opinião que uma criança é capaz de fazer uma estimativa justa dos contratempos que terá de esperar nas mãos do pequeno estranho.
Uma senhora conhecida minha, que hoje se dá muito bem com uma irmã quatro anos mais nova, contou-me que recebeu a notícia da chegada desta com a seguinte ressalva: “Mas mesmo assim não vou dar a ela minha boina vermelha.” Mesmo que só mais tarde a criança venha a compreender a situação, sua hostilidade datará desse momento.
Se, depois disso, a cegonha trouxer mais um outro bebê, é bastante lógico que o pequeno favorito alimente o desejo de que seu novo competidor tenha o mesmo destino do primeiro, para que ele próprio possa ser tão feliz quanto era originalmente e durante o intervalo.
Sempre que a conversa se voltava para ela, ele costumava intervir e exclamar com petulância: “Muito f’acota, muito f’acota!” Durante os últimos meses, o crescimento da neném fez progressos suficientes para colocá-la fora do alcance desse motivo específico de desprezo, e o garotinho encontrou outra base para sua afirmação de que ela não merece tanta atenção assim: em todas as ocasiões propícias, ele chama atenção para o fato de que ela não tem dentes.
Todos nos lembramos de como a filha mais velha de outra irmã minha, que era então uma menina de seis anos, passou meia hora insistindo junto a cada uma de suas tias, sucessivamente, para que concordassem com ela: “Lucie ainda não entende isso, não é?”, ficava a perguntar.
Entretanto, ocorreu-lhe outro sonho que, aparentemente, não tinha nenhuma relação com o assunto — um sonho que ela tivera primeira vez quando estava com quatro anos e era ainda a caçula da família, e que havia sonhado repetidamente desde então: “Uma multidão de crianças — todas suas irmãs e irmãos, e primos de ambos os sexos — brincava ruidosamente num campo.
Ela não tinha nenhuma ideia do sentido desse sonho, mas não é difícil reconhecer que, em sua forma original, ele fora um sonho sobre a morte de todos os seus irmãos e irmãs, e só fora ligeiramente influenciado pela censura.
Por ocasião da morte de um membro dessa multidão de crianças (nesse exemplo, os filhos de dois irmãos tinham sido criados juntos como uma só família), a sonhadora, que ainda não completara quatro anos na época, deve ter perguntado a algum adulto sensato o que acontecia com as crianças quando elas morriam.
A resposta deve ter sido: “Elas criam asas e viram anjinhos.” No sonho que se seguiu a essa informação, todos os irmãos e irmãs da sonhadora tinham asas como pequenos anjos e — é este o ponto principal — voavam para longe.
Neste ponto, alguém talvez interrompa: “Admitindo-se que as crianças tenham impulsos hostis em relação a seus irmãos e irmãs, como pode a mente de uma criança chegar a tal extremo de depravação, a ponto de desejar a morte de seus rivais ou de coleguinhas mais fortes do que ela, como se a pena de morte fosse a única punição para todos os crimes?” Quem quer que fale assim terá deixado de levar em conta que a ideia infantil de estar “morto” pouco tem em comum com a nossa, a não ser por essa palavra.
Daí ela brincar com a palavra terrível e usá-la como ameaça contra algum coleguinha: “Se você fizer isso de novo, você vai morrer, como Franz!” Entrementes, a pobre mãe estremece e se lembra, talvez, de que a maior parte da raça humana não consegue sobreviver aos anos de infância.
Quando, durante a fase pré-histórica de uma criança, sua babá é despedida, e quando logo depois que sua mãe morre, esses dois eventos se sobrepõem numa série única em sua memória, como é revelado pela análise.
Muitas mães aprenderam isso, para sua tristeza, quando, após ficarem longe de casa por algumas semanas nas férias de verão, são recebidas, na volta, com a notícia de que nem uma só vez os filhos perguntaram por Mamãe.
Quando a mãe realmente viaja para “aquele país inexplorado de cujas fronteiras nenhum viajante regressa”, de início, parecem esquecê-la, e só depois é que começam a lembrar-se da mãe morta.
E a reação psíquica aos sonhos que contêm desejos de morte prova que, apesar do conteúdo diferente desses desejos no caso das crianças, eles são, não obstante, de uma maneira ou de outra, idênticos aos desejos expressos nos mesmos termos pelos adultos.
Mas, se os desejos de morte de uma criança contra seus irmãos e irmãs são explicados pelo egoísmo infantil que a faz considerá-los seus rivais, como iremos explicar seus desejos de morte contra seus pais, que a cercam de amor e suprem suas necessidades, e cuja preservação esse mesmo egoísmo deveria levá-la a desejar?
Uma solução para essa dificuldade é fornecida pela observação de que os sonhos com a morte de pais se aplicam com frequência preponderante ao genitor do mesmo sexo do sonhador, isto é, que os homens sonham predominantemente com a morte do pai, e as mulheres, com a morte da mãe.
Dito sem rodeios, é como se uma preferência sexual se fizesse sentir numa tenra idade: como se os meninos olhassem o pai, e as meninas a mãe como seus rivais no amor, rivais cuja eliminação não poderia deixar de trazer-lhes vantagens.
As obscuras informações que nos são trazidas pela mitologia e pelas lendas das eras primitivas da sociedade humana fornecem-nos uma imagem desagradável do poder despótico do pai e da crueldade com que ele o usava.
Quanto mais irrestrita era a autoridade paterna na família antiga, mais precisava o filho, como seu sucessor predestinado, descobrir-se na posição de um inimigo, e mais impaciente devia ficar para tornar-se chefe, ele próprio, através da morte do pai.
Mesmo em nossas famílias de classe média, os pais se inclinam, via de regra, a recusar a seus filhos a independência e os meios necessários para obtê-la, fomentando assim o crescimento do germe de hostilidade e que é inerente à sua relação.
As causas de conflito entre filha e mãe surgem quando a filha começa a crescer e ansiar por liberdade sexual, mas se descobre sob a tutela da mãe, enquanto esta, por outo lado, é advertida pelo crescimento da filha de que é chegado o momento em que ela própria deve abandonar suas apropriações à satisfação sexual.
Com eles aprendemos que os desejos sexuais de uma criança — se é que, em seu estágio embrionário, eles mereçam ser chamados assim — despertam muito cedo, e que o primeiro amor da menina é por seu pai, enquanto os primeiros desejos infantis do menino são pela mãe.
Também os pais dão mostras, em geral, da parcialidade sexual: uma predileção natural costuma fazer com que o homem tenda a mimar excessivamente suas filhinhas, enquanto sua mulher toma o partido dos filhos homens, muito embora os dois, quando seu julgamento não é perturbado pela magia do sexo, mantenham uma rigorosa fiscalização sobre a educação dos filhos.
Um menino a quem se permite que durma ao lado da mãe enquanto o pai está fora de casa, mas que tem de voltar para o quarto das crianças e para alguma pessoa de quem gosta muito menos tão logo o pai retorna, pode facilmente começar a formar um desejo de que o pai esteja sempre ausente, de modo que ele próprio possa conservar seu lugar ao lado da querida e adorável Mamãezinha.
Uma maneira óbvia de concretizar esse desejo seria se o pai estivesse morto, pois a criança aprendeu uma coisa com a experiência — a saber, que as pessoas “mortas”, como o Vovô, estão sempre ausentes e nunca mais voltam.
Embora essas observações sobre crianças pequenas se ajustem perfeitamente à interpretação que propus, elas não transmitem uma convicção tão completa quanto a que é imposta ao médico pelas psicanálises de neuróticos adultos.
Eu lhe disse que esse sonho devia significar que, quando criança, ela teria desejado ver a mãe morta, e devia ser por causa do sonho que ela achava que seus parentes deviam julgá-la horrível.
Sua doença começou com um estado de excitação confusional durante o qual ela exibiu uma aversão toda especial pela mãe, batendo nela e tratando-a com grosseria toda vez que ela se aproximava de sua cama, ao passo que, nesse mesmo período, mostrava-se dócil e afetuosa para com uma irmã muitos anos mais velha que ela.
Um imenso número desses sonhos dizia respeito, com maior ou menor grau de disfarce, à morte da mãe: numa ocasião, ela comparecia ao enterro de uma velha;
Este caso, considerado em conjunto com o que eu havia aprendido de outras fontes, foi muito instrutivo: exibia, traduzidos, por assim dizer, em diferentes línguas, os vários modos pelos quais o aparelho psíquico reagiu a uma mesma representação excitante.
No estado confusional, no qual, segundo creio, a segunda instância psíquica foi dominada pela primeira, que é normalmente suprimida, sua hostilidade inconsciente para com a mãe encontrou uma poderosa expressão motora.
Quando se instalou o estado mais calmo, reprimida a rebelião e restabelecido o domínio da censura, a única região acessível em que sua hostilidade poderia realizar o desejo da morte da mãe era a região do sonho.
Após a penosa doença e a morte do pai, surgiram no paciente as autorrecriminações obsessivas — ele contava então 31 anos —, tomando a forma de uma fobia transferida para estranhos.
Não se podia confiar, achava ele, em que uma pessoa capaz de querer empurrar o próprio pai para o precipício, do alto de uma montanha, fosse respeitar as vidas daqueles com quem tivesse uma relação menos estreita;
Apaixonar-se por um dos pais e odiar o outro figuram entre os componentes essenciais do acervo de impulsos psíquicos que se formam nessa época e que é tão importante na determinação dos sintomas da neurose posterior.
Não é minha crença, todavia, que os psiconeuróticos difiram acentuadamente, nesse aspectos, dos outros seres humanos que permanecem normais — isto é, que eles sejam capazes de criar algo absolutamente novo e peculiar a eles próprios.
É muito mais provável — e isto é confirmado por observações ocasionais de crianças normais —, que eles se diferenciem apenas por exibirem, numa escala ampliada, sentimentos de amor e ódio pelos pais, os quais ocorrem de maneira a menos óbvia e intensa nas mentes da maioria das crianças.
Essa descoberta é confirmada por uma lenda da Antiguidade clássica que chegou até nós: uma lenda cujo poder profundo e universal de comover só pode ser compreendido se a hipótese que propus com respeito à psicologia infantil tiver validade igualmente universal.
A criança foi salva e cresceu como príncipe numa corte estrangeira, até que, em dúvida quanto a sua origem, também ele interrogou o oráculo e foi alertado para evitar sua cidade, já que estava predestinado a assassinar seu pai e receber sua mãe em casamento.
A ação da peça não consiste em nada além do processo de revelação, com engenhosos adiamentos e sensação sempre crescente — um processo que pode ser comparado ao trabalho de uma psicanálise — de que o próprio Édipo é o assassino de Laio, mas também de que é o filho do homem assassinado e de Jocasta.
Mas os espectadores ficaram a contemplar, impassíveis, enquanto uma praga ou um vaticínio oracular se realizava apesar de todos os esforços de algum homem inocente: as tragédias do destino posteriores falharam em seu efeito.
Se Oedipus Rex comove tanto uma plateia moderna quanto fazia com a plateia grega da época, a explicação só pode ser que seu efeito não está no contraste entre o destino e a vontade humana, mas deve ser procurado na natureza específica do material com que esse contraste é exemplificado.
Deve haver algo que faz uma voz dentro de nós ficar pronta a reconhecer a força compulsiva do destino no Oedipus, ao passo que podemos descartar como meramente arbitrários os desígnios do tipo formulado em Die Ahnfrau [de Grillparzer] ou em outras modernas tragédias do destino.
Contudo, mais afortunados que ele, entrementes conseguimos, na medida em que não nos tenhamos tornado psiconeuróticos, desprender nossos impulsos sexuais de nossas mães e esquecer nosso ciúme de nossos pais.
Ali está alguém em quem esses desejos primevos de nossa infância foram realizados, e dele recuamos com toda a força do recalcamento pelo qual esses desejos, desde aquela época, foram contidos dentro de nós.
Enquanto traz à luz, à medida que desvenda o passado, a culpa de Édipo, o poeta nos compele, ao mesmo tempo, a reconhecer nossa própria alma secreta, onde esses mesmos impulsos, embora suprimidos, ainda podem ser encontrados.
Há uma indicação inconfundível no texto da própria tragédia de Sófocles, de que a lenda de Édipo brotou de algum material onírico primitivo que tinha como conteúdo a aflitiva perturbação da relação de uma criança com seus pais, em virtude dos primeiros sobressaltos da sexualidade.
Num ponto em que Édipo, embora não tenha sido ainda esclarecido, começa a se sentir perturbado por sua recordação do oráculo, Jocasta o consola fazendo referência a um sonho que muitas pessoas têm, ainda que, na opinião dela, não tenha nenhuma sentido: Muito homem desde outrora em sonhos tem deitado Com aquela que o gerou.
O material onírico dos sonhos de exibição, em [1]) A tentativa de harmonizar a onipotência divina com a responsabilidade humana deve, naturalmente, falhar em relação a esse tema, tal como em relação a qualquer outro.
Mas o tratamento modificado do mesmo material revela toda a diferença na vida mental dessas duas épocas, bastante separadas, da civilização: o avanço secular do recalcamento na vida emocional da espécie humana.
Estranhamente, o efeito esmagador produzido por essa tragédia mais moderna revelou-se compatível com o fato de as pessoas permanecerem em completa ignorância quanto ao caráter do herói.
Vemo-lo fazer isso em duas ocasiões: primeiro, num súbito rompante de cólera, quando trespassa com a espada o curioso que escuta a conversa por trás da tapeçaria, e em segundo lugar, de maneira premeditada e até ardilosa, quando, com toda a insensibilidade de um príncipe da Renascença, envia os dois cortesãos à morte que fora planejada para ele mesmo.
Hamlet é capaz de fazer qualquer coisa — salvo vingar-se do homem que eliminou seu pai e tomou o lugar deste junto a sua mãe, o homem que lhe mostra os desejos recalcados de sua própria infância realizados.
A aversão pela sexualidade expressa por Hamlet em sua conversa com Ofélia ajusta-se muito bem a isto: a mesma aversão que iria apossar-se da mente do poeta em escala cada vez maior durante os anos que se seguiram, e que alcançou sua expressão máxima em Timon de Atenas.
Observo num livro sobre Shakespeare, de Georg Brandes (1896), uma declaração de que Hamlet foi escrito logo após a morte do pai de Shakespeare (em 1601), isto é, sob o impacto imediato de sua perda e, como bem podemos presumir, enquanto seus sentimentos infantis sobre o pai tinham sido recentemente revividos.
Entretanto, assim como todos os sintomas neuróticos e, no que tange a esse aspecto, todos os sonhos são passíveis de ser “superinterpretados”, e na verdade precisam sê-lo, se pretendermos compreendê-los na íntegra, também todos os textos genuinamente criativos são o produto de mais de um motivo único e mais de um único impulso na mente do poeta, e são passíveis de mais de uma interpretação.
[1] Não posso abandonar o tema dos sonhos típicos sobre a morte de parentes queridos sem acrescentar mais algumas palavras, para lançar luz sobre sua importância para a teoria dos sonhos em geral.
Em segundo lugar, nesse caso o desejo recalcado e insuspeitado coincide parcialmente, com extrema frequência, com um resíduo do dia anterior sob a forma de uma preocupação com a segurança da pessoa em questão.
Essa preocupação só consegue penetrar no sonho valendo-se do desejo correspondente, enquanto o desejo pode disfarçar-se por trás da preocupação que se tornou ativa durante o dia.
[ver em [1]] Podemos inclinar-nos a pensar que as coisas são mais simples do que isso e que o sujeito simplesmente dá continuidade, durante a noite e nos sonhos, àquilo que esteve revolvendo na mente durante o dia;
Nesse caso, porém, estaremos deixando os sonhos da morte de pessoas que são caras ao sonhador inteiramente no ar e sem qualquer ligação com nossa explicação dos sonhos em geral, e assim nos estaremos apegando, sem nenhuma necessidade, a um enigma perfeitamente passível de solução.
[Ver em [1]] Assim, podemos ver claramente a finalidade para a qual a censura exerce sua função e promove a distorção dos sonhos: ela o faz para impedir a produção de angústia ou de outras formas de afeto aflitivo.
II Sonhei, certa noite, que via na vitrina de uma livraria um novo volume de uma das séries de monografias para conhecedores que tenho o hábito de comprar — monografias sobre grandes artistas, sobre história mundial, sobre cidades famosas etc.
Quando vim a analisar isso, pareceu-me improvável que devesse preocupar-me, em meus sonhos, com a fama do Dr. Lecher, o orador ininterrupto do grupo dos obstrucionistas do Partido Nacionalista Alemão no Parlamento.
Otto é meu médico de família, e devo-lhe mais do que tenho esperança de algum dia poder retribuir: ele tem cuidado da saúde de meus filhos há muitos anos, tem tratado deles com êxito quando adoecem e, além disso, sempre que as circunstâncias lhe dão uma desculpa, tem-lhes dado presentes.
Mas eu gostaria que alguém que interpretasse o sonho dessa forma tivesse a bondade de me explicar por que meus temores por Otto levaram à doença de Basedow — um diagnóstico para o qual sua aparência real não dá o menor fundamento.
Num grupinho que incluía o Professor R., seguíamos de carruagem em completa escuridão pela floresta de N., que ficava a algumas horas de viagem do lugar onde estávamos passando nossas férias de verão.
Um cavalheiro com sinais inconfundíveis da doença de Basedow — aliás, exatamente como no sonho, apenas com a descoloração castanha da pele do rosto e os olhos esbugalhados, mas sem bócio — colocou-se à nossa inteira disposição e perguntou o que poderia fazer por nós.
(Em meu estado de vigília eu já não me sentia tão seguro disso.) Mas meu amigo Otto era a pessoa a quem eu pedira que cuidasse da educação física de meus filhos, especialmente na época da puberdade (daí o camisolão de dormir), caso alguma coisa me acontecesse.
O Professor R., com quem eu realmente não me arriscaria a me comparar à maneira comum, assemelhava-se a mim no sentido de ter seguido um rumo independente fora do mundo acadêmico, e só obtivera seu merecido título na velhice.
De fato, as próprias palavras “na velhice” eram uma realização de desejo, pois implicavam que eu viveria o bastante para ver meus filhos atravessarem a época da puberdade.
[1]
(D3) OUTROS SONHOS TÍPICOS
Não tenho nenhuma experiência própria de outras espécies de sonhos típicos, nas quais o sonhador se descobre voando em pleno ar, com o acompanhamento de sensações agradáveis, ou se vê caindo, com sensações de angústia;
Não existe um único tio que não tenha mostrado a uma criança como voar, precipitando-se pela sala com ela nos braços estendidos, ou que não tenha brincado de deixá-la cair, balançando-a nos joelhos e de repente esticando as pernas, ou levantando-a bem alto e então fingindo que vai deixá-la cair.
O prazer que as crianças pequenas experimentam nas brincadeiras desse tipo (bem como nos balanços e gangorras) é bem conhecido, e quando elas passam a ver façanhas acrobáticas num circo, sua lembrança de tais brincadeiras é revivida.
As “travessuras” [“Hetzen”] infantis, se é que posso empregar uma palavra que comumente descreve todas essas atividades, são o que se repete nos sonhos de voar, cair, sentir tonturas e assim por diante, enquanto as sensações prazerosas ligadas a essas experiências são transformadas em angústia.
Assim, tenho bons motivos para rejeitar a teoria de que o que provoca os sonhos de voar e cair é o estado de nossas sensações tácteis durante o sono, ou as sensações de movimento de nossos pulmões etc.
[Ver em [1]] A meu ver, essas sensações são reproduzidas, elas próprias, como parte da lembrança a que remonta o sonho, isto é, são parte do conteúdo do sonho, e não sua fonte.
Devo, entretanto, insistir na afirmação geral de que todas as sensações tácteis e motoras que ocorrem nesses sonhos típicos são evocadas tão logo se verifica qualquer motivo psíquico para utilizá-las, e podem ser desprezadas quando não surge tal necessidade deles.
Não sei dizer, porém, que outros significados podem ligar-se à lembrança dessas sensações no curso de fases posteriores da vida — significados diferentes, talvez, em cada caso individual, apesar da aparência típica dos sonhos;
Se alguém se sentir surpreso com o fato de, a despeito da frequência precisamente dos sonhos de voar, cair, extrair dentes etc., eu estar me queixando de falta de material sobre esse tópico específico, devo explicar que eu mesmo não tive nenhum sonho dessa natureza desde que voltei minha atenção para o tema da interpretação dos sonhos.
Uma força psíquica particular, que se relacionou com a estruturação original da neurose e que é mais uma vez acionada quando se fazem tentativas de solucioná-la, impede-nos de interpretar esses sonhos até seu último segredo.
(D4) SONHOS COM EXAMES
Quem quer que tenha passado pelo vestibular no final de seus estudos escolares queixa-se da obstinação com que é perseguido por sonhos angustiantes de ter sido reprovado, ou de ser obrigado a refazer o exame etc.
As lembranças inextirpáveis dos castigos que sofremos por nossas más ações na infância tornam-se ativas em nós mais uma vez e se ligam aos dois pontos cruciais de nossos estudos — o “dies irae, dies illa” de nossos exames mais duros.
As implacáveis cadeias causais da vida real se encarregam de nossa educação ulterior, e passamos a sonhar com o Vestibular ou com os Exames Finais (e quem não tremeu nessas ocasiões, mesmo que estivesse bem preparado para as provas?) sempre que, tendo feito algo errado ou deixado de fazer alguma coisa de maneira apropriada, esperamos ser punidos por esse acontecimento — em suma, sempre que sentimos o fardo da responsabilidade.
Por uma explicação adicional sobre os sonhos com exames tenho de agradecer a um experiente colega [Stekel], que certa vez declarou, numa reunião científica, que, ao que ele soubesse, os sonhos com o Vestibular só ocorriam nas pessoas que tinham sido aprovadas, e nunca nas que foram reprovadas nele.
Ao que parece, portanto, os sonhos de angústia referentes a exames (os quais, como já foi confirmado repetidas vezes, surgem quando o sonhador tem alguma responsabilidade pela frente no dia seguinte e teme que haja um fiasco) procuram alguma ocasião do passado em que uma grande angústia se tenha revelado injustificada e tenha sido desmentida pelos acontecimentos.
[Ver em [1].] O que é considerado um protesto indignado contra o sonho — “Mas eu já sou médico, etc.!” — seria, na realidade, o consolo trazido pelo sonho, e seu enunciado por conseguinte, seria: “Não tenha medo do amanhã!
Em meus sonhos com provas escolares, sou invariavelmente examinado em História, na qual me saí brilhantemente — embora apenas, é verdade, porque [no exame oral] meu bondoso mestre (o benfeitor de um olho só de outro sonho, ver em [1]) não deixou de notar que, no papel que lhe devolvi com as perguntas, eu havia riscado com a unha a questão do meio entre as três formuladas, para avisá-lo que não insistisse naquela pergunta específica.
Um de meus pacientes, que resolvera não fazer o Vestibular na primeira vez, mas depois foi aprovado nele, e que em seguida foi reprovado em seu exame para o exército, não tendo jamais obtido uma patente, contou-me que sonha com frequência com o primeiro desses exames, mas nunca com o segundo.