O Funcionalismo na Antropologia: Teoria e Método

Classificado em Psicologia e Sociologia

Escrito em em português com um tamanho de 4,01 KB

O Funcionalismo na Antropologia

Em antropologia, o funcionalismo corresponde à doutrina que privilegia o estudo da função dos elementos sociais em detrimento do estudo da sua forma. O conceito de forma social designa qualquer aspecto de um complexo de civilização cujas expressões podem ser observadas e transmitidas de uma sociedade para outra. A transmissão de um elemento de civilização é muitas vezes acompanhada pela dissociação da forma e da significação, dado que, na maioria das vezes, esta escapa à compreensão dos indivíduos, enquanto a forma pode ser facilmente apreendida e imitada sem que necessariamente tenha o mesmo significado. Assim, é funcionalista a opinião de quem pretende atribuir uma função a qualquer elemento social.

Por outras palavras, os funcionalistas consideram o estudo da sociedade em termos de organização e funcionamento. O objectivo é evidenciar as relações causais, funcionais e as interdependências entre os factos sociais e as instituições de uma dada sociedade. A análise funcionalista, ao estudar a função de uma instituição num quadro social geral, subentende que os factos sociais estão intimamente ligados entre si.

Principais Representantes

O fundador e o mais notável representante do funcionalismo antropológico foi Malinowski. Contudo, Radcliffe-Brown (1881-1955) esteve igualmente na origem da teoria funcionalista, que mais tarde viria a ser desenvolvida por M. Fortes (1906-1983).

Jean Poirier, apoiado na análise de Raymond Firth (1957), refere que a ideia central da teoria é que, no organismo social, tudo se explica pelas inter-relações entre órgãos e funções. A cultura é vista como uma totalidade orgânica cujos elementos estão interligados, funcionando como um vasto maquinismo. O conceito de relação é fundamental em Malinowski, enfatizando a conexão orgânica entre as partes de uma cultura e a sua resposta às necessidades humanas.

Tipologia das Necessidades

Malinowski criou uma tipologia distinguindo três tipos de necessidades:

  • Necessidades primárias: Biológicas e universais (ex: alimentação).
  • Necessidades derivadas: Próprias da condição humana e específicas das sociedades (ex: educação, linguagem).
  • Necessidades sintéticas: Motivações do psiquismo humano (ex: ideais, religião).

O Funcionalismo como Doutrina e Método

Os analistas modernos apresentam o funcionalismo como doutrina e método:

  • Como doutrina: Postula que a utilidade é a finalidade absoluta da sociedade ou cultura.
  • Como método: Considera que os factos devem ser interpretados no seu contexto e como parte de uma totalidade.

O facto social só revela a sua razão de ser quando apreendido nas suas relações funcionais com outros elementos. Por exemplo, um ritual só é compreensível se for percebida a sua ligação a outros níveis sociais, como a economia ou o parentesco.

Críticas e Evolução

O funcionalismo foi alvo de críticas, especialmente por ignorar a disfunção e a dinâmica da mudança social. Antropólogos dinamistas e a corrente marxista contestaram a sua postura anti-histórica, argumentando que as sociedades são marcadas por conflitos internos e não apenas por equilíbrios harmoniosos. Lévi-Strauss sintetizou essa crítica ao afirmar que dizer que "tudo numa sociedade funciona" é um absurdo.

Todavia, o funcionalismo rectificou os seus excessos. Na prática actual, a análise funcional trata o facto social pelas suas relações de interdependência relativa, sem pressupor uma totalidade definitivamente estruturada ou leis de determinação rígidas.

Entradas relacionadas: