Fundamentos da Psicologia: Aprendizagem e Emoções
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1. Definir Aprendizagem
Podemos definir aprendizagem como uma modificação relativamente estável do comportamento ou do conhecimento, que resulta do exercício, experiência, treino ou estudo. É um processo que envolve processos cognitivos, motivacionais e emocionais, manifestando-se em comportamentos.
Contudo, nem todas as mudanças de comportamento são produto da aprendizagem; há um conjunto de comportamentos que fazem parte da nossa matriz genética e que se atualizam eficazmente sem exigirem aprendizagem, como pestanejar, fazer a digestão, respirar, etc. As alterações comportamentais que são provocadas por doenças, lesões, fadiga, fome, ingestão de álcool ou drogas também não se consideram aprendizagem, apesar de terem como consequência alterações no comportamento.
Podemos afirmar que, no ser humano, a aprendizagem é a base do conjunto de comportamentos que o distinguem dos outros animais. É, também, um processo cognitivo fundamental na adaptação ao meio, tornando-nos humanos.
2. Diferentes Processos de Aprendizagem: Habituação e Sensitização
Existem comportamentos que estão diretamente relacionados com os estímulos do meio e que são previsíveis a partir da presença do estímulo. Este tipo de comportamento insere-se no que se designa por aprendizagens não simbólicas (aprendizagem associativa e não associativa). Outros comportamentos, como cumprimentar as pessoas ou escrever um sumário, são aprendizagens simbólicas, porque envolvem a maneira como interpretamos a realidade e como regulamos o nosso comportamento.
Existem diferentes tipos de aprendizagem, tais como a aprendizagem não associativa, ou seja, a habituação e a sensitização (onde o indivíduo aprende as características de um só tipo de estímulo):
- Habituação: consiste em aprender a não reagir a determinado estímulo, selecionando do meio ambiente o que nos interessa e centrando a nossa atenção no que é essencial.
- Sensitização: consiste em aprender as propriedades de um estímulo ameaçador ou prejudicial. Por exemplo, uma pessoa que se assustou com o disparo de uma pistola vai reagir mais ativamente do que o normal a qualquer ruído nos minutos após o disparo. Através da sensitização, os seres humanos e outros animais aprendem a apurar os seus reflexos para se prepararem para a defesa ou para a fuga.
3. O Processo de Aprendizagem por Condicionamento Clássico
A aprendizagem associativa é mais complexa do que a habituação e a sensitização, dado que, para se aprender, é necessário associar estímulos e respostas ou associar estímulos entre si. Existem dois tipos de aprendizagem associativa: o condicionamento clássico e o condicionamento operante.
O investigador russo Ivan Pavlov (1849-1936), ao estudar os reflexos digestivos do cão, descobriu o reflexo condicionado. Essa experiência consistia em:
- Pavlov apresentava a comida ao cão e este salivava;
- Em seguida, apresentava a carne acompanhada pelo som de uma campainha e o cão salivava. Repetiu várias vezes esta associação (carne + som);
- Ao ouvir apenas o som da campainha, o cão passou a salivar.
A descoberta foi que um estímulo (som), que antes não provocava resposta específica, passou a provocar a salivação após ser associado à carne. Este tipo de aprendizagem, o condicionamento clássico, está presente em animais e humanos. É uma aprendizagem que não envolve a vontade do sujeito: o sujeito é passivo.
4. O Processo de Aprendizagem por Condicionamento Operante
O investigador norte-americano B. F. Skinner desenvolveu uma experiência sobre como as aprendizagens se processam e se mantêm. Para controlar as variáveis, criou a caixa de Skinner, que liberta alimento quando acionada.
O processo consistia em: colocar um rato esfomeado na caixa; o animal explora o ambiente; por acaso, aciona a alavanca recebendo alimento; após várias tentativas bem-sucedidas, o rato passa a premir a alavanca intencionalmente. Esta experiência mostra que o rato aprendeu a obter alimento graças ao reforço (consequência positiva). Se o reforço for suspenso, a resposta extingue-se.
O reforço é um estímulo que aumenta a probabilidade de uma resposta ocorrer. Pode ser:
- Reforço positivo: estímulo com consequências agradáveis.
- Reforço negativo: quando o sujeito evita uma situação dolorosa ao comportar-se de determinado modo.
5. Caracterização dos Processos Emocionais
As emoções são processos desencadeados por um acontecimento, pessoa ou situação, sendo objeto de uma avaliação cognitiva nem sempre consciente. A emoção é uma experiência subjetiva acompanhada por reações orgânicas (ritmo cardíaco, tónus muscular), mímicas, gestos e expressões vocais. Pode traduzir-se numa tendência para a ação (ex: fuga no medo). As expressões emocionais suscitam reações em quem está presente, podendo gerar novas emoções.
6. Tipos de Emoções segundo António Damásio
António Damásio distingue três tipos de emoções:
- Emoções primárias ou universais: alegria, tristeza, medo, aversão, surpresa ou cólera. São inatas e úteis para reações rápidas.
- Emoções secundárias ou sociais: vergonha, ciúme, culpa ou orgulho. Implicam avaliação cognitiva e aprendizagem, envolvendo o córtex pré-frontal.
- Emoções de fundo: bem-estar, mal-estar, calma ou tensão.
7. Distinção entre Emoções e Sentimentos
Segundo Damásio, os sentimentos são estados voltados para o interior (privados), enquanto as emoções são dirigidas para o exterior (públicas/comunicacionais). As emoções são intensas e breves; os sentimentos prolongam-se no tempo e têm menor intensidade expressiva.
Existem três fases: o estado da emoção, o estado do sentimento e o estado de sentimento tornado consciente. Os sentimentos nascem das emoções quando tomamos consciência das reações corporais automáticas e estas são codificadas no cérebro como atividade neuronal.
8. Interdependência entre Processos Cognitivos e Emocionais
A partir da hipótese dos marcadores somáticos, Damásio observou que lesões no córtex pré-frontal (como em Phineas Gage e Elliot) causavam dificuldades em tomar decisões devido à perda da capacidade de se emocionarem. O marcador somático ajuda na decisão, destacando opções favoráveis ou adversas com base em experiências passadas de agrado ou desagrado.
A racionalidade humana apoia-se tanto no neocórtex como no sistema límbico. É absurdo separar cognição de emoção, pois o funcionamento equilibrado da mente exige o contributo da emoção para o bom desempenho de tarefas cognitivas.
9. O Caráter Específico dos Processos Conativos
Historicamente, a conação referia-se à aspiração e ao esforço mental dirigido a um objeto. Hoje, é vista como o conjunto de processos ligados à execução de uma ação que move o ser humano. É a componente subjetiva de disposição interna para a ação, envolvendo esforço, desejo e vontade. No fundo, a conação é a motivação e o empenho que dá significado à ação em direção a um fim.
10. A Psicologia: Campo Antigo e Ciência Recente
Desde o século V a.C., filósofos como Platão e Aristóteles estudavam a mente. Contudo, a psicologia científica só surge em 1879 com a fundação do primeiro laboratório por Wundt. Mais tarde, surgiram Watson, Freud e, recentemente, António Damásio. A distinção reside no método: a psicologia moderna aplica métodos das ciências biológicas e físicas, baseando-se no registo sistemático e na experimentação.
11. O Objeto de Estudo da Psicologia Atual
O objeto da psicologia é o estudo científico do comportamento (atos observáveis) e dos estados mentais (sentimentos, atitudes, pensamentos). A psicologia utiliza métodos como observação, investigação experimental e entrevistas para descrever, explicar, prever e controlar os processos mentais e o comportamento.
12. Teoria da Motivação de Abraham Maslow
Maslow propôs que as motivações humanas organizam-se numa hierarquia de necessidades (Pirâmide de Maslow):
- Necessidades Fisiológicas: base da pirâmide (fome, sede, sono).
- Necessidades de Segurança: proteção e ambiente estável.
- Necessidades de Afiliação: desejo de estar com os outros e ser aceite.
- Necessidades de Estima: sentir-se respeitado.
- Autorrealização: topo da pirâmide, realizar o potencial máximo.
Só se atinge um nível superior se as necessidades do nível anterior estiverem satisfeitas.
13. O Papel de Wundt no Arranque da Psicologia Científica
Wundt foi crucial ao autonomizar a psicologia da filosofia. Definiu como objeto a consciência e como método a introspeção controlada. Procurou uma teoria que conjugasse as dimensões biológica, social, interna e externa. Embora criticado na época, muitos dos seus contributos são hoje fundamentados pelas neurociências.
15. Do Estruturalismo de Wundt ao Behaviorismo de Watson
Watson criticou Wundt, afirmando que a introspeção era subjetiva e limitada a elementos básicos da consciência. Para Watson, a psicologia deveria ser uma ciência natural e objetiva. Ele declarou como objeto o comportamento observável, definido pela relação R = f(S) (Resposta em função do Estímulo). Para os behavioristas, os comportamentos são aprendizagens condicionadas pelo meio, rejeitando a hereditariedade em favor da educação e do meio social.
16. O Papel de Watson na Psicologia Científica
Watson rompeu com as conceções dominantes para dotar a psicologia de um estatuto científico objetivo. Embora a sua visão fosse por vezes simplista, a sua ênfase na influência do meio e nos fatores adquiridos sobre os inatos foi decisiva para o progresso das reformas sociais e da psicologia moderna.