Guia Completo: Fernando Pessoa e os seus Heterónimos

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Álvaro de Campos

1ª Fase - Decadentista

Nesta fase, o poeta exprime o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações (“Opiário”). O decadentismo surge como uma atitude estética finissecular que exprime o tédio, o enfado, a náusea, o cansaço, o abatimento e a necessidade de novas sensações. Esta fase expressa-se como a falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia, com preciosismo, símbolos e imagens, apresentando-se marcado pelo Romantismo e pelo Simbolismo.

Citações que sintetizam a fase: “E afinal o que quero é fé, é calma / E não ter estas sensações confusas.”; “E eu vou buscar o ópio que consola.”; “É antes do ópio que a minha alma é doente”.

2ª Fase – Futurista/Sensacionista

Esta fase foi bastante marcada pela influência de Walt Whitman e de Marinetti (Manifesto Futurista). Nela, Álvaro de Campos celebra o triunfo da máquina e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atração quase erótica pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida. Exalta o progresso técnico, essa “nova revelação metálica e dinâmica de Deus”. A “Ode Triunfal” ou a “Ode Marítima” são exemplos desta intensidade e totalização das sensações.

A par da paixão pela máquina, há a náusea e a neurastenia provocadas pela poluição física e moral da vida moderna. O futurismo nesta fase é visível no elogio da civilização industrial e da técnica (“Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!”, Ode Triunfal), na rutura com o subjetivismo da lírica tradicional e na transgressão da moral estabelecida. Quanto ao Sensacionismo, este revela-se na vivência em excesso das sensações (“Sentir tudo de todas as maneiras” – afastamento de Caeiro), no masoquismo (“Rasgar-me todo, abrir-me completamente, / tornar-me passento / A todos os perfumes de óleos e calores e carvões...”, Ode Triunfal) e na expressão do poeta como cantor lúcido do mundo moderno.

Citações que sintetizam a fase: “Quero ir na vida como um automóvel último modelo”; “Quero sentir tudo de todas as maneiras”.

3ª Fase – Intimista/Pessimista

A fase intimista é aquela em que, perante a incapacidade das realizações, traz de volta o abatimento que provoca “Um supremíssimo cansaço, /íssimo, íssimo, íssimo, íssimo, íssimo, íssimo / Cansaço…”. Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido. Sofre fechado em si mesmo, angustiado e cansado. Como temáticas destacam-se: a solidão interior, a incapacidade de amar, a descrença em relação a tudo, a nostalgia da infância, a dor de ser lúcido, a estranheza e a perplexidade, a oposição sonho/realidade – frustração (ex. “Tabacaria”), a dissolução do “eu”, a dor de pensar e o conflito entre a realidade e o poeta.

Citação que sintetiza a fase: “íssimo, íssimo, ísssimo, íssimo, íssimo, íssimo, cansaço”.

Expressividade da linguagem

  • Nível fónico: Poemas muito extensos e curtos; versos brancos e rimados; assonâncias, onomatopeias exageradas, aliterações ousadas; ritmo crescente/decrescente ou lento nos poemas pessimistas.
  • Nível morfo-sintático: Na fase futurista, excesso de expressão (enumerações, exclamações, interjeições, verbos, estrangeirismos, neologismos). Na fase intimista, modera o nível de expressão, mas mantém a tendência para o exagero.
  • Nível semântico: Apóstrofes, anáforas, personificações, hipérboles, oximoros, metáforas ousadas, polissíndetos.

Ricardo Reis

Aspectos temáticos

  • Harmonia entre o epicurismo e o estoicismo;
  • Autodisciplina, renunciando às fortes emoções;
  • Procura da ataraxia;
  • Renúncia da vida através da recusa do amor e da consciência da inutilidade do esforço de mudança;
  • Elogio do carpe diem e da vida campestre (aurea mediocritas);
  • Fatalismo – o destino é força superior ao homem;
  • Aceitação calma do destino;
  • Obsessão da efemeridade da vida e consciência da fugacidade do tempo;
  • Aparente tranquilidade, na qual se reconhece a angústia existencial do ortónimo;
  • Neopaganismo – os deuses também estão sujeitos ao Fado;
  • Intenção didática dos seus versos;
  • Elogio à carência das ideias dogmáticas e filosóficas.

Aspectos formais

  • Uso de vocabulário erudito e preciso;
  • Recurso a arcaísmos;
  • Formas estróficas e métricas de influência clássica – Ode;
  • Influência latina através da anástrofe e do hipérbato;
  • Predomínio da subordinação;
  • Uso frequente de advérbios de modo e do gerúndio;
  • Uso do imperativo como manifestação de atitude filosófica.

Estilo

Poesia com muitas alusões mitológicas, linguagem culta e precisa, sem qualquer espontaneidade. Estilo neoclássico influenciado pelo poeta latino Horácio, com utilização frequente da ode. Emprego do gerúndio e do imperativo com caráter exortativo, ao serviço do tom sentencioso e do caráter moralista.

Alberto Caeiro

Ao todo tem 104 poemas: 49 em O Guardador de Rebanhos, 6 em O Pastor Amoroso e 49 em Poemas Inconjuntos.

Temas

  • Objetivismo: atitude antilírica; atenção à eterna novidade do mundo; poeta da Natureza.
  • Sensacionismo: poeta das sensações verdadeiras; poeta do olhar; predomínio das sensações visuais e auditivas.
  • Antimetafísico: recusa do pensamento e da compreensão (“pensar é estar doente dos olhos”); recusa do mistério e do misticismo.
  • Panteísmo naturalista: Deus está na simplicidade e em todas as coisas.

Estilo

  • Estilo discursivo e pendor argumentativo.
  • Transformação do abstrato no concreto.
  • Predomínio do substantivo concreto sobre o adjetivo.
  • Linguagem simples e familiar.
  • Liberdade estrófica e métrica; ausência de rima.
  • Predomínio do Presente do Indicativo e raro uso de metáforas.

Fernando Pessoa

“O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (Autopsicografia, 1930).

Considera-se que a grande criação estética de Pessoa foi a invenção heteronímica. Os heterónimos são personalidades poéticas completas que se tornam verdadeiras através da sua manifestação artística. O próprio Fernando Pessoa passou a ser chamado ortónimo. Os três heterónimos mais conhecidos são Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Um quarto heterónimo de grande importância é Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego, considerado um semi-heterónimo. Através dos heterónimos, Pessoa conduziu uma profunda reflexão sobre a relação entre verdade, existência e identidade.

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