Fundadores da Etnografia e a Escola Sociológica Francesa
Classificado em Psicologia e Sociologia
Escrito em em
português com um tamanho de 7,34 KB
Os fundadores da etnografia: Franz Boas e Bronislaw Malinowski
A prática científica antropológica limitou-se, durante muito tempo, à análise de gabinete. Até perto do início do século XX, os grandes nomes que contribuíram para as descobertas antropológicas não tiveram qualquer contacto direto com a natureza dos factos sobre os quais dissertavam.
A partir do fim do século XIX, todas as escolas antropológicas passaram a considerar a presença do investigador no terreno como absolutamente indispensável, a fim de proceder à colheita direta de dados e à sua descrição, fase imprescindível ao prosseguimento posterior do estudo das realidades socioculturais.
Iniciada por Lewis Morgan junto dos índios iroqueses, a prática da etnologia empírica sistematiza-se com Boas e aperfeiçoa a sua forma científica moderna com Malinowski. De facto, no quadro científico que se perfila no horizonte do fim do século XIX, Franz Boas e Bronislaw Malinowski revolucionam, decisivamente, a metodologia etnológica ao fundarem uma etnografia de terreno de extremo rigor.
Afina os métodos de estudo considerando que, no terreno, tudo deve ser objeto de descrição meticulosa e minuciosa: desde os objetos mais concretos aos aspetos mais simbólicos. Nesta época, o objetivo consistia em constituir arquivos culturais de toda a humanidade. Embora noutro registo, o próprio Evans-Pritchard (1902-1973) referiu que as sociedades que o antropólogo estuda eram do domínio do descritivo e não do explicativo.
Boas, formado em ciências físicas e naturais, compreendia melhor que ninguém esta condição científica e, como tal, não aceitava as generalizações evolucionistas e mesmo difusionistas que considerava não estarem demonstradas nem suscetíveis de serem demonstráveis. É precisamente por recusar qualquer teoria preconcebida, ou proposta de explicação geral, e pensar que cada cultura é dotada da sua própria história irredutível a outras, que Boas elaborou um método extremamente indutivo, implicando um trabalho de recolha exaustiva de dados de terreno.
Boas pensava, de facto, ser impossível descobrir a ordem do quadro global das instituições humanas, atitude radical e estéril partilhada igualmente por Lowie (1883-1957) e designada por Morfologismo de Boas e Lowie.
Porém, se Boas foi um dos precursores do trabalho de campo, é sobretudo Bronislaw Malinowski que é considerado o fundador da modalidade científica moderna da prática etnográfica. A diferença entre a sua abordagem de terreno e a do seu contemporâneo Boas resulta do facto de Malinowski não se preocupar em revelar factos etnográficos com vista à constituição exaustiva de arquivos, mas sim em função da aplicação de um ponto de vista teórico: o aspeto funcional da vida social.
Malinowski, de certo modo inspirado na escola sociológica francesa e na importância que Durkheim dá ao contexto sociológico para fundamentar a explicação dos factos sociais, vai revolucionar a investigação antropológica, colocando no centro desta a importância do inquérito de terreno. Para ele, o contexto sociológico e a explicação dos factos sociais significam conciliar inquérito direto no terreno e reflexão teórica.
Viver a mesma vida que os naturais de um local torna-se, para ele, a condição absolutamente necessária à investigação antropológica. O método da observação participante que ele põe em prática implica procedimentos de inquérito específicos que tiveram uma influência decisiva sobre a reflexão teórica e vice-versa. A necessidade do estudo da realidade social total deve conduzir à síntese da cultura pelo próprio investigador, de modo a que a sua experiência local se torne igualmente na experiência do leitor.
A contribuição teórica da escola de sociologia francesa: Emile Durkheim e Marcel Mauss
Face ao impasse etnográfico, a tradição do racionalismo intelectual francês vai fornecer os primeiros elementos de teoria que irão enquadrar e dar impulso a um novo desenvolvimento da antropologia. De Rousseau (1712-1778) a Durkheim (1858-1917) e deste a Mauss (1872-1950), a sedimentação do pensamento de caráter filosófico acerca das questões sociais, base da sociologia nascente, irá permitir forjar os primeiros princípios do quadro teórico de conceitos e modelos explicativos que carecia até então a disciplina.
Durkheim tem como preocupação demonstrar a autonomia do social em relação a todos os aspetos que não pertençam à sua esfera. Uma autonomia que deveria caracterizar-se pela capacidade de explicação do social pelo social, a qual deveria ser independente da explicação psicológica, histórica, geográfica e biológica. Para Durkheim, a especificidade do facto social significa que este não é redutível à psicologia particular dos indivíduos, mas exterior a estes, preexistindo-lhes e continuando a existir depois deles. Assim, os factos sociais devem ser apreendidos como coisas, só suscetíveis de serem explicados relacionados com factos de mesma natureza.
A sua influência, para além da colaboração direta com Marcel Mauss (seu sobrinho e discípulo), foi importante em França e teve uma grande audiência fora do país. Mas, como se constata, se Durkheim não teve contacto direto com as realidades concretas sobre as quais dissertava, evidenciou, no entanto, as maiores qualidades científicas enquanto analista dessas mesmas realidades, marcando decisivamente as ciências sociais e, nomeadamente, a antropologia social.
Com Mauss (1872-1950), a antropologia francesa inicia a sua autonomia em relação à sociologia. A influência da l'école sociologique française estende-se decisivamente ao domínio antropológico a partir do momento em que esta se passa a interessar pelos factos primitivos. Como o seu predecessor, Mauss pretende afirmar igualmente a autonomia do social mas, ao contrário de Durkheim, considera os fenómenos sociais em todas as suas dimensões humanas. Assim, para Mauss, os fenómenos sociais são em primeiro lugar sociais, mas também, ao mesmo tempo, fisiológicos e psicológicos.
De facto, pode dizer-se que um dos conceitos mais importantes propostos por Mauss foi o de fenómeno social total. Deste postulado, resulta a sua preocupação constante de definir as entidades socioculturais como agregados profundamente integrados. No seu Ensaio sobre o Dom, o autor refere: "Os factos que estudámos são todos (...) factos sociais totais (...) quer dizer, põem em movimento, em certos casos, a totalidade da sociedade e das instituições (...). São «todos», sistemas sociais inteiros, dos quais tentámos descrever o funcionamento. Vimos sociedades no estado dinâmico ou fisiológico. Não os estudámos como se estivessem estáticos num estado único ou cadavérico".